[VOLPI, Franco. Guida a Heidegger. Roma: Editori Laterza, 2018]
Quanto ao caráter de acontecimento (Ereignis) do ser, numa anotação à margem da palavra ereignet utilizada na passagem acima citada da Carta sobre o “Humanismo”, adverte que Ereignis indica o “acontecimento da apropriação do ser e do homem” e tem sido “desde 1936 a palavra-guia do meu pensamento”. E com a sua cada vez mais obstinada atenção a este problema, multiplicam-se as tentativas de encontrar uma dicção e uma terminologia adequadas para corresponder ao ser e ao seu peculiar modo de se manifestar: as diferentes soluções adoptadas testemunham o carácter “experimental” das tentativas feitas e a dificuldade do empreendimento com que aqui se aventura.
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Mas é sobretudo na conferência tempo e Ser, de 1962, na qual Heidegger retoma o tema que deveria ter sido tratado na parte inédita de Ser e Tempo, que é apresentada uma reflexão global sobre o ser como Ereignis e sobre o seu enigmático dar-se (Es gibt) juntamente com o tempo. O ser é pensado como a dimensão que, em princípio, escapa às maquinações do homem, mas que, ao mesmo tempo, está com ele numa relação essencial. Na abertura formada pela clareira do ser, abre-se o espaço-tempo em que se situa o ser do homem (Da-sein). E a clareira do ser não é sempre idêntica, mas muda de acordo com a ocorrência e a sucessão das épocas da história, que correspondem às diferentes maneiras pelas quais, de tempos a tempos, o ser é dado e retirado na totalidade dos seus destinos. O acontecimento do ser pode então ser chamado “epocal” no sentido que a palavra grega epoche dá a este adjetivo: no seu dar, retém e retrai segundo o movimento da sua verdade, da sua a-letheia, do seu desvelamento e velamento. Aqui, porém, o que Ereignis faz acontecer parece ser, mais do que a co-parceria do ser e do homem, o “mundo” como o “conjunto dos Quatro”, “Mortal e Divino, terra e Céu”. Aqui Ereignis, de onde provêm as diferentes épocas históricas, é “ele próprio sem história, melhor: sem destino”. A ênfase temática desloca-se assim do título Ser e Tempo para o novo título que Heidegger indica para o seu próprio pensamento, que é Clareira e Presença (Lichtung und Anwesenheit).