Ontologia fundamental

CRITCHLEY, Simon; SCHÜRMANN, Reiner. Sobre o ser e tempo de Heidegger. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016.

A ideia de ontologia “fundamental” em Ser e Tempo

Os “preconceitos” sobre “ser”

1. Ao final do primeiro parágrafo de Ser e Tempo, a questão do ser, inaugurada por Platão e Aristóteles e posteriormente caída no esquecimento, permanece entretanto atuante sob seu próprio velamento, sobrevivendo através de distorções e reformulações que trivializaram aquilo que originalmente fora arrancado aos fenômenos mediante extremo esforço filosófico.

2. A superação desse esquecimento exige simultaneamente combater negativamente sua trivialização e repetir positivamente o gesto grego de arrancar a questão do ser aos fenômenos mediante um fenômeno exemplar, sem contudo poupar Platão e Aristóteles, pois sua própria investigação permaneceu fragmentária e tateante e acabou dando origem ao dogma segundo o qual o ser poderia constituir objeto de uma ciência fundadora ou “filosofia primeira”.

3. A liberação do espaço necessário à retomada (Wiederholung) da questão do ser requer a desmontagem de três formas fundamentais desse dogma, todas enraizadas na própria ontologia antiga.

4. O primeiro preconceito sustenta que o ser constitui o conceito mais universal, como se pudesse funcionar como gênero supremo de todos os gêneros, mas a universalidade do ser não possui estrutura genérica, pois toda diferença específica precisaria ser acrescentada ao gênero a partir de algo exterior a ele, operação impossível caso o próprio ser fosse o gênero supremo.

5. O segundo preconceito afirma que o conceito de ser é indefinível, afirmação que se torna legítima somente quando se reconhece que o ser não é um ente e, portanto, não pode receber a espécie de determinação aplicável aos entes mediante gênero e diferença específica, sem que sua indefinibilidade elimine a necessidade de interrogá-lo.

6. O terceiro preconceito considera o ser evidente por si mesmo porque se utiliza incessantemente o verbo “ser” e porque toda relação com os entes já se move numa compreensão prévia de ser, embora essa familiaridade pertença inicialmente e na maior parte das vezes (zunächst und zumeist) à cotidianidade mediana e à decadência (Verfallen) da presença (Dasein), não podendo servir como motivo para dispensar uma investigação explícita da questão do ser.

7. Os três preconceitos conservam assim um conteúdo fenomenologicamente positivo, pois mostram que já sempre (immer schon) existe familiaridade com o ser, embora seu sentido continue enigmático, devendo ser rejeitados apenas enquanto convertem essa familiaridade pré-reflexiva em suposto saber suficiente e encobrem justamente o fenômeno que pretendem esclarecer.

Pré-compreensão e ponto de partida para a retomada

8. Desde Platão e Aristóteles, a questão do ser emerge da passagem entre uma familiaridade aparentemente segura e a perplexidade diante daquilo que efetivamente significa ser, pois somos nós que nos deixamos envolver pela perplexidade, empregamos continuamente as diferentes formas da cópula e presumimos cotidianamente compreender aquilo que significa “é”, de modo que a problemática da fundamentação acaba remetendo à nossa própria existência.

9. Essa implicação revela que todo questionamento já é previamente orientado por aquilo que procura e que, para aprofundar a questão do ser, torna-se necessário voltar a investigação para nós mesmos, enquanto entes nos quais essa questão já opera antecipadamente.

10. Formular uma questão significa buscar uma determinidade daquilo com que já se possui alguma familiaridade, e a questão do ser obedece a essa estrutura ao distinguir o ser como aquilo sobre o qual se pergunta, a presença (Dasein) como o ente interrogado e o sentido do ser como aquilo que se procura determinar, embora se parta sempre de uma compreensão vaga e mediana que ainda não alcançou determinação conceitual.

11. A oposição entre compreender e conhecer revela a influência da tradição hermenêutica, sobretudo de Dilthey, mas também uma tensão anti-hermenêutica no projeto de Ser e Tempo, pois a compreensão vaga e mediana é tomada como fato originário do qual se deve avançar para uma determinação conceitual e, portanto, para uma forma de conhecimento, permanecendo ainda nessa exigência um vestígio da metafísica que Heidegger posteriormente reconheceria não ter superado inteiramente.

12. Tornar novamente questionável a questão do ser significa reconhecer, nos próprios preconceitos tradicionais, uma indeterminação ainda pendente e abrir a investigação não para um caminho único e definitivo, mas para diferentes vias ou caminhos de floresta (Holzwege), pois nenhuma delas pode reivindicar ser simplesmente “o caminho”.

13. O primeiro elemento positivo do ponto de partida de Ser e Tempo consiste na pré-compreensão que já sempre opera em tudo aquilo que se faz e se pensa, constituindo o “enigma a priori” implicado em toda relação com o ente.

14. O segundo elemento consiste no caráter historicamente determinado dessa pré-compreensão, própria de uma época em que se considera progresso reabilitar a metafísica precisamente quando a problemática ontológica que ela originalmente pretendia tematizar já foi profundamente trivializada.

15. O terceiro elemento consiste em que essa pré-compreensão não é orientada primariamente nem pela substância nem pelo sujeito transcendental, mas pela cotidianidade mediana, isto é, por aquilo que acontece na existência diária inicialmente e na maior parte das vezes (zunächst und zumeist).

16. O ponto de partida da retomada é, portanto, simultaneamente a priori, histórico e existencial: enquanto a priori, exige recursos conceituais provenientes da filosofia transcendental; enquanto histórico, exige apropriar criticamente tanto a ontologia da substância quanto a filosofia da subjetividade e reconduzi-las às raízes ocultas da questão do ser; enquanto existencial, requer categorias próprias da vida cotidiana, que não podem ser nem categorias da substância nem determinações do sujeito transcendental, mas existenciais.

17. Se a pré-compreensão constitui o ponto de partida sob essas três modalidades, a aparente aporia de Ser e Tempo pode ser compreendida antes como um círculo, pois compreender vagamente o ser já constitui um modo de nosso próprio ser e questioná-lo explicitamente é apenas uma determinação mais desenvolvida desse mesmo modo de ser, de forma que somente se pode interrogar o ser tornando problemático o próprio ato de interrogar.

18. O movimento inicial consiste assim em questionar o próprio questionamento e transformar em problema a familiaridade vaga com o ser, sem tratá-lo como algo exterior ou como um ente simplesmente presente diante de nós, pois o círculo resultante não constitui um vício lógico, mas exprime a estrutura prévia e existencial da própria compreensão da presença (Dasein).

19. A modalidade simultaneamente a priori, histórica e existencial da pré-compreensão manifesta o modo como se está essencialmente implicado na questão do ser, fazendo com que a antiga pergunta ontológica pelo ente enquanto ente somente possa ser retomada, após Kant e a investigação moderna do sujeito, a partir do primado da presença (Dasein) inscrito na própria circularidade da compreensão.

20. Presença (Dasein) designa o ente que cada um de nós sempre é e que possui, entre suas possibilidades de ser, a capacidade de questionar, constituindo por isso o ponto de partida privilegiado da retomada, não por ser simplesmente o homem enquanto espécie, mas por estar essencialmente envolvido com a questão do ser.

21. A circularidade aparente entre análise da presença (Dasein) e questão do ser não exige que já se conheça previamente a resposta à questão do ser para poder investigar a presença, pois basta a familiaridade vaga já sempre operante para orientar a investigação, fazendo com que o movimento não seja o de pressupor circularmente uma resposta, mas o de determinar progressivamente uma compreensão que pertence à própria constituição essencial da presença.

A dupla prioridade da “questão de ser”

22. A ambiguidade do caráter “fundamental” da ontologia pode ser resolvida distinguindo a ontologia fundamental (Fundamentalontologie) heideggeriana da metafísica aristotélica concebida como ciência primeira, pois esta pretende fundar e fornecer base às demais formas de conhecimento, enquanto aquela não busca legitimar, estabilizar ou fornecer critérios definitivos para as ciências, a lógica ou as doutrinas normativas da existência humana.

23. O primado ontológico da questão do ser envolve numerosas referências a fundamentos, conceitos fundamentais e constituições fundamentais, embora permaneça necessário determinar de que espécie é essa fundamentação e se ela ainda poderia significar a procura metafísica de um Primeiro último, permanente, indubitável e normativo.

24. As ciências investigam regiões determinadas do ente — como história, natureza, espaço, vida, ser humano e linguagem —, mas não podem por seus próprios meios estabelecer os limites ontológicos que constituem essas regiões, tarefa tradicionalmente atribuída à filosofia e que torna o questionamento ontológico mais originário do que a investigação ôntica das ciências positivas.

25. As ontologias ultrapassam assim o nível empírico mediante uma fundamentação regional e fornecem condições a priori às ciências que investigam os entes em seus respectivos modos de ser, distinguindo, por exemplo, o âmbito físico, zoológico ou linguístico e produzindo uma espécie de genealogia dos possíveis modos de ser que delimita antecipadamente os territórios das investigações científicas.

26. Embora o questionamento ontológico seja mais originário do que as pesquisas ônticas das ciências, ele próprio permanece ingênuo caso investigue o ser dos entes sem problematizar o sentido do ser em geral, tornando necessário um segundo passo para trás que não remonte apenas das ciências às suas condições ontológicas regionais, mas das próprias ontologias às condições de possibilidade que lhes permitem fundar tais regiões.

27. Esse duplo passo para trás, partindo da positividade das ciências empíricas, reaparece em Kant e o problema da metafísica sob outra linguagem, na qual a Crítica da razão pura é interpretada não simplesmente como lógica transcendental dos objetos naturais, mas como investigação da origem da própria ontologia regional que torna possível falar de natureza.

28. Em Kant e o problema da metafísica, a interpretação da Crítica da razão pura como estabelecimento da fundação da metafísica procura transformar o problema da própria metafísica em problema da ontologia fundamental, reconduzindo a fundamentação não a um fundamento estático, mas às condições originárias que tornam possível a metafísica.

29. Fundamentar a metafísica não significa colocar sob ela um fundamento previamente dado ou substituir uma construção estabelecida por outra, mas projetar o próprio plano de sua construção, delimitar arquitetonicamente sua possibilidade interna e trazer à luz a originariedade de sua origem.

30. A originariedade do fundamento somente pode ser compreendida quando reconduzida ao acontecimento concreto do deixar-originar (Entspringenlassen), isto é, quando a própria colocação dos fundamentos da metafísica é retomada como acontecimento e não apenas como estrutura conceitual já constituída.

31. A retomada da fundamentação consiste portanto em recuperar o processo pelo qual um âmbito se abre originariamente e torna posteriormente possível tanto a metafísica quanto sua função de justificar as ciências, sendo o acontecimento decisivo aquele em que se constitui a ligação entre ser e presença (Dasein), isto é, o acontecimento pelo qual o ser adquire sentido para a presença e esta abre um mundo em seu ser-no-mundo.

32. A singularidade desse acontecimento permite distinguir radicalmente as ontologias metafísicas, que fundam as ciências, da ontologia fenomenológica fundamental, que investiga a própria origem das ontologias metafísicas, pois o passo das ciências para suas ontologias regionais não é da mesma natureza que o passo dessas ontologias para o acontecimento originário que as torna possíveis.

33. O caráter transcendental de Ser e Tempo reside precisamente nessa heterogeneidade, pois a investigação procura condições de possibilidade da experiência, mas retrocede do fundamento representado pelo sujeito transcendental para um tipo mais originário de “fundamento”, constituído pela reciprocidade entre homem e não-homem, pela ruptura do sujeito isolado e pelo ser-no-mundo como acontecimento que torna possível o próprio sujeito transcendental e, através dele, as ciências.

34. A ligação entre a questão do ser e a presença (Dasein) fornece uma formulação decisiva para compreender também uma segunda espécie de prioridade da questão do ser sobre todas as demais formas de investigação.

35. A presença (Dasein) distingue-se dos demais entes porque, em seu próprio ser, seu ser está sempre em jogo, de modo que ela se relaciona inevitavelmente consigo mesma como questão, independentemente de formular ou não explicitamente a questão filosófica do ser.

36. A ligação entre presença (Dasein) e questão do ser é tão constitutiva que determina o próprio nome Dasein, que exprime o programa de retomar a questão do ser mediante a interrogação de nosso próprio ser, conferindo à presença prioridade entre os entes porque nela se torna possível interrogar o ente que somos, colocar o ser em questão e perguntar por seu sentido.

37. A segunda prioridade da questão do ser é sua prioridade ôntica, fundada no fato de que seu sentido está em jogo precisamente para o ente que nós mesmos somos, razão pela qual Heidegger emprega presença (Dasein) em vez de “homem”, evitando as pré-compreensões metafísicas sedimentadas nesse último termo.

38. Enquanto “animal racional” determina o homem como substância diferenciada pela razão e “Ego” o determina como unidade funcional da consciência, presença (Dasein) compreende o humano como ente inevitavelmente implicado no sentido do ser, cujo próprio ser está sempre em jogo no interior de um mundo finito.

39. A ligação constitutiva entre presença (Dasein) e questão do ser é caracterizada como uma relação de ser na qual a presença se compreende em seu próprio ser, ainda que essa compreensão permaneça inicialmente vaga e pré-conceitual, fazendo do “aí” da presença a localização na qual o ser pode tornar-se acessível e transformando a investigação ontológica num movimento de passagem entre diferentes modos dessa compreensão.