VALLEGA-NEU, Daniela. Heidegger’s poietic writings: from contributions to philosophy to the event. Bloomington (Ind.): Indiana university press, 2018.
Introdução aos Escritos Poiéticos de Heidegger
A Regressão à Fonte
1. Os volumes 65 a 72 das obras completas de Heidegger contêm a tentativa de repensar a questão do ser de modo mais radical do que em Ser e Tempo, não tendo sido concebidos para compreensão pública, mas voltados à busca de uma linguagem para pensar e dizer o ser de maneira mais originária (ursprünglich), sendo Contribuições à Filosofia (Do Evento) [Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis)] o primeiro da série e considerado por muitos a segunda obra maior de Heidegger.
2. Por não ser o ser histórico algo pronto e apenas posteriormente pensado, mas algo que ocorre somente no pensar, denominam-se “poiéticos” os escritos seer-históricos (seynsgeschichtlich) de Heidegger, ainda que esse pensar não seja poesia, aproximando-se dela, contudo, em sua abordagem.
3. Já no início dos anos 1930, ao buscar nova linguagem para pensar e dizer o ser em sua historicidade, Heidegger reflete sobre a proximidade entre poesia e pensamento (Dichten und Denken), tornando-se central a poesia de Hölderlin para sua busca de uma nova articulação do ser, sendo em diálogo com ela que Heidegger começa a articular o seer em sua historicidade e a enquadrar a história do ser em termos de um primeiro e de um outro início, tudo isso no contexto do início dos anos 1930, quando a Alemanha é tomada por uma nova ressurreição após a Primeira Guerra Mundial e por uma promessa de grande história, febre que também contagiou o pensar e o agir de Heidegger.
Impasses no Projeto de Ser e Tempo
4. Heidegger foi levado a conceber a necessidade de um pensar (a partir) do evento, procedendo de um desvelamento originário do próprio ser, em razão dos impasses encontrados no projeto de Ser e Tempo, no qual já se tentava pensar o ser a partir do tempo, isto é, resituar a pergunta metafísica “o que é…?” no “é”, de modo que o ser fosse compreendido temporalmente, não mais como essências atemporais, mas como questionamento do “é”, do ser-sendo das coisas.
5. A tarefa consiste então em revitalizar a noção de ser como aquela que nos interpela em nossa existência temporal e histórica concreta, tendo Heidegger escolhido, em Ser e Tempo, abordar a questão do sentido temporal do ser mediante inquirição sobre o ente que cada um de nós é, denominado “Dasein”, traduzido literalmente como ser-aí.
6. Heidegger mostra como o sentido do ser é temporal considerando novamente o ser do Dasein, que possui o caráter de um lançamento (Geworfenheit) e projeção (Entwurf) sobre possibilidades de ser, estando esse lançamento projetivo enraizado na temporalidade como vir a si mesmo (futuridade) ao retomar seu ter-sido (passado), o que abre e estrutura o presente, aparecendo em nosso ser futuro, passado e presente em unidade indissolúvel, sendo o tempo compreendido como fluir de momentos de “agora” derivado dessa unidade.
7. A descoberta explícita do caráter temporal de nosso ser exige que sejamos confrontados com nossa existência de tal modo que nosso engajamento cotidiano com as coisas seja interrompido, que nos encontremos expostos à nossa mortalidade e, com ela, ao ser como tal, e que suportemos essa exposição ao enfrentar nossa finitude, sendo mais autenticamente, o que se torna possível por disposições afetivas fundamentais (Grundstimmungen) — não simples sentimentos, mas disposições que nos tomam e nos expõem ao que revelam — sendo em Ser e Tempo a disposição fundamental da angústia (Angst) a que ilustra isso, e em escritos posteriores outras disposições fundamentais serão exploradas.
8. A etapa seguinte do projeto de Ser e Tempo, anunciada na seção 8 da obra, jamais foi realizada, consistindo a tarefa inicial em mostrar como a temporalidade do Dasein está enraizada na temporalidade do ser dos entes em seu conjunto, temporalidade essa que Heidegger articulou como o horizonte para o qual o Dasein sempre já transcende e do qual retorna a si mesmo, denominando esse horizonte transcendental de “condição de possibilidade” do desvelamento do ser, em conceitualidade que ecoa Kant, ainda que o projeto da ontologia fundamental subverta inteiramente a abordagem subjetiva kantiana, pois o âmbito transcendental da condição de possibilidade da experiência não é a subjetividade transcendental, mas o horizonte temporal do ser como tal, a partir do qual o Dasein se temporaliza e se encontra sempre já “aí”, num mundo, e não “aqui”, numa consciência humana.
9. Heidegger tornou-se, porém, insatisfeito com a abordagem transcendental-horizontal do ser, considerando que a linguagem de Ser e Tempo falhara em dizer o ser em sua verdade e que ainda tomava demasiado emprestado da metafísica, pois a noção de transcendência convida a pensar um sujeito humano que transcende para um horizonte, transformando aparentemente o horizonte do ser em objeto de pensamento, sendo então necessário pensar e articular o ser “diretamente” a partir do horizonte de seu desvelamento, o que Heidegger indica em nota marginal referente à planejada terceira divisão (“Tempo e Ser”) da primeira parte do projeto: “A superação do horizonte como tal. O retorno à proveniência Herkunft]. O presenciar a partir dessa proveniência.”
Presenciar a Partir da Fonte e a Retirada da Fonte
10. Pensar o ser a partir de seu horizonte desvelador e temporal significa compreendê-lo como um presenciar, e não como um ente já presente, ocorrendo o vir-a-presença como desvelamento, o que é como Heidegger repensa a noção de verdade, reinterpretando a noção grega de verdade, ἀλήθεια, em termos de desvelamento (Unverborgenheit), de modo que a verdade do ser seja o desvelamento do presenciar — presenciar que não é coisa nem ente, mas aquilo através do qual os entes se revelam em seu ser, ilustrado pelo exemplo de subitamente se ser tomado pelos movimentos de uma lagarta, ser tocado por seu ser mesmo, que ela é, não havendo primeiro uma representação sensível posteriormente identificada, mas sendo tudo isso — a representação, a identificação e o “você” — já resultado do vir a presença daquilo que então se revela como lagarta e como aquele que a observa.
11. Para Heidegger, o presenciar precisa ser pensado na voz média, forma verbal nem ativa nem passiva encontrada no grego antigo mas ausente das línguas ocidentais contemporâneas, não havendo nada que presencie, não sendo o presenciar atividade de um sujeito ou ente, mas ocorrendo como a chuva ocorre quando “chove”, sendo em última instância o presenciar sem fundamento, podendo dizer-se que a fonte do presenciar é “abissal” (abgründig), o que se expressa nos versos de Angelus Silesius já citados: “A rosa é sem porquê; ela floresce, porque floresce.”
12. Na sequência dos escritos poiéticos, o pensamento de Heidegger moverá cada vez mais para essa dimensão abissal do ser, para a ocultação que acompanha o desvelamento, para o não dito que se retira no que é dito (o silêncio da rosa, por assim dizer), pensando concomitantemente o ser não primariamente como presenciar, mas como autorretirada (Sichentziehen), de modo que nessa retirada as coisas e acontecimentos aparecem como o que está presente.
A Verdade do Ser como Ereignis: O Evento e a Reviravolta no Evento
13. Pensar a verdade do ser a partir de si mesma, como aquilo de que primeiramente viemos a nós mesmos, exigiria não objetificá-la de modo algum, mas antes tentar articular como o ser ocorre no exato momento em que ocorre, sendo tal pensamento inteiramente sem fundamento, por nada ter já ali a que se agarrar, requerendo um Loswurf, um lançar-se solto, como Heidegger diz em um Caderno Negro inicial, sendo nesse lançar-se solto que Heidegger começa a experienciar e pensar a verdade do ser como evento apropriador, como Er-eignis, no qual o ser dos entes e nós mesmos somos primeiramente apropriados (ereignet), viemos a nosso próprio ser.
14. Pensar a partir do evento (quando bem-sucedido) não significa retornar a pensar a partir de um horizonte de algum modo “objetivo” em direção a “nós”, sendo atividade e passividade insuficientes para compreender o evento, que ocorre antes na “voz média”, articulando-o Heidegger frequentemente em termos de uma “reviravolta” (Kehre), na qual ser e pensamento não se opõem como algo distinto que se relacionaria um ao outro, mas emergem a um só tempo: o pensamento ocorre como pensamento do ser e o ser emerge como tal somente no pensamento.
15. Heidegger fala da reviravolta também em termos da reviravolta no “entre” (Zwischen) da verdade e do ser: o ser da verdade é a verdade do ser; ou articula a reviravolta entre a verdade do ser e o Da-sein: a verdade do ser ocorre no Da-sein assim como o Da-sein ocorre na verdade do ser.
16. A noção de Da-sein desloca-se em Contribuições em relação a Ser e Tempo, sendo reintroduzida a noção de ser humano (Mensch, Menschsein), jogando Heidegger agora com as duas partes do termo “da” e “sein” e pensando ainda mais explicitamente do que em Ser e Tempo o “da” como o “aqui” ou “ali” (em alemão “da” significa ambos), como o sítio de abertura da verdade do ser, articulando ao mesmo tempo o “-sein” o ser dessa abertura: que ela é.
17. Ao pensar a verdade do ser como evento, a preocupação de Heidegger foi sempre pensar não o acontecer deste ou daquele ente ou acontecimento, mas o ser como tal em sua historicidade, sendo sua preocupação a história do ser e as impossibilidades e possibilidades nela latentes.
A Historicidade do Ser e do Pensamento
18. A nova abordagem da questão do ser pensaria o seer mais radicalmente de modo histórico, tanto no sentido de que ao seer pertence uma história (que perfaz diferentes épocas da história ocidental) quanto — talvez ainda mais — no sentido de que o próprio pensamento pertenceria a essa história e contribuiria para lhe abrir caminho, tornando-se assim “seynsgeschichtlich”, “seer-histórico” nesse duplo sentido.
19. Para melhor compreender o que Heidegger entende por historicidade tanto em relação ao pensamento quanto ao ser, é preciso deixar de lado as noções preconcebidas de história como sequência de acontecimentos numa linha temporal, ecoando Geschichtlichkeit tanto a história (Geschichte) quanto o acontecer (Geschehen).
20. É com os gregos antigos que Heidegger encontra emergindo um modo de pensar e um comportamento diante do ser que conduziria, em última instância, a um distanciamento cada vez maior entre pensamento e pensado, entre pensamento e ser, de modo que os entes (coisas e acontecimentos) acabam sendo-nos meramente desvelados como coisas a calcular, dominar e usufruir, denominando isso, em Contribuições à Filosofia, o abandono dos entes pelo ser (Seinsverlassenheit).
Hölderlin, Linguagem e História
21. No semestre de inverno de 1934/1935, Heidegger ministrou o curso Os Hinos de Hölderlin “Germânia” e “O Reno” (GA 39), no qual, em diálogo com Hölderlin, encontrará caminhos para uma articulação diferente da questão do ser ao repensar a relação com a linguagem e a história, estando já presentes muitos dos temas de Contribuições à Filosofia nesse curso.
22. Já em 1934, Heidegger anuncia Hölderlin como o poeta que funda o sítio do futuro seer histórico (dirigindo-se esse “nosso”, no curso, primariamente aos alemães), podendo o poeta fundar esse sentido histórico futuro através de uma disposição afetiva fundamental por estar exposto ao seer de modo singular, interpretando ainda Heidegger a poesia (de Hölderlin) como transmissão dos acenos dos deuses, ligando a questão do início — ou antes, da inceptividade — aos deuses.
23. Todo o curso começa com uma diferenciação entre Beginn e Anfang, ambos traduzíveis por “início”, optando-se por “ponto de partida” para “Beginn” e “início” ou “inceptividade” para “Anfang”, escrevendo Heidegger que onde algo parte é diferente de seu “início”: uma nova condição climática, por exemplo, parte com uma tempestade, sendo seu início, contudo, a transformação antecipatória e completa das circunstâncias do ar; um ponto de partida é o desencadear de algo, o início aquilo de onde ele emerge; a guerra mundial teve seu início séculos atrás na história espiritual e política do Ocidente, tendo partido com combates nos postos avançados; o ponto de partida logo fica para trás, desaparecendo no prosseguir de um acontecer, ao passo que o início, a fonte, somente vem à aparência no acontecer e só está ali plenamente ao seu término.
24. A poesia de Hölderlin só pode fundar um início se encontrar a escuta adequada, sendo essa a principal preocupação de Heidegger, exigindo a escuta adequada que se compreenda de modo diferente, mais originário, a relação com a linguagem, sendo necessário experienciar e compreender que não somos nós que temos a linguagem, mas a linguagem que nos tem, o que Hölderlin diria, segundo Heidegger, nos versos “Cheios de mérito, e todavia poeticamente, habitam os homens esta terra”, sendo através de disposições afetivas fundamentais que nos encontramos expostos ao seer e experienciamos que o descobrir dos entes, isto é, o aparecer do que é, ocorre na linguagem.
25. A linguagem possui aqui um sentido mais amplo do que comumente lhe seria atribuído, exigindo o mesmo movimento que Heidegger realiza ao situar a origem do pensamento não no pensador, mas em um evento desvelador ao qual nos encontramos respondendo quando uma palavra “nos vem”.
26. Pode-se compreender a dimensão originária da linguagem como uma articulação básica daquilo que vem a aparecer, que pode ser proferida em palavras ou não, sendo o esforço de Heidegger sempre o de articular precisamente esse vir à palavra mais originário, o evento da verdade do seer, encontrando na poesia de Hölderlin não apenas um desvelamento dessa ocorrência da linguagem, mas com ela o desvelamento do possível destino de um povo.
27. Para os leitores atentos da poesia de Hölderlin, isso exige, segundo Heidegger, que se deixem sintonizar pela disposição afetiva básica que fala na poesia, de modo a compreender o que o poeta revela — a saber, que os deuses fugiram e que primeiro é preciso experienciar a fuga dos deuses, para que então se possa preparar um novo sítio de decisão para o destino futuro de um povo.
28. No curso sobre Hölderlin, Heidegger começa a articular o “entre” como espaço de contenda ou decisão que traz ao encontro deuses e humanos, começando “Germânia” de Hölderlin por dizer que ao poeta não é mais permitido invocar os antigos deuses, os deuses da Grécia, interpretando Heidegger isso como a necessidade de uma renúncia (entrada na aflição), o que abre um espaço de contestação entre o desvelamento de uma prontidão e a falta de um cumprimento, um espaço de retirada que precisa ser sustentado.
29. Através de sua leitura de Hölderlin, Heidegger encontra uma disposição básica (Grundstimmung) que fala a um sentido de linguagem e de historicidade que guiam e enquadram o modo como começará a pensar o ser como evento, sendo esse um espaço de tensão entre falta e possibilidade, uma reunião de um “não mais” e um “ainda não”, padecendo o fim de uma época (o primeiro início) e esperando a possibilidade de um outro início, que, segundo Heidegger, Hölderlin experienciou e poetizou.
Questões Norteadoras para a Leitura dos Escritos Poiéticos de Heidegger
30. A leitura dos escritos poiéticos de Heidegger aqui empreendida procura permanecer junto às disposições afetivas subjacentes ao seu pensamento e, a partir delas, traçar deslocamentos em seu pensamento e linguagem segundo questões norteadoras relevantes para os desenvolvimentos de seu pensamento ao longo desses escritos, sendo tais desenvolvimentos bem distantes de uma progressão, tentando Heidegger antes, em uma vertente dominante desses desenvolvimentos, uma regressão cada vez mais profunda ao início, regressão que se revelará crucial no engajamento crítico com Heidegger, sobretudo em relação a GA70–71, contendo os volumes anteriores, todavia, explorações de certos domínios de investigação, incluindo repensar a história do pensamento ocidental por meio de figuras maiores e intensa “crítica” da época presente por meio de noções como maquinação e poder.
31. Um primeiro conjunto de questões (A) orienta uma leitura expositiva dos volumes, enquanto um último conjunto (B) orienta uma abordagem mais íntima e crítica dos textos, sendo as questões do grupo A: como os volumes posteriores se relacionam com a primeira tentativa de um dizer pensante do evento em Contribuições à Filosofia; que deslocamentos há em termos de estrutura e sistematicidade do pensamento heideggeriano; quais são os conceitos e temas dominantes explorados em cada volume e que deslocamentos há em conceitualidade e ênfase temática; como Heidegger articula a relação ou diferenciação entre ser e entes; e como se transforma a noção de Da-sein — sendo as questões do grupo B: como se pode ou deve engajar o pensamento heideggeriano em seus escritos poiéticos; o que ocorre ao considerá-los em seu contexto historiográfico e biográfico; e quais aparecem como os limites ou delimitações do pensamento de Heidegger e como engajá-los.
32. Quanto à primeira questão, muitos (inclusive a presente autora) chamaram Contribuições à Filosofia de segunda obra maior de Heidegger após Ser e Tempo, conferindo-lhe seu caráter de primeira da série um estatuto especial, parecendo Besinnung e A História do Beyng mover-se de fato dentro de certa articulação estrutural de Contribuições, a saber, sua “divisão” em “fugas” (Fugen) que compõem a estrutura (Gefüge) do volume, mudando isso, porém, com GA70, onde Heidegger parece realizar um novo início na busca de uma linguagem “do” evento, chegando a criticar tanto, em volumes posteriores, sua primeira tentativa em Contribuições, por não ser suficientemente originária, que se torna questionável, vista internamente, denominar Contribuições à Filosofia a segunda obra maior de Heidegger.
33. Uma das críticas retrospectivas de Heidegger a Contribuições será a de que permanece demasiado estrutural e orientada em torno de uma diferenciação entre pergunta diretriz e pergunta fundamental (Leitfrage und Grundfrage), diferenciação que diz respeito à diferença entre o questionamento metafísico do ser (da eidade) dos entes e o questionamento mais originário da verdade do seer, podendo notar-se, a partir de GA70, como Heidegger tenta afastar-se de qualquer forma de estrutura, agrupando seus pensamentos sob certos títulos que, contudo, não compõem estrutura representável alguma, deixando ele de lado, tanto quanto possível, qualquer ordem ou estrutura antecipatória e o pensamento representacional.
34. O que “organiza” o pensamento de Heidegger são antes disposições afetivas das quais surgem palavras, temas, focos de investigação, sendo surpreendente a criatividade de sua linguagem, o modo como experimenta novas palavras e campos semânticos, e como certos conceitos que pareciam centrais recuam enquanto outros emergem, podendo conjecturar-se que isso se relaciona em parte com os pensadores e poetas que lê, observando-se um deslocamento de linguagem que reflete, em certa medida, o deslocamento de foco das preleções sobre Nietzsche para as preleções sobre Hölderlin e depois sobre Parmênides e Heráclito, apontando outros campos temáticos diretamente para a guerra e para reflexões críticas sobre a época (de Heidegger), aplicando-se isso sobretudo a Besinnung, A Superação da Metafísica e A História do Seer, exigindo a proximidade dos Cadernos Negros com esses escritos poiéticos que também sejam considerados.
35. A quarta questão norteadora, referente à diferença entre ser e entes, constitui questão norteadora desde o início do engajamento com Contribuições à Filosofia, a saber, a questão da “fundamentação” (Begründung), enfatizando Heidegger em Ser e Tempo a diferença ontológica entre ser e entes (Sein und Seiendes) para marcar a diferença entre o pensamento metafísico tradicional, que questiona o ser a partir dos entes, e sua própria questão do ser como tal, falando, contudo, em Contribuições, da simultaneidade de ser e entes, pensada, porém, a partir da verdade do seer.
36. O que nomeia o “entre” é a noção de Da-sein, que sofre um deslocamento em Contribuições em relação a Ser e Tempo e que Heidegger tenta pensar de modo cada vez mais radical após Contribuições, no sentido de pensá-lo cada vez menos com orientação primária ao ser humano, chegando a criticar, em O Evento, a noção de Da-sein em Contribuições, ao dizer que ali é certamente pensado essencialmente a partir do evento, mas ainda de modo unilateral com referência ao ser humano.
37. Um exame cuidadoso de como Heidegger pensa o Da-sein é importante sobretudo em vista da regressão ao início realizada em seus escritos poiéticos, regressão que busca palavras no limite das palavras e talvez mesmo além desse limite (sugerindo isso a noção do Seinlose, o “sem-ser”, introduzida em 1941), parecendo que, nessa regressão, toda “atividade” do pensamento buscaria apagar-se a si mesma na resposta à palavra do próprio ser, como se não se permitisse emergir uma consciência do próprio pensar, permanecendo orientado à doação do que vem ao pensamento, podendo aventar-se (aludindo à “Carta sobre o Humanismo”) que Heidegger “desumaniza” o Da-sein, ao mesmo tempo em que diria ser precisamente ao desumanizar o Da-sein que os humanos encontram um ser mais originário.
38. Tendo sido abordadas até aqui as questões que norteiam a interpretação expositiva dos escritos poiéticos de Heidegger, demarcam-se espacialmente as observações relativas às questões restantes a fim de destacar uma abordagem distinta, menos acadêmica no sentido tradicional, sendo essas questões tratadas nos capítulos que se seguem a cada um dos capítulos de interpretação expositiva dos diferentes escritos poiéticos.
39. Sobretudo na leitura de Das Ereignis, impôs-se a sensação de que uma leitura estruturada do texto não consegue penetrar realmente no que ali ocorre, podendo certamente tentar-se encontrar estruturas, relacionar o que Heidegger escreve às obras anteriores e aos cursos publicados e assim obter percepção de alguns de seus desenvolvimentos como pensador — trabalho parcialmente realizado nos capítulos expositivos deste livro, útil, espera-se, à recepção e discussão acadêmicas do pensamento heideggeriano —, não se prestando, porém, seu pensamento em Das Ereignis verdadeiramente a leituras acadêmicas, sendo o trabalho com a linguagem realizado nesse volume tão distante dos discursos acadêmicos, tão ousado e estranho, tão solitário e íntimo, que qualquer “busca de estrutura” assemelha-se a procurar conchas vazias lançadas à praia, como que perdendo o que ali está verdadeiramente em jogo.
40. Nesse ponto, ocorre um recuo na leitura de Heidegger, encontrando-se perpetuamente relançada à questão de como ler o que ele escreve, abrindo-se nesse recuo espaços de interpretação que estão a um só tempo na atração de seu texto e dele afastados, abrindo-se um “entre” de tipo diferente do “entre” dos inícios heideggerianos, e voltando-se a atenção ao que costumeiramente não se traz à leitura de Heidegger: sua vida e o contexto histórico em que escreve.
41. Das Ereignis foi escrito em 1941–1942, começando já a renovada abordagem da questão da verdade do seer como evento no volume anterior, Sobre o Início (1941), sendo agora o evento abordado em termos de início ou inceptividade (Anfang), trabalhando Heidegger para permanecer próximo ao início como fonte silenciosa da qual a palavra do seer poderia acontecer.
42. Não se pretende “psicologizar” Heidegger, nem reduzir seu pensamento a reações à situação de sua época, e, no entanto, a guerra e o movimento nacional-socialista devem ter exercido efeito sobre ele, não se acreditando poder chegar a conclusões reais a esse respeito, separando-se por isso essa investigação de uma leitura mais imanente dos textos poiéticos de Heidegger, talvez só sendo possível aqui formular questões, questões que já vislumbram um horizonte do qual emergem, horizonte constituído em parte pelas próprias linhagens e circunstâncias pessoais.
43. A questão de como ler os escritos poiéticos de Heidegger não se limitará à sua relação com eventos historiográficos e biográficos, havendo outra dimensão de questões (não desvinculada) a desenvolver, concernente à linguagem e ao pensamento e ao limite em que Heidegger os situa, convergindo aqui algumas vertentes exploradas nos capítulos expositivos do livro, particularmente a diferença entre ser e entes e a questão da fundamentação, pretendendo-se ainda retomar crítica já formulada em artigos anteriores e em parte compartilhada com outros estudiosos de Heidegger, a saber, o enquadramento da questão do ser em termos da história do ser.
44. A questão, para Heidegger, é então permanecer próximo à fonte, vindo à mente nesse contexto algo dito certa vez por uma amiga chinesa, com quem se estudou juntas em Friburgo e que não era grande simpatizante de Heidegger, havendo algo em seu pensamento que muito a perturbava, tendo ela dito aproximadamente o seguinte: “Heidegger sempre quer ir contra a correnteza do rio, lutando para voltar à fonte de onde o rio corre. Por que ele simplesmente não deixa ir e segue a correnteza do rio até o mar aberto?”
45. Unicidade e singularidade são palavras que, em seus escritos não públicos, Heidegger reserva ao seer pensado como evento, implicando isso, embora, os entes, sendo seu ser sempre buscado a partir da fonte retirante do ser, parecendo que Heidegger jamais pôde “deixar ir” o pertencimento-escutante à fonte silenciosa do evento de modo a abrir o ser a uma pluralidade no sentido do acontecer das coisas em suas constelações únicas, constituindo esse limite de seu pensamento, ao mesmo tempo, o que há de mais forte nele, um poder de pensamento que continua a interpelar muitos de nós de modos que vão de um desejo entusiástico de seguir a uma aversão quase visceral, não sendo fácil pensar com Heidegger.