Esferas III

SLOTERDIJK, Peter. Sphären III: Schäume (Plurale Sphärologie). Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2004.

Nota

1. Este livro constitui o terceiro e último volume de um projeto filosófico iniciado em 1998 com Esferas I, Bolhas, e continuado em 1999 com Esferas II, Globos, mas pode ser lido e compreendido isoladamente, começando-se pela terceira parte como se fosse a primeira, o que de certo modo corresponde à verdade, já que o empreendimento total só pode ser apreciado em conjunto a partir de seu polo conclusivo.

2. Como contexto relacional da trilogia, os dois volumes anteriores procuram conferir à expressão esfera o estatuto de conceito fundamental, ramificado em aspectos topológicos, antropológicos, imunológicos e semiológicos, e Esferas I oferece uma descrição em parte nova do espaço humano, enfatizando que a proximidade entre seres humanos produz um interior pouco considerado até agora, a microesfera, sistema de imunidade espacial anímico, ou moral, muito sensível e capaz de aprender, segundo a tese de que o par, e não o indivíduo, é a grandeza mais autêntica e de que a imunidade-nós é mais profunda que a imunidade-eu, tese de difícil aceitação numa época devotada às partículas elementares e aos indivíduos, sendo os mundos de proximidade caracterizados como espaços surreais porque até relações inespaciais como simpatia e compreensão se traduzem em relações quase espaciais para se tornarem compreensíveis e experimentáveis.

3. O espaço humano é formado desde o princípio, literalmente ab utero, primeiro de modo bipolar e depois pluripolar, com a estrutura e a dinâmica de um entrelaçamento animante de seres vivos interessados em proximidade e participação mútuas, estreito encaixe que não raro desencadeia a perversa proximidade da agressão primária, pois o que se abriga mutuamente também pode aprisionar-se e sufocar-se, mas que inclui igualmente todas as possibilidades designadas por conceitos sonoros como amizade, amor, compreensão, consenso, concórdia e communitas, sendo apenas dessa fonte que poderia regenerar-se até a decaída palavra solidariedade, da qual pende hoje a alma da esquerda sem impulso e que significa algo como telessentimentalismo.

4. Enquanto ser que existe, o humano é o gênio da vizinhança, e, como Heidegger concebeu em sua fase mais criativa, os existentes juntos mantêm-se na mesma esfera de patência, acessíveis e ao mesmo tempo transcendentes uns aos outros, compreendendo-se também coisas e circunstâncias a partir do princípio de vizinhança, de modo que mundo significa contexto de possibilidades de acesso e o ser-aí já traz consigo a esfera da vizinhança possível, ao contrário das pedras, que não conhecem a abertura extática umas às outras, podendo Esferas I ser lida como imersão no abismo do nervosismo ontológico diante do coexistente, do outro e do estranho, viagem estoica ao primeiro nicho ecológico humano que exige uma espécie de ginecologia filosófica e se encerra com uma propedêutica teologicamente informada da intimidade, nem sempre bem recebida.

5. Esferas II extrai as consequências da natureza extático-surreal do espaço vivido sob a forma de um grande relato da expansão do anímico nas ocupações imperiais e cognitivas do mundo, uma espécie de romance filosófico em que a hipérbole funciona como procedimento de esclarecimento, partindo da díade íntima e da familiaridade, que vai da dualidade a uma estrutura de cinco polos como forma mínima de abertura ao mundo, e passando, a partir da cabana, à aldeia, à cidade, ao império e ao universo finito até perder-se no espaço ilimitado e inabitável, com os infernos de Dante como ramificações atormentadoras, enquanto inúmeras pequenas esferas se rompem e se recompõem em formatos maiores, pois a microesfera é um espaço de aprendizado elástico que responde à deformação com expansão, e o postulado de que a segurança só se encontra no maior suscitou o caso da alma com a geometria, isto é, a metafísica, em que a existência local se integra à esfera absoluta e o ponto animado se infla até a esfera-tudo, abrindo a simplificação mais desconsiderada o caminho da salvação.

6. A filosofia clássica assumiu a forma de macroesferologia, contemplação da maior esfera e da estrutura de imunidade mais ampla, representando, desde Platão, os dois conceitos paradigmáticos de totalidade, mundo e Deus, como volume esférico onicompreensivo com círculos de energia, esferas de valor e invólucros de mundo concêntricos até o ponto anímico do átomo-eu, de modo que a existência se define pela imersão num último elemento, em Deus ou no mundo, e de Plotino a Leibniz a consideração das macroesferas foi a força autoritativa da ontologia, sustentando a crença de que a mesma esfera de patência abrange o cosmos físico e o sujeito cognoscente e de que cabe ao espírito humano um conhecimento cúmplice das coisas primeiras e últimas, ilusão que o poeta ironiza ao descrever o feto todo cabeça e redondo planejando a conquista do mundo, pois se o real fosse como o ideal o espírito só se desenvolveria ao compreender-se como sócio júnior do absoluto, sendo o gênio placentário e o feto o primeiro par, e Deus e a alma, ou o cosmos e o intelecto individual, o último.

7. O grande relato de Esferas II, que segue a curva pontuada de catástrofes do mínimo ao máximo, mostra que a metafísica foi a continuação do animismo por meios teóricos e políticos, sendo o animismo a crença no hipersistema de imunidade chamado alma, e que sua ruína não decorreu de uma crítica desencantadora ou de um saber superior, mas da impossibilidade interna de seu projeto, pois pretendeu defender a causa da vida, que só se mantém na finitude de um sistema de imunidade individualizado, tomando ao mesmo tempo partido pelo infinito, que nega toda vida individual e ignora interesses privados de imunidade, fracassando como serva de dois senhores sem que crítica da linguagem, psicologia ou desconstrução precisassem mover um dedo, fracasso endógeno que revela o conflito entre infinitude e imunidade, polêmica originária do pensamento moderno e talvez de todo pensamento filosófico.

8. A reconstrução do delírio metafísico de simplificação e unificação encerra-se com uma breve história do mundo moderno, tão europeia quanto necessário e tão filosófico-universal quanto possível, entendendo-se por Modernidade a época da saída do monocentrismo metafísico, em que se rompeu o círculo mágico simples que prometia a todos os vivos imunidade em seu Deus Uno, o que exige esboçar a expansão europeia após 1492, movimento excêntrico chamado de modo caolho a globalização, como se houvesse uma e não três, tratado no capítulo 8 de Esferas II como globalização terrestre, a que sucede a metafísica e antecede a telecomunicativa, capítulo que pode ser lido como publicação independente.

9. Uma anedota das Memórias de Albert Speer revela o estado das ideias do círculo e da esfera no século XX: no início do verão de 1939, Hitler, seguro de seus planos de domínio universal e cujo nome fora cogitado um ano antes, ao lado do de Gandhi, para o Nobel da Paz, decidiu modificar a maquete do grande pavilhão de Berlim, de modo que a águia do Reich não pairasse mais sobre a suástica no topo da cúpula de 290 metros.

10. A coroação do maior edifício do mundo deveria ser, segundo a ordem de Hitler, a águia sobre o globo terrestre.

11. Essas palavras explicam a história da decomposição da metafísica política, que sempre se manifestou, quando falava claramente, como monoesferologia imperial, de modo que Hitler, ao trocar a suástica pelo globo, é por um segundo um filósofo clássico, sendo mais difícil compreender a decomposição da teoria monoesférica de Deus, cujo início pode ser explicado por uma consideração do abade Sieyès de 1789.

12. A lei é imaginada como ponto central de uma esfera grandiosa, em relação ao qual todos os cidadãos, sem exceção, se encontram à mesma distância na superfície, ocupando lugares iguais e dependendo igualmente da lei.

13. O desmoronamento da monoesfera divina torna-se patente com o decreto de que todas as criaturas humanas devem estar igualmente distantes do ponto de Deus, democratização da relação com Deus que tenderia a terminar em sua neutralização e extinção, forçando a nova ocupação desse lugar, substituição já consumada por Diderot em 1755, ao declarar o ser humano centro comum de todas as coisas e de todas as entradas da Enciclopédia, ponto privilegiado do espaço infinito de onde partiriam as linhas para todos os outros pontos, até chegar-se, no fim provisório da história, a uma frase radioteórica de Marshall McLuhan.

14. A simultaneidade elétrica dos movimentos informativos produz a esfera total oscilante do espaço auditivo, cujo centro está em toda parte e cuja circunferência em parte alguma.

15. Por trás da aparente tese sobre a distribuição das oportunidades auditivas na aldeia global radioacústica, revelam-se resquícios teológicos, pois as ambições paulinas do maior teórico da mídia de seu tempo recorrem ao teorema hermético do Livro dos vinte e quatro filósofos, alto-medieval, para evocar uma última teoria da esfera una a partir do espírito do catolicismo eletrônico, postulando uma esfera de informação híbrida, global-tribal, que encerraria toda a família humana numa única membrana universal, redonda e oval ao mesmo tempo, realizada pelo computador interpretado em espírito pentecostal como integrador da humanidade numa comunidade psíquica supratribal, ensinando-se ali mais uma vez, talvez pela última, a unidade entre aldeia global e Igreja.

16. Em contraste, Esferas III, Espumas, oferece uma teoria da época atual segundo a qual a vida se desenvolve de modo multifocal, multiperspectivista e heterárquico, partindo de uma definição não metafísica e não holística da vida cuja imunização já não pode ser pensada pela simplificação ontológica na esfera-tudo lisa, pois a vida configura espaços ilimitadamente não só porque cada mônada tem seu entorno, mas porque todas estão encaixadas em outras vidas e compostas de inúmeras unidades, articulando-se em cenários simultâneos e imbricados e produzindo sempre o espaço em que está e que está nela, de modo que, assim como Bruno Latour falou de um parlamento das coisas, a metáfora da espuma serve para tratar de uma república dos espaços.

17. As análises do terceiro volume retomam o fio onde termina o trabalho de luto, ou melhor, de desentristecimento, pela impossível metafísica do Uno envolvente, supondo que a causa da vida não estava em boas mãos nem com as religiões tradicionais nem com os metafísicos, conselheiros duvidosos que só souberam remetê-la ao placebo da entrega a uma simplificação celeste, o que obriga a repensar a relação entre saber e vida muito além do que fizeram os reformistas do século XX, já que se esgotou a forma de pensar e de viver da velha Europa, a filosofia, enquanto a biosofia mal começou, a teoria das atmosferas se consolidou provisoriamente, a teoria geral dos sistemas de imunidade e de comunidade está nos inícios, uma teoria dos lugares, situações e imersões avança lentamente, a substituição da sociologia pela teoria das redes de atores é hipótese pouco recebida e a constituição de uma sociedade global do saber mal passou de esboços, sem tendência comum evidente, sendo claro apenas que onde se lamentavam perdas de forma surgem ganhos de mobilidade.

18. A imagem festiva da espuma permite recuperar pós-metafisicamente o pluralismo pré-metafísico das ficções de mundo e penetrar no elemento de um pensar diverso sem se deixar desconcertar pelo pathos niilista que acompanhou nos séculos XIX e XX a reflexão decepcionada com a metafísica monológica, confirmando que a proposição Deus está morto é a boa nova do presente, reformulável como a implosão da esfera una e a vida das espumas, pois compreender os mecanismos de açambarcamento por globos simplificadores e totalizações imperiais não justifica descartar tudo o que se considerava grande, imaginativo e valioso, e declarar morto o Deus pernicioso do consenso significa reconhecer que o trabalho é retomado com as mesmas energias antes constrangidas na hipérbole metafísica, surgindo, quando um grande exagero cumpre seu tempo, novos ideais de voos mais discretos.