CRITCHLEY, Simon; SCHÜRMANN, Reiner. Sobre o ser e tempo de Heidegger. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016.
A ideia de fenomenologia transcendental em Ser e Tempo
Ontologia fundamental como fenomenologia hermenêutica
1. A ontologia fundamental (Fundamentalontologie) funda as ontologias metafísicas não mediante o estabelecimento de um fundamento último, mas pela explicitação de que a presença (Dasein) compreende ser sempre e em qualquer circunstância, de modo que essa compreensão constitui uma estrutura fundamental de seu próprio ser e confere à presença um caráter originariamente hermenêutico.
2. A hermenêutica, derivada de hermeneuein, reúne originalmente os sentidos de transmitir, interpretar e traduzir, associados tanto à função mensageira de Hermes quanto à interpretação dos sacerdotes do oráculo de Delfos, tendo posteriormente designado teorias de interpretação de textos jurídicos e teológicos até ser ampliada por Dilthey para caracterizar as ciências humanas (Geisteswissenschaften), nas quais compreender e interpretar se distinguem do conhecer e explicar próprios às demais ciências.
3. A hermenêutica assume em Heidegger um sentido mais originário do que aquele relativo às ciências humanas, pois a fenomenologia da presença (Dasein) é hermenêutica enquanto interpretação que a própria presença realiza de si mesma, fazendo da compreensão e da interpretação modos constitutivos de seu ser e tornando toda investigação ontológica explícita sobre a presença antecipadamente preparada por essa autointerpretação.
4. Da autointerpretação originária da presença derivam modos secundários de hermenêutica, pois somente porque a presença já se interpreta pode compreender entes diferentes de si mesma, constituir ontologias de diferentes regiões do ser, desenvolver uma analítica de suas próprias estruturas existenciais e, finalmente, elaborar disciplinas históricas dedicadas à interpretação de sua autocompreensão ao longo do tempo.
5. O caráter “fundamental” da ontologia fundamental refere-se portanto a um acontecimento de autointerpretação e autoarticulação da presença, distinguindo-se das ontologias “fundacionais”, que delimitam genealogicamente os possíveis modos de ser e constituem regiões para a investigação científica, enquanto a ontologia fundamental é interpretativa e explicita as modalidades mediante as quais a presença compreende seu próprio ser.
6. Ontologia fundamental significa hermenêutica em sentido originário porque constitui a fonte a partir da qual se tornam possíveis todas as demais formas de compreensão e, em última instância, o próprio conhecimento racional, que não é rejeitado, mas situado como modalidade derivada relativamente à compreensão originária.
7. Essa hermenêutica é simultaneamente fenomenológica, pois a ontologia fundamental é fenomenologia, embora “fenomenologia” já não signifique intuição de essências, suspensão da existência, descrição de atos intencionais ou investigação da consciência, mas recuperação mais originária do aparecer do ser a partir dos próprios fenômenos, retomando radicalmente o gesto pelo qual Platão e Aristóteles arrancaram a questão do ser aos fenômenos.
8. A fenomenologia dos atos conscientes encontra sua condição mais originária na verdade como desvelamento (aletheia), tal como esta foi experimentada no pensamento e na existência gregos, de modo que aquilo que Husserl compreende como o automostrar-se dos fenômenos é reconduzido por Heidegger à estrutura mais fundamental da abertura em que algo pode aparecer.
9. Em Ser e Tempo, verdade como desvelamento (aletheia) designa a compreensão e interpretação mediante as quais a presença (Dasein) abre seu próprio âmbito, constituindo um mundo em que os entes podem mostrar-se a partir de si mesmos, deslocando assim a questão fenomenológica da consciência e de sua objetividade para o ser do ente em seu desvelamento e ocultação.
10. A questão decisiva da fenomenologia heideggeriana é o próprio ser, e fenomenologia designa primordialmente o método pelo qual uma investigação se deixa determinar pelas “coisas elas mesmas” em vez de partir de uma disciplina ou dogma previamente constituído, de maneira que a ontologia fundamental é fenomenológica porque se enraíza no próprio ser tal como este se abre na presença (Dasein).
11. A caracterização da fenomenologia em Ser e Tempo permanece preliminar porque a própria disciplina deverá surgir progressivamente da investigação, invertendo-se a relação tradicional entre método e objeto: parte-se primeiramente da coisa mesma, isto é, da abertura da presença (Dasein) para o ser, e somente a partir desse encontro o método assume gradualmente sua forma determinada.
12. Ser e Tempo somente se tornou possível sobre o solo estabelecido pela fenomenologia de Husserl, embora Heidegger transforme radicalmente esse legado ao rejeitar a fenomenologia como corrente filosófica constituída e o ego transcendental como seu ponto de partida, substituindo-os pelas possibilidades abertas pelo método fenomenológico e pela existência cotidiana ou vida fática como lugar originário da investigação.
13. A fenomenologia já se torna dogmática quando pressupõe a intuição (Anschauung) como modo originário de acesso, pois assim reduz previamente aquilo que pode ser descrito à condição de objeto, enquanto a descrição da vida cotidiana exige situar-se num nível anterior à oposição entre sujeito e objeto e reconduzir o pensamento à facticidade originária que essa dicotomia encobre.
14. A fenomenologia hermenêutica consiste em interpretar, traduzir e transmitir a mensagem do próprio ser de modo que este possa tornar-se manifesto na vida cotidiana da presença (Dasein), deslocando a primazia fenomenológica do ver para o escutar, pois, em lugar da visão de essências (Wesensschau), exige-se uma escuta capaz de receber aquilo que o ser comunica.
15. O sentido originário da hermenêutica aparece na relação com Hermes como mensageiro dos deuses, pois hermeneuein é uma exposição que comunica uma mensagem somente porque previamente consegue escutá-la.
16. Compreender possui assim uma estrutura ligada à escuta, enquanto intuir e idear remetem à visão, e a fenomenologia torna-se propriamente hermenêutica quando toma como ponto de partida não o ego transcendental, mas a existência fática da presença (Dasein) enquanto compreensão de ser, fazendo com que a temporalidade da escuta se torne decisiva para compreender também o novo sentido heideggeriano do transcendental.
O transcendentalismo de Ser e Tempo
17. O movimento que conduz da ontologia fundacional à ontologia fundamental consiste numa passagem entre duas espécies heterogêneas de condições de possibilidade: as ontologias fundacionais tornam possíveis as ciências mediante a delimitação de regiões do ente, enquanto a ontologia fundamental torna possíveis essas próprias ontologias ao explicitar os modos originários de compreensão a partir dos quais qualquer região pode ser aberta.
18. Quando o ser é chamado de “o transcendente pura e simplesmente” (das transcendens schlechthin), transcendência significa o movimento pelo qual a presença ultrapassa a si mesma, existe como ser-no-mundo e se projeta ekstasicamente para além de uma interioridade isolada, fazendo da abertura do ser um conhecimento transcendental e da verdade fenomenológica uma verdade transcendental (veritas transcendentalis).
19. Em “Sobre a essência do fundamento”, a transcendência é caracterizada como ultrapassagem realizada por um ente, isto é, como um acontecer relacional que parte de algo, dirige-se para algo, possui um horizonte e implica aquilo que é ultrapassado.
20. A transcendência compreendida como acontecimento reúne três elementos já presentes implicitamente em Ser e Tempo e esclarece o caráter propriamente novo do transcendentalismo heideggeriano, pois a relação da presença (Dasein) com o ser é precisamente o acontecimento pelo qual ela ultrapassa a si mesma e se projeta no mundo.
21. O transcendental significa ainda o retrocesso até uma condição originária de possibilidade, mas essa condição não deve ser compreendida como fundamento fundacional estático e sim como acontecimento fundamental, enquanto o próprio ultrapassar da presença coincide com sua compreensão preliminar, vaga ou pré-ontológica do ser.
22. Os dois sentidos de transcendental articulam-se porque um designa o método de Ser e Tempo e o outro a constituição da presença (Dasein): o método pode retroceder transcendentalmente à origem apenas porque acompanha em sentido inverso o movimento de ultrapassagem pelo qual a própria presença já se projeta antecipadamente para um mundo.
23. O ultrapassamento cotidiano da presença pode ser chamado tanto ontológico quanto pré-ontológico, dependendo do sentido atribuído à palavra ontologia, pois é pré-ontológico enquanto compreensão ainda não tematizada que precede a explicitação filosófica e ontológico enquanto estrutura de ser que essa explicitação procura revelar.
24. A presença (Dasein) encontra-se onticamente mais próxima de si mesma porque é concretamente seu próprio movimento de transcendência, ontologicamente mais distante porque essa proximidade cotidiana oculta a estrutura que torna possível tal movimento e pré-ontologicamente não é estranha a si mesma porque possui sempre um saber inarticulado de sua própria transcendência, distinguindo-se assim o simples retrato ôntico dos entes de uma interpretação ontológica de seu ser.
25. Transcendental designa primariamente o ultrapassamento pré-ontológico mediante o qual a presença (Dasein) se projeta para um mundo e apenas secundariamente caracteriza o método filosófico que retrocede da vida cotidiana até a origem desse movimento de autoultrapassagem.
26. A ontologia fundamental é fenomenologia transcendental porque o conceito originário de fenômeno designa precisamente a origem que se manifesta como abertura, antecipação e projeção já operantes na vida cotidiana, de modo que a investigação procura explicitar fenomenologicamente aquilo que possibilita previamente todo aparecer.
27. Heidegger distingue uma noção formal, uma noção comum e uma noção propriamente fenomenológica de fenômeno, embora todas conservem o sentido básico de “aquilo que se mostra em si mesmo”, diferenciando-se pelo modo como esse mostrar-se é compreendido.
28. Aquilo que se mostra previamente e de maneira concomitante na existência cotidiana pode ser explicitamente retomado e elevado à condição de fenômeno em sentido privilegiado, fazendo com que o verdadeiro objeto da fenomenologia transcendental seja precisamente aquilo que inicialmente e na maior parte das vezes permanece velado, embora pertença essencialmente ao que aparece e constitua seu sentido e fundamento.
29. A ontologia fundamental é, portanto, fenomenologia hermenêutica porque ontologia somente se torna possível como fenomenologia, e é transcendental porque investiga a presença (Dasein) em seu movimento de ultrapassar-se, transcender-se e projetar-se em direção ao mundo, retrocedendo fenomenologicamente até a relação originária que constitui o ser da presença e funciona como condição de possibilidade de todos os modos concretos de ser-no-mundo.