2 GA65

VALLEGA-NEU, Daniela. Heidegger’s poietic writings: from contributions to philosophy to the event. Bloomington (Ind.): Indiana university press, 2018.

Contribuições à Filosofia (Do Evento) (GA65)

1. Este capítulo limita-se a uma exposição de aspectos e temas de Contribuições considerados relevantes quanto aos desenvolvimentos e mudanças no pensamento e na linguagem de Heidegger em seus escritos não públicos do evento entre 1936 e 1942, bem como quanto à própria abordagem crítica de sua obra, não podendo fazer justiça a todos os temas e palavras básicas ali introduzidos, remetendo-se o leitor, para uma introdução mais “equilibrada” a Contribuições, a livro anterior da autora, e, para o engajamento mais crítico com o pensamento heideggeriano nessa obra, ao capítulo 3.

A Estrutura de Contribuições

2. Muito antes de sua publicação em 1989, Otto Pöggeler anunciou Contribuições à Filosofia (Do Evento) como a obra maior de Heidegger, concordando Friedrich-Wilhelm von Herrmann com a pequena correção de que se trata de sua segunda obra maior (sendo a primeira Ser e Tempo), havendo boas razões para isso, embora o mais recente dos escritos poiéticos de Heidegger possa levar a pensar de outro modo.

3. Contribuições à Filosofia é o primeiro dos escritos poiéticos de Heidegger e assume abordagem mais radical da questão do ser em relação a Ser e Tempo, o que já lhe confere estatuto especial, sendo também, em comparação com os volumes seguintes, o mais estruturado deles: as seis partes, ou antes “junções” (Fugen) em que se divide convidam o leitor a percorrê-las como uma viagem pelo domínio da verdade do seer em seu desdobramento histórico transicional (de “A Ressonância” a “O Último Deus”).

4. Apesar da dificuldade da linguagem e do pensamento de Contribuições, essa “estrutura” torna o volume, em certa medida, mais acessível à mente academicamente treinada, fornecendo uma “grade” ou “ordem” que permite leitura mais estruturada de um livro que, pelos padrões “normais”, carece de estrutura própria, aparecendo antes como compilação de reflexões e notas.

5. Heidegger situa explicitamente o pensamento de Contribuições num caminho do primeiro início ao outro início da filosofia e da história ocidentais, caminho que se abre primeiramente nesse pensamento, sendo um pensamento transicional, um “exercício preliminar” de dizer a conjuntura (Fuge) da verdade do seer, isto é, do modo como o ser se oculta e se desvela historicamente, constituindo também uma tentativa de fornecer “uma primeira elaboração da conjuntura (A ressonância — O último deus)”.

6. A conjuntura da verdade do seer possui seis junções: a ressonância (Anklang) da verdade do seer como recusa no reconhecimento do abandono dos entes pelo ser; o interjogo (Zuspiel) entre o primeiro e o outro início; o salto (Sprung) para o ser-aí (Da-sein), isto é, para o desvelamento do seer; a fundação (Gründung) dessa abertura mediante seu abrigamento em palavras, obras, atos, coisas; os vindouros (die Zukünftigen), envolvidos criativamente nessa fundação; e o último deus (der letzte Gott), cujo passar-ao-largo funda um outro início da história para um povo, sendo esses os domínios da verdade do seer em sua historicidade tal como percorridos e abertos no pensamento transicional de Contribuições.

7. Essas seis junções possuem, em certa medida, caráter sequencial relacionado tanto ao modo como a questão da verdade do seer se desdobra no caminho de pensamento de Heidegger quanto ao modo como se acredita que a verdade do seer se abre historicamente, procurando-se aqui esboçar esse caráter quase sequencial das junções de Contribuições, ciente de que muito permanecerá inexplicado.

8. Todo o domínio da verdade do seer só se abre para aqueles que possuem um senso de aflição em nossa época, que a enfrentam e por ela são desassossegados, constituindo-se a aflição pelo fato de que os entes (coisas e acontecimentos no sentido mais amplo) são abandonados pelo ser, não abrigando verdade alguma.

9. Essa “sequência” das junções ou “fugas” da verdade do seer em transição do primeiro ao outro início não pode ser simplesmente entendida como sequencial em sentido linear, dizendo Heidegger explicitamente que as conjunturas não devem ser lidas como sequência linear que constitua “uma ascensão passo a passo do baixo ao alto” e que, em cada uma das seis junções, tenta-se dizer o mesmo sobre o mesmo, mas cada vez a partir de um domínio essencial distinto daquilo que se chama o evento.

10. Mais tarde Heidegger abandonará a noção de “salto” e criticará Contribuições por ser demasiado “doutrinária”, entrelaçando-se de fato sua tentativa de dizer a partir do evento com explicações de conceitos e reflexões sobre a diferença entre o pensamento transcendental de Ser e Tempo e o pensamento inceptivo de Contribuições, o que sugere certa tentativa de guiar os potenciais leitores rumo a seu “novo” pensamento, permanecendo além disso, em suas preleções públicas da época, nos domínios das duas primeiras junções, buscando acender no público um senso de aflição e uma reflexão sobre o primeiro início e seu término (a metafísica), a fim de preparar aqueles capazes de escutar para o “salto” rumo ao outro início.

11. A principal tentativa de Contribuições permanece, contudo, a de dizer a partir do evento, notando-se que já na última parte de Contribuições (acrescentada às seis junções pelo editor do volume) se encontra (por exemplo, na seção 267) a tentativa de dizer a verdade do seer como evento em suas múltiplas dimensões de apropriação sem recorrer às seis junções como antes, mas antes partindo da aflição dos deuses.

12. Heidegger está ciente do “perigo” de tomar a conjuntura da verdade do seer (com suas seis junções) por um “sistema”, refletindo sobre essa questão em vários pontos da “Perspectiva”, sendo também explícito quanto à impossibilidade de o pensamento seer-histórico assumir a forma de um sistema: “A época dos 'sistemas' passou. A época que elaboraria a forma essencial dos entes a partir da verdade do seer ainda não veio. No ínterim, na transição para o outro início, a filosofia precisa ter realizado algo essencial: o projeto, isto é, a fundação e abertura, do campo de jogo temporal-espacial da verdade do seer [Da-sein].”

13. Para Heidegger, a época dos sistemas passou porque tais sistemas pressupõem o pensamento metafísico em termos de ideias representadas que podem ser ordenadas como blocos de uma casa, o que não impede que obras sistemáticas continuem a ser produzidas no campo acadêmico da filosofia, embora tais obras não respondam realmente à situação histórica presente, nem, sobretudo, ao modo como o ser ocorre, ou antes, se retira, em nossa época.

14. A noção de unicidade ou singularidade (Einzigkeit) do evento recorre ao longo de Contribuições e é decisiva a esse respeito, não significando a unicidade da ocorrência essencial (Wesung) do seer a ideia de um único ente compreendido como possuindo essência não temporal, nem se referindo a um evento único no tempo cronologicamente concebido, devendo antes a singularidade ser compreendida em contraste com “o geral”.

15. A luta de Heidegger é sempre a de afastar os modos de compreensão determinados pela racionalidade moderna, sendo os gregos, e mais especificamente os pré-socráticos, quem o ajudam a recuperar um sentido de ser como autoemergente (assim ele lê a noção grega de φύσις), donde a necessidade do pensamento transicional, do interjogo entre o primeiro início (gregos) e o outro início ainda não (historicamente) começado, mas intimado (e assim iniciado), estando Heidegger, em Contribuições, ainda em busca, mas tentando dizer “à maneira de um exercício preliminar” (Vorübung), como no outro início.

Disposições Fundamentais do Pensamento

16. Como pensar de tal modo que o pensado emerja “por si mesmo”? Como colocar o pensamento a serviço da verdade do seer em seu acontecer histórico? Diria Heidegger que isso requer “rigor” (Strenge), sendo o que permite esse rigor e uma direção ao pensamento disposições ou atitudes fundamentais (Grundstimmungen) do pensamento não fundadas na subjetividade humana, mas antes surgidas daquilo “que” clama por ser pensado.

17. Em Ser e Tempo (1927), a disposição fundamental exemplar de Heidegger é a angústia (Angst); em Contribuições (1936–1939), a mais frequentemente mencionada é a “contenção” (Verhaltenheit), pertencendo a verdade do ser que a contenção desvela, segundo Heidegger, ao outro início, ainda que, em termos da história de um povo ou de uma época, esse outro início ainda não tenha começado.

18. As disposições fundamentais são complexas: na seção 5 de Contribuições, Heidegger medita mais detidamente sobre a disposição fundamental da contenção, intrinsecamente ligada tanto ao choque, permitindo o acompanhamento dessa análise das disposições fundamentais alguma percepção sobre como Heidegger chegou a articular as primeiras junções de Contribuições (a ressonância, o interjogo e o salto).

19. O choque por si só não basta para permitir ao pensamento habitar a verdade que nele se abre, sendo necessário, assim como o prisioneiro desacorrentado na caverna de Platão precisa ser forçado à ascensão, outro impulso para que o pensamento esteja presente na abertura abismal do outro início (havendo muitos modos de fuga da ausência de fundamento do ser, aplicando-se aqui também o que Heidegger escreve em Ser e Tempo sobre os modos pelos quais o Dasein busca fugir de enfrentar sua própria mortalidade, havendo conexão interna entre o desvelamento do seer como retirada e a abertura para a própria finitude).

20. Heidegger aborda a dimensão temporal desvelada na disposição fundamental de Contribuições mais explicitamente ao falar do pressentimento (Ahnung) como disposição fundamental, sendo o pressentimento “em si mesmo, a um só tempo, choque e exaltação”, “atravessando e medindo a totalidade da temporalidade: o campo de jogo temporal-espacial do 'aí'”.

21. No pensamento tradicional, as intimações foram concebidas como “subjetivas”, tendo a temporalidade primordial de que fala Heidegger sido interpretada como “temporalidade interior”, podendo dizer-se que seu sentido de temporalidade extática se relaciona de algum modo com o que Agostinho desenvolve no Livro XI das Confissões como “distentio animi”, um distender-se da alma.

22. O pressentimento é um dos muitos nomes que Heidegger dá às disposições fundamentais do outro início, destacando-se em cada nome um aspecto específico, falando Heidegger na maioria das vezes, contudo, de contenção, o que acompanha certa ênfase colocada na necessidade de suportar (ausstehen) a abertura abismal da verdade, destacando-se aqui certa tensão que também ressoa na noção de Inständigkeit, que substitui a noção de existir ou de êxtases em Ser e Tempo.

23. O suportar (assim como o choque) é apenas um momento da contenção, havendo outro momento discutido na seção 5, que marca um “voltar-se-para” a retirada na hesitação da retirada: a Scheu, que normalmente significa timidez, mas que Heidegger não quer que se entenda nesse sentido, sendo antes uma atitude de abertura hesitante diante da retirada.

24. Mais adiante em Contribuições, Heidegger falará com menos frequência do pudor, mas antes de manter-se em silêncio (Verschweigung), que (segundo diz na seção 5) cresce a partir do pudor, preparando o manter-se em silêncio “a grande quietude” para o passar-ao-largo do último deus, sendo o silêncio, ao mesmo tempo, a dimensão originária da linguagem.

A Aflição de Nossa Época: Maquinação e Vivência

25. Que o pensamento ainda não tenha concedido um dizer próprio do evento tem, para Heidegger, razões históricas; que ele se encontre ao mesmo tempo necessitado a tentar um dizer do evento também tem razões históricas — razões históricas não no sentido de fatos históricos, diria Heidegger, mas em termos de determinações que dirigem como um mundo e relações mundanas se desdobram, permanecendo toda a discussão das disposições fundamentais em Heidegger algo indeterminada enquanto não se aprofunda o olhar sobre a aflição de nossa época.

26. Heidegger aborda a aflição de nossa época especialmente na junção “ressonância”, meditando sobre ela em relação a toda a história da filosofia ocidental, encontrando-se as raízes da maquinação, para Heidegger, já na Grécia Antiga, marcadas pelo momento em que a noção de τέχνη sobrepuja a φύσις, quando o ser passa a ser abordado em termos de fabricabilidade.

27. A história do primeiro início é a história do abandono dos entes pelo ser, que corresponde à história da maquinação em sentido mais amplo, abordando Heidegger isso especialmente na seção 61, “Maquinação”, onde diz que a maquinação designa um modo pelo qual o ser ocorre essencialmente.

28. Heidegger não pensa que o domínio da maquinação seja falha humana nossa, mas antes uma consequência necessária do modo como o ser inicialmente ocorreu na história ocidental, sendo em nossos tempos atraídos a pensar em termos de fabricabilidade e produtividade, encontrando-nos respondendo ao impulso de produzir mais eficiente e rapidamente, sendo atraídos a planejar e calcular cada vez mais antecipadamente.

29. O traço básico da maquinação, no qual os entes sempre já nos interpelam, é (segundo Heidegger) reforçado e ao mesmo tempo velado pela “vivência” (Erlebnis), fornecendo a seção 63 indicação concisa de como se deve compreender isso: relacionar os entes representados a si mesmo como centro relacional e assim incorporá-los à “vida”; o que pode contar como efetivamente “sendo” é apenas o que é ou pode ser objeto de uma vivência, o que se impõe no âmbito da vivência, o que os humanos podem trazer a si mesmos e diante de si mesmos.

30. Heidegger compreende a vivência a partir de uma relação representacional (vorstellungshaft) com as coisas, significando a palavra alemã Vorstellung, literalmente traduzida, colocar algo diante de si, enfatizando isso uma diferenciação sujeito-objeto que se torna cada vez mais marcada na metafísica ocidental, de modo que finalmente, na filosofia moderna, o sujeito autoconsciente se compreende em oposição ao mundo.

31. A vivência reforça a aflição do abandono dos entes pelo ser porque, na vivência, os humanos pensam estar de fato mais próximos da vida, sentem-se mais vivos e assim não experienciam aflição alguma, o que fecha qualquer necessidade de questionamento, qualquer possibilidade de serem chocados e desassossegados rumo a uma relação mais profunda com a verdade, agora compreendida como desvelamento-ocultante do seer em sua retirada.

32. Para abrir outras possibilidades ao desdobramento da história, modos pelos quais os entes deixem de ser abandonados e um sentido mais pleno e mais originário de ser possa ressoar — em outras palavras, para abrir a possibilidade de um outro início — a aflição de nossos tempos (o abandono dos entes pelo ser) precisa ser experienciada e reconhecida, de tal modo que — no choque — o pensamento seja desassossegado para a situação intempestiva de estar-aí na abertura do autoocultar-se do seer, sendo essa abertura intrinsecamente a abertura de um tempo-espaço de decisão.

O Estar-em-Decisão

33. “Decisão” é um dos conceitos predominantes especialmente na “Perspectiva” de Contribuições, sendo a tarefa fundamental de Contribuições, tal como Heidegger a articula explicitamente, preparar um fundamento, um sítio (o tempo-espaço do Da-sein) para a decisão sobre o outro início, que seria marcado pela quietude do passar-ao-largo do último deus.

34. O pensamento intempestivo de Contribuições, que se encontra desassossegado numa experiência do seer em sua recusa, encontra-se precisamente desassossegado num espaço de decisão sobre a história do seer, sendo o pensamento inceptivo nesse sentido, ainda que por si só não possa iniciar a inceptividade de uma outra época.

35. Na seção 44, Heidegger lista muitas decisões que acompanham a decisão de um outro início, referindo-se aqui apenas a algumas delas: “se o ser humano deseja permanecer o 'sujeito', ou se o ser humano funda o Da-sein”, sendo digno de nota que Heidegger nomeia essa decisão primeiro, parecendo de algum modo reconfirmar a necessidade de sua abordagem mais antiga (Ser e Tempo) à questão do ser.

36. “Se a verdade como correção degenera na certeza da representação e na segurança do cálculo e da vivência, ou se a essência inicialmente infundada da ἀλήθεια vem a ser fundada como a clareira do autoocultar-se” — destaca-se essa decisão também por sua centralidade na obra de Heidegger, concernindo especialmente ao interjogo entre o primeiro início (grego) e o outro início.

37. “Se a natureza é degradada a um domínio explorável de cálculo e organização e a uma ocasião para 'vivência', ou se, como terra que se resguarda a si mesma, ela sustenta o domínio aberto do mundo sem imagem” — destaca-se essa decisão apesar de Heidegger falar muito pouco de natureza e terra em Contribuições, mencionando a terra em sua relação com o mundo com mais frequência do que a natureza, devendo-se ter em mente que o importante ensaio “Da Origem da Obra de Arte” foi escrito na mesma época que Contribuições e deve ser lido como desenvolvendo certo aspecto desse pensamento (a tarefa da obra de arte de pôr a verdade em obra e assim fundar o Da-sein), destacando-se essa decisão porque a destruição da natureza e o papel que nela desempenhamos os humanos torna-se cada vez mais visível, permitindo Heidegger uma reflexão sobre as raízes dessa ocorrência.

38. “Se a ausência do divino nos entes celebra seus triunfos na cristianização da cultura, ou se a aflição da indecidibilidade quanto à proximidade e ao afastamento dos deuses prepara um espaço de decisão” — está, para Heidegger, o pensamento da fundação (a decisão de um outro início) inextricavelmente ligado ao divino, permanecendo a compreensão do “advento e afastamento dos deuses” bem como do “passar-ao-largo do último deus” uma das questões mais difíceis, abordada aqui sobretudo negativamente, isto é, em termos do que Heidegger não quer (não pode) dizer.

39. Ao pensar a decisão em termos da decisão de um outro início da história para um povo, é difícil não voltar a pensar de modo sequencial, quase linear, levando inevitavelmente a isso a seção 45 de Contribuições, que fala da necessidade dos vindouros (e de um povo).

40. Seguir o pensamento heideggeriano até o espaço do estar-em-decisão leva ao próprio coração do evento, não estando aqui a decisão ainda articulada num ou-ou, mas sendo o tempo-espaço onde tais articulações emergem, pensando Heidegger o evento na e como uma reviravolta.

41. A de-cisão como a qual a verdade do seer ocorre no Dasein de-cide humanos e deuses em seu encontro e abre o que Heidegger chama a contenda de mundo e terra (tendo-se aqui um precursor da quadratura posterior de mortais e divindades, céu e terra), significando isso que não basta pensar o evento como a relação de reviravolta entre o seer e os humanos.

42. Na seção 7, Heidegger diferencia a abertura do sítio de decisão sobre os deuses da ocorrência do evento que traz humanos e deuses a um encontro, escrevendo primeiro que, se, por meio de um deslocamento, os humanos vêm a estar no evento e nele permanecem constantes na verdade do seer, ainda assim se encontram apenas à beira do salto para a experiência decisiva de se, no evento, a permanência ausente ou a intrusão do deus decide a favor ou contra os humanos.

43. Heidegger fala continuamente nesses diferentes registros em Contribuições: por um lado, articula a abertura transicional, ainda que já inceptiva, da verdade do seer, onde o seer permanece em sua recusa e os entes são abandonados pelo ser, sendo aqui a recusa suportada de tal modo que o Da-sein e, nele, a verdade do seer se desvelam; por outro lado, pensa adiante a ocorrência do evento em termos do início (fundação) de uma outra história, quando os entes não mais seriam abandonados pelo ser.

Beyng e Entes: Fundação e Abrigamento

44. Isso conduz à problemática da fundação (Gründung) em relação ao caráter inceptivo e ainda assim preparatório do próprio pensamento heideggeriano, sendo necessário, para que o evento ocorra inceptivamente e inicie uma nova época da história do seer, que a verdade do seer seja fundada no Da-sein, o que traria a verdade para o aberto de um mundo e a colocaria na terra.

45. A simultaneidade de seer e entes marca diferença decisiva entre o modo como Heidegger aborda a questão do ser em Contribuições e o modo como a abordou em Ser e Tempo, aproximando-se a obra anterior do ser não apenas pela transcendência do Dasein (designando aqui Dasein mais estritamente o ser dos humanos), mas também pela articulação da diferença ontológica.

46. Em Contribuições, Heidegger funde essas duas “camadas” fundacionais (a ôntica e a ontológica) e tenta permanecer numa experiência autêntica de ser e falar a partir dessa experiência, não havendo, então, diferença estrutural operante entre modos ôntico e ontológico de pensamento.

47. Isso, contudo, não abole a diferença entre seer e entes, refletindo Heidegger, na seção 266 de Contribuições (perto do fim da última parte do livro), sobre a diferença ontológica, sobre como é necessária para abrir caminho da pergunta diretriz da metafísica (o que são os entes) à pergunta fundamental (da verdade do seer), mas dificulta precisamente um pensar a partir do evento.

48. Pode-se, contudo, abordar a diferença entre seer e entes em Contribuições de outro modo, pensando-a a partir da decisão (no sentido literal de cisão ou diferenciação) como a qual a verdade do seer se desdobra inceptiva e ainda assim transitoriamente, requerendo isso alerta para a emergência de um espaço de decisão no qual alguém se encontra como participante, e não como agente, um alerta que não objetifica nem o espaço de decisão nem a si mesmo.

49. O “aí” do ser-aí primeiramente se desvela como fundamento abissal, como “o afastar-se do fundamento” (GA65: 379), referindo-se esse afastar-se ao abandono dos entes pelo seer, experienciado como um modo de deixar não cumprido, vazio (Heidegger começou a pensar isso como o ser-deixado-vazio constitutivo do tédio profundo em 1929/1930).

50. De modo análogo, o pensamento de Contribuições encontra-se na atração da autorretenção historicamente determinada do ser, e nessa atração ocorre um clareamento do fundamento abissal, um clareamento (Lichtung) da ocultação, sendo esse clareamento da ocultação (verdade) a recusa hesitante do seer.

51. O clareamento do seer ocorre a partir de um vazio que dispõe o pensamento (e, acrescente-se, dispõe também nosso ser corpóreo), meditando Heidegger mais sobre esse vazio disponente como constituindo o clareamento ou abertura escancarada do tempo-espaço, falando de “um bocejar originário aberto na autorretenção hesitante”, o que lembra quase o Caos no início da Teogonia de Hesíodo, sendo o clareamento do tempo-espaço um temporalizar e um espacializar a um só tempo.

52. Heidegger escreve que a autorretenção cria um vazio “que é em si mesmo transportador [ entrückend ], isto é, transportador para o 'porvir' e assim, simultaneamente, rompendo o que foi”, constituindo este último, ao impactar-se junto com o porvir, o presente como um mover-se para o abandono que rememora e espera.

53. Poder-se-ia dizer que, para Heidegger, o temporalizar marca mais o aspecto extático do tempo-espaço, isto é, a abertura da recusa e o transporte para essa recusa, ao passo que o espacializar marca mais o “manter aberto” que ocorre num suportar que permite ao clareamento do tempo-espaço ter constância.

54. No transporte para a recusa do seer e na captação no abraço (que implica suportar e assim manter aberta a recusa), abre-se um tempo-espaço de decisão, a decisão sobre a possibilidade de um outro início, sendo aqui que o pensamento de Contribuições é inceptivo (anfänglich), que o pensamento sonda (ergründen) o tempo-espaço da verdade e pensa inventivamente (erdenken) e diz essa mesma ocorrência, cada vez de novo, cada vez na singularidade de uma experiência do seer.

O Aspecto Performativo da Escrita de Heidegger

55. Gostaria de concluir as seções expositivas sobre Contribuições com algumas observações sobre o aspecto mais performativo da escrita de Heidegger, não permitindo a ênfase em explicar o que ele tenta fazer que transpareça plenamente o caráter tentativo e buscante de sua escrita, os muitos pontos de interrogação e interpolações que insere no texto, e as inúmeras repetições de pensamento especialmente em relação a conceitos como evento, verdade, Da-sein, pensamento inceptivo, decisão, ressonância, abandono pelo ser, maquinação e vivência, interjogo, primeiro e outro início, salto, seer e entes, ocorrência essencial (Wesung) do seer, tempo-espaço, filosofia, havendo mais a dizer sobre as partes intituladas “Ressonância” e “Interjogo”, mas retornando os temas relacionados a essas junções em Besinnung, o próximo dos escritos poiéticos, a ser tratado mais detidamente no capítulo 3.

56. A densidade das seções de Contribuições é desigual, entendendo-se por densidade, por exemplo, seções muito compactas e complexas, como a sobre tempo-espaço e abismo já mencionada, que pensam “de dentro” de uma experiência de um instante de decisão e buscam cuidadosa e lentamente as palavras apropriadas.

57. Grande parte do pensamento de Contribuições dedica-se à preparação da transição para o outro início, estabelecendo Heidegger parâmetros através da sequência de junções e colocando ênfase nas duas primeiras (a ressonância e o interjogo), sugerindo também o salto certo sentido de ruptura entre reflexões e experiências preliminares preparatórias, de um lado, e a plena imersão no pensamento do evento, de outro.

58. Heidegger não está, então, satisfeito com o “estilo” de pensamento em Contribuições, por não considerá-lo disposto pela contenção de maneira adequada, encontrando-se contenção ressoando especialmente através do uso frequente de palavras como “suportar”, “perdurar”, “sustentar”, “permanecer em…”, e “constância”.

59. Na seção “Seer e Entes: Fundação e Abrigamento” acima, Heidegger falou da contenção como a “vontade” que se une ao choque que desloca o pensamento da cotidianidade e desvela o abandono dos entes pelo seer, tendo essa “vontade” sido interpretada em relação ao suportar que Heidegger considera necessário, havendo, contudo, também outro momento por ele mencionado quanto à disposição básica do pensamento inceptivo, a saber, o pudor (Scheu), menos marcada por tensão e mais por atenção, um recolhimento em direção ao silêncio.

60. É interessante que há menos passagens em Contribuições dedicadas ao pudor e ao silêncio do que ao suportar e seus cognatos, havendo, além das seções 37 e 38, nas quais Heidegger fala mais sobre a necessidade do portar-silêncio (Erschweigen), apenas poucas passagens em que menciona explicitamente o silêncio.

61. Heidegger associa estilo à fundação no sentido de abrigar a verdade nos entes, como ocorre na obra de arte, sendo o abrigamento da verdade, contudo, precisamente aquilo que Contribuições ainda não pode fazer (segundo Heidegger), não possuindo ainda o pensamento o estilo, a certeza, e a medida firme.

62. Heidegger repensa aqui a noção de conhecer fora do âmbito da representação, não sendo o conhecer a presença imediata de um objeto de pensamento, mas a relação constante com o que se oculta a si mesmo (a verdade como desvelar-ocultar), caracterizando também, na seção 26, o conhecer como renúncia: “o mais alto conhecer é aquele que se torna forte o bastante para ser a origem de uma renúncia”, não apenas “mantendo firme” essa renúncia, mas também trazendo à luz “através de luta e sofrimento” o “entre”, o tempo-espaço de decisão para um outro início.

63. O que Heidegger retém da compreensão mais comum do conhecer é — novamente — um sentido de constância, de permanência e firmeza em meio à luta, sendo o portar-silêncio também caracterizado por esse sentido de conhecer, e o questionar ocorrendo dentro desse conhecer.

64. Por que essa persistência de disposições e atitudes que enfatizam o manter-se firme, o suportar, a constância, o conhecer e assim por diante? Heidegger dá resposta clara: por causa da aflição de nossa época, por causa da urgência diante da possibilidade de um completo abandono dos entes pelo ser no nivelamento de todos os modos de ser e de desvelamento dos entes através do domínio exclusivo da maquinação e da vivência.