SLOTERDIJK, Peter. Nicht gerettet: Versuche nach Heidegger. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2001.
X. “Ao Dasein é própria uma tendência essencial à proximidade” (Nota marginal sobre a doutrina de Heidegger do lugar existencial)
1. Sob o sensacional título programático de Ser e tempo oculta-se também um tratado germinalmente revolucionário sobre o ser e o espaço, fato percebido por poucos intérpretes, pois o fascínio pela analítica existencial do tempo fez ignorar que ela se apoia numa analítica correspondente do espaço e que ambas se fundam numa analítica existencial do movimento, de modo que sobre a ontocronologia heideggeriana existe uma biblioteca inteira, sobre a ontocinética alguns ensaios, mas sobre a ontotopologia, a teoria da disposição originária do espaço, além de paráfrases piedosas, nada.
2. A espacialidade do Dasein, entendida positivamente como aproximação e orientação, só se perfila após dois passos destrutivos, pois os conceitos de espaço da física e da metafísica vulgares precisam ser postos de lado para que a analítica existencial do ser-em possa começar.
3. O ser-em tende a ser compreendido, ao completar-se a expressão como ser no mundo, no sentido de estar dentro de algo, como a água no copo ou a roupa no armário, relação ampliável do banco na sala à sala na universidade, à universidade na cidade e assim por diante até o banco no espaço universal, mas todos esses entes que estão uns nos outros possuem o mesmo modo de ser simplesmente dado, como coisas que se encontram dentro do mundo.
4. O ser-em designa, ao contrário, uma constituição do ser do Dasein, um existenciário, que não pode ser pensado como o estar simplesmente dado de um corpo humano dentro de outro ente, pois o alemão in provém de innan, residir, habitare, demorar-se, e an significa estar acostumado e familiarizado com algo, no sentido de colo, habito e diligo, de modo que ser, como infinitivo de eu sou, significa habitar junto a e estar familiarizado com.
5. A referência ao antigo verbo innan, habitar, revela cedo a chave da análise existencial da espacialidade, pois ser-no-mundo significa estar dentro do mundo em sentido verbal transitivo, habitá-lo desfrutando de sua abertura mediante acordos e antecipações prévios, sendo o Dasein um ato de habitar sempre já cumprido, resultado de um salto originário para dentro, de modo que a espacialidade é inseparável da existência, sem que isso signifique supor que o existente está simplesmente em casa no gigantesco, já que justamente o poder-estar-em-casa no mundo é o problemático, e tomá-lo como dado seria recair na física do continente, erro de todas as imagens holistas do mundo e doutrinas da imanência no seio materno, assim como a casa do Ser não é um recinto de onde se entra e sai, mas uma esfera do cuidado em que o Dasein se estendeu em seu originário ser-fora-de-si, retirando-se o chão aos reinos milenares da física e da metafísica do continente, pois o humano não é ser vivo em seu ambiente, nem ser racional sob a abóbada celeste, nem ser perceptivo no interior de Deus, e o palavrório sobre o ambiente circundante, em alta desde os anos vinte, nada significa ontologicamente enquanto esse ter um mundo permanecer indeterminado.
6. O ser-em não é uma propriedade que o Dasein às vezes tem e às vezes não, nem o homem existe primeiro para depois adquirir ocasionalmente uma relação com o mundo, pois o Dasein jamais é um ente isento de ser-em ao qual apetecesse eventualmente relacionar-se com o mundo, sendo tal relação possível apenas porque ele é como é enquanto ser-no-mundo, constituição que não resulta da existência de outro ente que viesse a encontrá-lo, já que esse outro só pode encontrar o Dasein na medida em que se mostra a partir de si mesmo dentro de um mundo.
7. A cegueira existencial do pensamento tradicional em relação ao espaço manifesta-se nas antigas imagens de mundo que integram sem dificuldade o homem numa natureza abrangente entendida como cosmos, e no pensamento moderno a divisão cartesiana entre substância pensante e substância extensa oferece o exemplo mais contundente da recusa em problematizar o lugar do encontro, pois, referindo toda espacialidade aos corpos e coisas como únicos portadores de extensão, Descartes não pode perguntar onde se encontram pensamento e extensão, fazendo da res cogitans uma instância sem mundo, um caçador fantasmal que busca presas na extensão cognoscível para depois recolher-se a sua fortaleza inextensa, ao que se contrapõe o originário ser-em do Dasein como ser-no-mundo, sendo também o conhecer apenas um modo derivado de permanência na espaçosidade do mundo aberto pelo cuidado circunspecto.
8. Ao dirigir-se a algo e apreendê-lo, o Dasein não sai de uma esfera interna em que estivesse primeiramente encapsulado, mas já está sempre fora, junto ao ente que comparece no mundo já descoberto, e esse estar fora junto ao objeto é também um estar dentro corretamente entendido, pois ele mesmo é o dentro enquanto ser-no-mundo cognoscente, assim como a apreensão do conhecido não é um regresso com a presa ao recinto da consciência, já que também ao apreender, conservar e reter o Dasein cognoscente continua fora.
9. A espacialidade do Dasein caracteriza-se positivamente sobretudo por dois traços: o desafastamento e a direcionalidade.
10. Desafastar significa fazer desaparecer a distância, o estar longe de algo, e portanto aproximar, sendo o Dasein essencialmente desafastador, de modo que o desafastamento descobre a distância e consiste, imediata e regularmente, numa aproximação circunspecta que traz algo para perto ao providenciá-lo, prepará-lo e tê-lo à mão, pois o Dasein tem uma tendência essencial à proximidade.
11. Em virtude de sua espacialidade peculiar, o Dasein nunca está primeiramente aqui, mas ali, e é desse ali que retorna a seu aqui.
12. Enquanto ser-em desafastador, o Dasein possui ao mesmo tempo o caráter da direcionalidade, pois toda aproximação já tomou previamente uma direção rumo a uma região a partir da qual o desafastado se aproxima, sendo o ocupar-se circunspecto um desafastar direcionado.
13. Deixar que o ente intramundano compareça, o que é constitutivo do ser-no-mundo, é um dar espaço, também chamado ordenar espacialmente, que deixa em liberdade o que está à mão em sua espacialidade, e o Dasein só pode mudar uma coisa de lugar, retirá-la ou ordenar coisas no espaço porque o ordenar espacialmente pertence a seu ser-no-mundo como existenciário, de modo que o sujeito ontologicamente bem entendido, o Dasein, é espacial.
14. A expectativa de que a esse poderoso prelúdio se seguiria a peça principal frustra-se, pois a análise existencial do onde passa bruscamente à análise do quem, sem reconhecer que se puxara apenas a ponta de um fio cuja maior parte permanece no carretel, e que, desenrolado, teria aberto infalivelmente os universos plurívocos da espacialidade existencial que reaparecem sob o termo-guia esferas, cujo habitar não pode ser explicitado enquanto o Dasein for concebido a partir de uma suposta tendência essencial à solidão, exigindo a analítica do onde que se ponham entre parênteses as sugestões e disposições de uma solidão essencial para alcançar as estruturas profundas do Dasein acompanhado e complementado, tarefa diante da qual o primeiro Heidegger não passou de existencialista no sentido problemático da palavra, deixando, com sua virada apressada para o quem, um sujeito existencial solitário, fraco e histérico-heroico, que se crê o primeiro na hora de morrer e vive numa penosa incerteza sobre sua inserção em relações de intimidade e solidariedade, e que, tenso ao extremo num onde confuso, pode ter desagradáveis surpresas ao querer enraizar-se no primeiro povo que se apresente.
15. Quando, por ocasião da revolução nacional, Heidegger quis desfrutar num arrebatamento imperial da condição de grande alguém, mostrou-se que a autenticidade existencial sem esclarecimento radical de sua situação resulta em ofuscamento, e a partir de 1934 ele soube, ainda que implicitamente, que sua mobilidade no despertar nacional-socialista fora apenas um estar no redemoinho, em que o tempo se converteu em espaço e quem nele entra vive, parecendo estar aqui, numa esfera distinta e num ali interior incompreendido, extraindo a obra tardia discretamente as consequências desse lapso, pois o revolucionário popular enganado pouco espera da história, aposentado da obra dos poderes, busca salvação em exercícios de proximidade ainda mais íntimos, aposta em sua província anárquica e conduz visitas guiadas à casa do Ser, a linguagem, como zelador mágico carregado de chaves e piscadelas significativas, evocando nos momentos agitados a santa esfera parmenídica do Ser como se voltasse ao eleatismo, cansado da historicidade, sem jamais retornar ao ponto a partir do qual a pergunta pela ordenação espacial originária e sempre já comum do mundo poderia ter sido retomada com proveito.
16. O projeto das esferas pode ser entendido como tentativa de salvar, ao menos num aspecto essencial, o projeto de O ser e o espaço que ficou imobilizado como subtema na obra inicial de Heidegger, fazendo justiça a seu interesse pelo enraizamento, na medida em que algo dele seja salvável, mediante uma teoria dos pares, dos gênios e da existência complementada, pois para pisar chão firme na dualidade existente é preciso conservar certa medida de autoctonia ou assento no real, mesmo quando a filosofia mantém sua irrenunciável separação da comuna empírica, cabendo agora ao pensamento trabalhar de novo a fundo a tensão entre autoctonia, ab ovo e a partir da comunidade, e libertação, a partir da morte ou do infinito.