CRITCHLEY, Simon; SCHÜRMANN, Reiner. Sobre o ser e tempo de Heidegger. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016.
Existem duas linhas de criticismo conflituosas quanto à análise precedente sobre a “neutralidade” do Dasein. Sartre a denuncia, dizendo que o Dasein é um neutro, “nos aparece como assexuado” (SARTRE, J. R O Ser e o Nada. Trad. Paulo Perdigão. Petrópolis, RJ: Vozes, p. 476), como o faz Levinas, ao dizer: “O Dasein… nunca está com fome” (Levinas, E. Totalidade e Infinito. Trad. José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 2000, p. 119). Marcuse, por outro lado, enaltece Ser e Tempo por sua concretude. Ele o chama de um movimento de pensamento “estruturado em consonância com o sentido concreto de quem viveu e vive no mundo concreto… É estupendo ver que, dali em diante, todos os problemas filosóficos rigorosos e suas soluções são trazidos de volta ao movimento dialético” (MARCUSE, H. “Contributions to a Phenomenology of a Historical Materialism”, Telos, n. 4, Fali, 1969, p. 16). Depois, é claro, Marcuse denunciou a “falsa concretude” de Ser e Tempo (Graduate Faculty Philosophy Journal; Vl[1], 1977, p. 31). Mais do que perguntar se a concretude de Heidegger é genuína ou falsa, é preciso observar que Ser e Tempo articula os parâmetros a partir dos quais as experiências concretas podem ser encontradas. A pergunta “O que significa para mim estar aqui?” poderia receber uma resposta formal nos termos da dimensão espacial. Mas ninguém espera de uma bússola informações concretas sobre ruas e estradas. A abordagem “formal” não constitui uma “falsa concretude”, e sim uma exposição das dimensões envolvidas em tudo o que se vive concretamente. Como em Kant, as categorias — ou existentialia — regulam o empírico. Exceto que aqui a formalização é fenomenológica, não lógica (como é a de Kant, ao menos de acordo com Ser e Tempo).