SCHELER, Max. L’homme du ressentiment. Tradução: Radu Stoenescu. Paris: Carmin, 2021.
Alguns tópicos da introdução de Radu Stoenescu
1. O Homem do ressentimento, escrito em 1912 e submetido a diversas reformulações nos anos seguintes, é publicado junto às obras mais importantes de Scheler, O formalismo na ética e Natureza e formas da simpatia, às quais remete com frequência, e seu gesto inaugural consiste em responder a Nietzsche que seu super-homem já era Jesus Cristo, lembrando que Nietzsche tinha diante de Jesus uma posição muito mais complexa que a de seus epígonos e distinguia o ensinamento de Cristo do ensinamento da Igreja, embora se colocasse do lado da potência contra o espírito, ao passo que Scheler, em sua última visão, oporá o impulso ou força (Drang) ao espírito (Geist), essencialmente desprovido de potência temporal.
2. Esse gesto aproxima-se do de Vladimir Soloviev, filósofo russo de primeira ordem, que criticou Nietzsche de modo ainda mais sarcástico, contrapondo os quarenta dias do verdadeiro super-homem, Jesus Cristo, no deserto aos dez anos de Zaratustra na caverna e reduzindo o super-homem a mera matéria de ensino universitário, nome de uma cátedra renovada da faculdade de filologia, cujo trágico consiste em nada ter a ensinar sobre seu objeto, pois toda a pregação nietzschiana se reduziria a exercícios verbais magníficos como forma literária, mas vazios de todo conteúdo verdadeiro.
3. O conteúdo verdadeiro constitui o ponto nodal da divinização do homem, isto é, a questão prosaica de quem tomar como modelo para tornar-se o que se é, de como seria o mestre ideal que não se torna rival do discípulo e o eleva à perfeição e de quais valores ter, e diante dela Nietzsche oferece apenas um apelo genial à autossuperação sem indicação precisa da margem espiritual a alcançar, permanecendo no meio do rio por ser no fundo um subjetivista que faz de cada homem a medida de todas as coisas, mesmo postulando percepções altas e baixas, como quando afirma que os homens deram a si mesmos seu bem e seu mal, puseram valores nas coisas para se conservar e que avaliar é criar.
4. Esse subjetivismo faz de Nietzsche um autor querido dos pós-modernos e torna natimorta toda tentativa de combater o pós-modernismo filosofando a golpes de martelo, e é a esse relativismo que Scheler reage, perguntando não quais valores os homens particulares têm, mas se têm razão em visá-los e se seus valores particulares não seriam deformações dos valores absolutos que deveriam professar, já que em Nietzsche os valores vitais tendem a prevalecer sobre os espirituais, inversão perigosa que torna impossível o heroísmo, pois se a vida é o valor supremo não há razão para dar a vida, e que em muitos epígonos, como nos nazistas, converte a vida em sobrevivência e arrasta Nietzsche para o darwinismo social, numa traição evidente, pois ninguém é menos dionisíaco que um sobrevivencialista.
5. No mesmo ano de O Homem do ressentimento, Scheler inicia sua obra maior, O formalismo na ética e a ética material dos valores, réplica vigorosa à filosofia moral de Kant, na qual os valores não são arbitrários, ilusórios nem formais, mas as cores de um ato humano: assim como não se veem objetos sem cor, não se percebe ato algum sem esses filtros morais, de modo que perceber já é julgar, embora não existam valores totalmente abstratos e separados dos atos, como não existem cores em absoluto sem objetos coloridos.
6. Os valores não emanam do capricho de quem os percebe e não podem ser aplicados à vontade sobre atos e bens, pois, como qualidades sensíveis dos atos, são percebidos pela emoção, pelo coração, e não pelo intelecto, que apenas reflete depois que a emoção os dá, como quando a emoção justa percebe como ignóbil o estupro de uma mulher e como sublime o sacrifício da própria vida por quem se ama, sem que isso signifique um retorno à ética sensualista dos bens criticada por Kant, já que os valores são distintos dos bens concretos que avaliam, assim como as cores não são os objetos, e guiar-se pelas emoções avaliativas não é regredir a um estágio pré-crítico.
7. Essa concepção conduz logicamente a uma apologia da educação do sentimento humano, do coração, pois assim como se pode perceber objetos de modo errôneo, pode-se perceber atos através de um filtro de valores equivocado, e do mesmo modo que o daltonismo não altera a cor real dos objetos, a perversão produzida pelo ressentimento não altera a luz em que os atos deveriam ser percebidos, de modo que o desafio ético, no qual se está necessariamente implicado desde que se percebe algo, é a pertinência dos filtros morais, tendo a educação como horizonte a purificação de um olhar interior próximo do olhar de Deus, sem construtivismo nem doutrinação, pois não se podem inventar valores, como esperava Nietzsche, assim como não se criam as cores das coisas.
8. Que o coração tenha razões que a razão desconhece, segundo a fórmula de Pascal retomada por Scheler, não faz da emoção a fonte de um conhecimento absoluto, pois o coração pode errar como o intelecto, e O Homem do ressentimento estuda justamente os modos de extravio do coração e as razões emocionais do obscurecimento da avaliação justa, mantendo contra o racionalismo ressecante e contra Kant que seria ilusório conhecer realmente algo do mundo fora dos conteúdos de valor visados pelo sentimento, e que confiar apenas no intelecto porque a emoção é subjetiva e mutável equivaleria a tentar ver melhor apagando a luz, por se ter errado a cor dos objetos sob o jogo de luz e sombra.
9. A metáfora do olhar não deve induzir a pensar num olhar passivo ou numa emoção como mera espera de impregnação, pois quanto mais alto na hierarquia dos valores, mais ativo é o olhar espiritual, e o sagrado, o Amor-Deus no topo dos valores, é amor-ação que se derrama sobre os níveis inferiores para fecundá-los, iluminá-los e nutri-los, de modo que olhar com olhos puros não é um dado, mas resultado de uma ascese, uma disciplina e uma educação do olhar como atividade da alma, e só o olhar bom e amável, livre do cisco e da trave, ilumina realmente o objeto, sendo esse olhar divino a antítese do olhar da Górgona, que petrifica, enquanto o do amor absoluto vivifica absolutamente.
10. A filosofia de Scheler pode parecer bela mas desprovida de ancoragem real ou biológica, e seu método da intuição eidética (Wesenschau), ou fenomenologia das essências gerais, foi desde o início suspeito de misticismo, parecendo a muitos leitores sem o mesmo olhar interior uma hierarquia de valores suspensa no ar, mas o psiquiatra polonês Kazimierz Dąbrowski deu base real a essas intuições com sua teoria da desintegração positiva, fundada no trabalho clínico, que mostra um vínculo estreito entre os valores percebidos e o estágio de desenvolvimento psíquico: quanto mais o psiquismo se integra sob o controle do lobo frontal, mais se age segundo os valores mais elevados, ao passo que num estágio primitivo, como no psicopata, bondade, beleza e empatia são percebidas como defeitos.
11. Se a contribuição de Dąbrowski é exterior à filosofia scheleriana, esta encontrou uma posteridade brilhante na psicoterapia com Viktor Frankl, psiquiatra e filósofo sobrevivente de Auschwitz, dedicado a aliviar os sofrimentos psicológicos modernos nascidos da perda do sentido da vida, do absurdo de Camus ou da contingência de Sartre, cuja logoterapia parte da descoberta dos valores objetivos para concluir que o homem está condenado não a ser livre, mas a dar sentido à vida, que não o possui por si mesma, mas o espera do homem iluminado por seus valores.