Temporalidade

CRITCHLEY, Simon; SCHÜRMANN, Reiner. Sobre o ser e tempo de Heidegger. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016.

1. O primeiro título geral da totalidade estrutural da presença (Dasein), ser-no-mundo, é progressivamente aprofundado pela cura (Sorge), que explicita sua articulação interna e sobretudo revela que a presença sempre antecede a si mesma (sich-vorweg), jamais alcançando enquanto existe uma completude fechada, pois sua totalização efetiva coincidiria justamente com a perda de seu ser-no-mundo e, portanto, com a morte.

A função heurística da morte

2. Se a cura exprime o anteceder-a-si-mesmo constitutivo da presença (Dasein), a análise existencial da morte explicita essa estrutura ao mostrar que a presença se relaciona concretamente com seu ainda-não extremo, não como com um objeto futuro ou acontecimento simplesmente dado, mas como com sua possibilidade ontológica mais própria, que ela mesma sempre tem de assumir.

3. A morte permite explicitar a estrutura prévia segundo a qual a presença (Dasein) sempre antecede a si mesma e, por isso, oferece acesso simultaneamente à estrutura formal do fim e à possibilidade de totalidade, respondendo às questões de como a presença pode estar orientada para um fim e como pode ser compreendida em seu poder-ser-todo.

4. Compreender existencialmente a morte não significa representá-la simplesmente como acontecimento futuro, pois o ainda-não da morte pertence ao presente da existência como possibilidade própria e impendente, de modo que o morrer não significa simplesmente chegar ao término, mas existir constantemente como ser-para-o-fim.

5. A função heurística do ser-para-o-fim consiste em revelar a temporalidade da presença (Dasein), não mediante recordação do passado nem pela sucessão física de antes e depois, mas pela iminência da morte, que torna o futuro decisivo e permite compreender inclusive o nascimento como facticidade histórica de uma tradição, família, comunidade e herança em que a presença já se encontra lançada.

6. No ser-para-o-fim, a presença (Dasein) encontra-se diante de sua possibilidade mais própria, irremissível e insuperável, na qual aquilo que está em jogo é pura e simplesmente seu próprio ser-no-mundo e diante da qual todas as remissões a outras presenças se desfazem.

7. A morte é sempre minha possibilidade própria e rompe com o domínio cotidiano do impessoal (das Man), pois não se pode morrer simplesmente como “se morre”, fazendo do ser-para-o-fim um movimento de recondução ao si mesmo no qual a presença é remetida à possibilidade de apropriar-se de seu próprio poder-ser.

8. O ser-para-o-fim revela primeiramente a temporalidade porque mostra que seu caráter fundamental é o futuro, entendido não como conjunto de acontecimentos ainda inexistentes, mas como o próprio caráter porvindouro da presença (Dasein), que já se antecede constantemente em suas possibilidades.

9. A morte não apenas revela a futuridade estrutural da presença, mas possui também função totalizante, tornando-se ainda mais central que a angústia para explicitar a possibilidade de totalidade da presença.

A função totalizante do ser-para-morte

10. Por ser a possibilidade mais própria, irremissível e insuperável, a morte não constitui uma possibilidade entre outras nem simplesmente um horizonte particular da projeção, mas o horizonte extremo dentro do qual todas as outras possibilidades podem ser assumidas e compreendidas.

11. A morte constitui assim uma possibilidade fundamental do compreender, pois no ser-para-a-morte a presença já compreende implicitamente que seu próprio ser está em jogo em tudo aquilo que empreende e que sua totalidade só pode realizar-se sob a forma de sua completa impossibilidade.

12. Angustiar-se diante do poder-ser da presença significa compreender implicitamente que ela também pode não ser, fazendo com que o anteceder-a-si-mesmo da cura encontre sua concretização mais originária no ser-para-a-morte.

13. A presença nunca é completamente ela mesma enquanto permanece aberta uma futuridade e algo ainda está pendente, ao passo que a morte constitui o ponto no qual nenhuma possibilidade futura permanece e no qual esse ainda-não pode ser experimentado antecipadamente como possibilidade.

14. A totalidade (Ganzheit) da presença não pode ser compreendida como soma dos acontecimentos ocorridos entre nascimento e morte, pois o ser-para-a-morte não totaliza a vida simplesmente acrescentando-lhe um último evento que completa retrospectivamente sua extensão.

15. A morte totaliza a presença como possibilidade estrutural, porque ela existe desde o nascimento como ser-para-a-morte e não como sucessão de realidades momentâneas, permitindo que o poder-ser-todo (Ganzseinkönnen) seja assumido própria ou impropriamente e que a presença transforme seu simples estar-estendida entre nascimento e morte num estender-se a si mesma.

A temporalidade como o “sentido” da cura: as três “ekstases”

16. A cura revelou uma articulação estrutural mais complexa do que o ser-no-mundo, mas sua multiplicidade encontra finalmente sua unidade originária na temporalidade, que constitui o sentido (Sinn) ontológico da cura e o fundamento unificador das determinações existenciais anteriormente analisadas.

17. A temporalidade fornece a constelação reguladora definitiva das determinações da presença e constitui a forma mais originária de sua extensão, aprofundando a tese inicial segundo a qual a essência da presença (Dasein) reside em sua existência.

18. A segunda seção de Ser e Tempo retoma toda a analítica precedente para mostrar que as estruturas fundamentais da presença devem ser concebidas temporalmente, fazendo da temporalidade a chave para reinterpretar projeção, estar-lançado, ser-com e cura.

PROJEÇÃO

19. A projeção (Entwurf) somente é possível sobre a base da futuridade, pois anteceder-se a si mesma exige que a presença (Dasein) possa vir a si em sua possibilidade mais própria, sobretudo no ser-para-a-morte, de maneira que porvir não designa um agora ainda inexistente, mas o advento pelo qual a presença vem a si em seu próprio poder-ser.

20. A futuridade funda existência, cura, ser-no-mundo, transcendência e projeção, constituindo a condição de possibilidade do projeto e assumindo por isso primazia na analítica temporal da presença.

ESTAR-LANÇADO

21. O estar-lançado (Geworfenheit), assim como a projeção, recebe fundamento temporal, pois estar lançado significa já ter sido e carregar consigo uma facticidade que somente pode ser propriamente assumida quando a presença porvindoura retorna ao que ela já sempre foi e faz de seu ter-sido uma possibilidade própria.

22. O passado da presença não deve ser compreendido como passado simplesmente desaparecido (Vergangenheit), mas como ter-sido (Gewesenheit) que continua atuante enquanto possibilidade, fazendo da facticidade não um peso morto de determinações psíquicas, sociais ou históricas, mas uma herança viva que pode ser assumida na projeção.

SER-COM OU JUNTO A

23. O ser-com e o ser-junto aos entes somente são possíveis com base na ekstase temporal do presente, entendida não como ponto imóvel entre passado e futuro, mas como atualização mediante a qual a presença deixa os entes virem ao encontro dentro da situação.

24. Porvir, vigor de ter sido e atualidade constituem os três modos fundamentais da abertura (Erschlossenheit) e, quando explicitamente assumidos pela presença, convertem-se em modos da decisão (Entschlossenheit), razão pela qual a autenticidade poderá ser determinada como decisão antecipadora e não como voluntarismo arbitrário ou decisão de impor-se aos outros.

25. A temporalidade explicita o tríplice desprender-se da presença em porvir, vigor de ter sido e atualidade, constituindo a raiz temporal respectivamente da projeção, do estar-lançado e do ser-com ou ser-junto.

26. A existencialidade revela-se agora como estrutura ek-stática, pois ser-no-mundo significa literalmente estar fora de si (ek-stare), fazendo do porvir, do vigor de ter sido e da atualidade modos originários desse desprendimento.

27. Porvir, vigor de ter sido e atualidade manifestam a temporalidade como o ekstatikon puro e simples, isto é, como o originário estar-fora-de-si da presença que permanece simultaneamente orientado para si mesma.

28. A temporalidade transforma radicalmente a problemática transcendental porque a condição possibilitadora da cura já não se encontra num sujeito isolado, mas na conexão temporal entre presença e mundo, fazendo da finitude o núcleo da existência e situando nas próprias formas temporais a origem mais profunda das estruturas antes atribuídas ao sujeito.

29. A temporalidade ek-stática rompe com os dois principais modelos tradicionais de tempo — o fisicalista, que define o tempo como número do movimento segundo antes e depois, e o mental, que o compreende como distensão da alma — porque ambos conservam a primazia do presente como modo orientador.

30. Heidegger rompe com a representação linear do tempo ao recusar a primazia do presente e, consequentemente, a compreensão de passado e futuro como extensões de um agora originário, afastando-se também da temporalidade husserliana fundada no fluxo de vivências, na presença originária (Urpräsenz) e na organização de retenções e protensões em torno do agora.

31. A representação linear é substituída pela temporalidade ek-stática, na qual o porvir recebe primazia sem transformar passado e presente em derivados secundários, pois as três ekstases permanecem cooriginárias e igualmente constitutivas da unidade temporal.

A temporalidade ek-stática como condição para a história

32. A temporalidade não é um ente nem algo que aconteça dentro de um tempo previamente existente, mas temporalização na unidade das ekstases, sendo originária relativamente ao tempo vulgar entendido como sucessão de agoras, que surge somente quando a estrutura ek-stática é nivelada e suas dimensões são tomadas isoladamente.

33. A temporalidade não resulta da soma de três ekstases separadas, pois temporaliza-se inteiramente em cada uma delas, fazendo com que porvir, vigor de ter sido e atualidade estejam intrinsecamente entrelaçados e que cada uma sustente conjuntamente a estrutura da cura.

34. O tempo originário distingue-se da sequência indefinida de agoras porque a compreensão de ser da presença produz futuridade ao antecipar seu ter-que-ser, retoma como vigor de ter sido as determinações de sua herança e atualiza os entes e outros que vêm ao encontro, fazendo das três ekstases dimensões interligadas da própria abertura em que a presença está em questão para si mesma.

35. A compreensão de ser (Seinsverständnis) revela-se assim como temporalidade originária, pois existência significa abertura radical e desprendimento de si na unidade das três ekstases, e a temporalidade ek-stática ilumina originariamente o “aí” (Da) da presença ao funcionar como princípio unificador de todas as suas estruturas.

36. A existência exprime, portanto, a direcionalidade temporal tríplice da compreensão do próprio ser e esclarece por que ela pôde funcionar desde o início da analítica como ideia orientadora para uma compreensão genuína da presença (Dasein).

37. A constituição ek-stática da presença funda também a possibilidade da história, pois, diferentemente da apercepção transcendental kantiana, uma existência cujo núcleo é simultaneamente mundano e temporal pode acontecer historicamente e constituir-se através desse acontecer.

38. A substituição da apercepção transcendental pela temporalidade permite compreender a própria compreensão de ser como acontecimento (Geschehen), de modo que ser deixa de funcionar apenas como substantivo estático e adquire uma dimensão verbal e processual ligada ao acontecer da presença.

39. A compreensão de ser acontece ainda como ser-com, pois a presença já está lançada entre outros e sua facticidade concretiza-se historicamente numa comunidade, fazendo de seu acontecer um acontecer-com (Mitgeschehen) e de seu destino individual (Schicksal) uma participação num envio comum (Geschick).

40. A historicidade somente pode ser ontologicamente compreendida a partir da temporalidade ek-stática, pois a projeção histórica retorna ao ter-sido e assume sua herança (Erbe) como campo de possibilidades, fazendo da retomada (Wiederholung) não uma repetição regressiva do passado, mas uma resposta às possibilidades que ainda atuam nele.

41. A analítica transcendental alcança seu nível mais profundo na temporalidade ek-stática, pois ser-no-mundo, cura e temporalidade constituem graus sucessivos de explicitação da compreensão de ser, até que os múltiplos existenciais sejam reunidos no núcleo temporal em que a futuridade manifesta do modo mais concreto que o próprio ser da presença está em questão.

As modificações ônticas da compreensão de ser

42. A passagem da tríade disposição, compreender e fala para a tríade disposição, compreender e decadência na segunda seção de Ser e Tempo acompanha a interpretação temporal dos existenciais, na qual o porvir possibilita o compreender, o vigor de ter sido possibilita a disposição e a atualidade fornece o sentido existencial da decadência.

43. A fala (Rede) adquire nesse contexto uma significação particularmente abrangente quando sua temporalidade é identificada à temporalidade da presença em geral, sugerindo que ela já não constitui apenas um existencial paralelo à disposição e ao compreender, mas pode exprimir a própria constituição temporal na qual significações e conceitos tornam-se possíveis.

44. A substituição metodológica da primeira tríade pela segunda pode ser compreendida supondo-se que a fala passe a designar a constituição temporal da presença em geral, enquanto a decadência representa especificamente a estrutura da cura enraizada na ekstase da atualidade.

45. A temporalização dos existenciais permite relacionar os momentos fundamentais da cura, as três ekstases em que se fundam e suas possíveis modificações ônticas, próprias ou impróprias, preparando a análise da autenticidade e da inautenticidade.

46. A distinção entre autenticidade e inautenticidade emerge da própria modificabilidade da compreensão de ser (Seinsverständnis), pois a analítica parte de uma compreensão cotidiana, implícita e pré-ontológica para mostrar como aquilo que já é compreendido pode tornar-se explícito e ser assumido pela presença de maneira distinta.

47. Poder-ser-todo e projeção tornam-se inevitáveis quando a presença é compreendida como suas próprias possibilidades, pois possibilidade já não se opõe à realidade como categoria lógica, mas constitui o próprio modo de ser da presença, que pode escolher-se, ganhar-se, perder-se ou ainda não ter-se conquistado.

48. O passo seguinte consiste em acompanhar a estrutura formal fundamental até suas concretizações existenciárias, reconduzindo aquilo que se originou (Entsprungene) à sua origem (Ursprung) e mostrando como a estrutura neutra da presença adquire concretamente as modificações próprias e impróprias de sua compreensão de ser.