Schapp

SCHAPP, Wilhelm. Philosophie der Geschichten. 3. Auflage 2015 ed. Frankfurt am Main: Klostermann, 2015.

Wilhelm Schapp: Filosofia das Histórias. Um Acesso

1. A concepção schappiana de filosofia das histórias (Geschichtenphilosophie) destaca-se por sua originalidade e por ter sido gestada solitariamente, à margem das convenções universitárias, resultando na trilogia composta por “Em Histórias Enredado” (1953), “Filosofia das Histórias” (1959) e “Metafísica da Ciência Natural” (1965).

2. A formação de Schapp se deu sob Heinrich Rickert, Wilhelm Dilthey, Georg Simmel e Alexander Pfänder, sendo porém a influência decisiva a de Edmund Husserl, sob cuja orientação surgiu, em Göttingen, a dissertação “Contribuições à Fenomenologia da Percepção” (1910).

3. Por meio de Husserl, tornou-se possível a libertação em relação às duas correntes dominantes, o kantismo e o empirismo, abrindo-se assim um vasto campo de investigações fenomenológicas livres de construções.

4. A dissertação de Schapp, hoje em sua 5ª edição, figura entre os textos clássicos da fenomenologia, tendo sido lida no círculo husserliano como via de acesso às difíceis “Investigações Lógicas” de Husserl.

5. Já na dissertação encontram-se germes de pensamento que antecipam um distanciamento em relação a Husserl, notadamente na reflexão sobre a “coisa mesma” (Ding selbst) como portadora de marcas de sua própria história, embora mais de quarenta anos ainda seriam necessários até a exposição pública da filosofia das histórias.

6. Os três volumes da filosofia das histórias, desenvolvidos na progressiva emancipação em relação a Husserl, podem ser compreendidos como um tríade (Dreiklang), lidos tanto isoladamente quanto como unidade na multiplicidade.

7. Em “Em Histórias Enredado. Sobre o Ser do Homem e da Coisa”, ocupa posição central o pensamento do enredamento do homem em histórias (In-Geschichten-Verstricktsein).

8. Esse enredamento não possui conotação negativa, exprimindo antes o fenômeno originário (Urphänomen) da inserção humana em vivos nexos de histórias, dos quais ninguém pode se subtrair.

9. O enredamento traduz o fato originário incontornável (Urfaktum) segundo o qual o ser do homem implica uma historicidade constitutiva, de sorte que o acesso a cada pessoa só se dá por meio de suas histórias específicas, como afirmado programaticamente na obra: “o essencial que conhecemos dos homens parecem ser suas histórias e as histórias em torno deles” (p. 105).

10. Cabe ao homem apreender essa historicidade principial e assumi-la ciente e volitivamente, aprofundando-se em suas próprias histórias para reconhecer seus percursos e, eventualmente, imprimir-lhes novos rumos, ainda que não possa desvencilhar-se por completo do próprio nexo histórico vivido.

11. Em correspondência a esse acesso ao ser do homem, transforma-se também o acesso ao ser da coisa e ao mundo externo, sendo as histórias primazes em relação a este último, e a costura (Nahtstelle) entre ambos constituída pelas coisas-para-que (Wozudinge), isto é, os objetos fabricados pelo homem, como mesas, cadeiras, xícaras, casas e palácios (p. 3).

12. Apreendido “de dentro”, esse fazer humano revela uma unidade dinâmica entre matéria e corpo, na qual, em atividades como serrar, martelar e furar, emerge o corpo ativo (tätiger Leib), em nexo indissociável com a ferramenta, o solo e a matéria, relegando a segundo plano o corpo visual (visueller Leib) e o mundo externo.

13. O ser do homem, entendido como enredamento em histórias, implica assim uma compreensão transformada do ser da coisa, que é produzida com vistas a um fim determinado e faz surgir, como Wozuding, o próprio mundo externo, o qual não é mundo externo “puro”, pois emerge junto com o trazer-à-luz da coisa-para-que.

14. No terceiro volume, “Metafísica da Ciência Natural”, investiga-se a relação entre o mundo das histórias e o mundo das ciências, questionando-se a primazia atribuída às ciências naturais e se conceitos fundamentais como átomo, espaço e tempo podem ser compreendidos sem remissão ao mundo das histórias e às coisas-para-que criadas pelo homem.

15. A filosofia das histórias não se confunde com a filosofia tradicional da história, pois, além de afirmar a pertença indissociável entre homem e histórias em nível elementar, posiciona-se também historicamente diante de uma concepção de mundo tida por esquecimento das histórias (Geschichtenvergessenheit), exigindo simultaneamente uma consideração filosófica sistemática das histórias.

16. Numa perspectiva histórica, o ponto de partida situa-se em Homero e Hesíodo, cuja compreensão das histórias coincide essencialmente com a schappiana, na medida em que o acesso ao próprio si mesmo e ao do outro se dá diretamente pelas histórias, sem o desvio pelas ciências, convertendo a filosofia não em ciência rigorosa, mas em doutrina de sabedoria (Weisheitslehre) centrada no homem singular, o que torna problemática a rígida separação entre saber e crer.

17. Seria equívoco considerar Schapp adversário da ciência rigorosa, pois, como pensador integrativo, ele apenas recusa a pretensão soberba dos “titãs da filosofia” que almejam tomar o céu com o raio das ciências exatas e da verdade (p. 27), propondo antes um caminho inverso que, partindo do fenômeno seguro das histórias, confere às ciências seu devido lugar, consumando assim, após Tales, Bacon e Kant, uma quarta revolução voltada ao si mesmo do homem e, portanto, às suas histórias (p. 26).

18. Numa perspectiva sistemática, a consideração filosófica das histórias suscita uma multiplicidade de questões, entre as quais destacam-se a distinção dos domínios das histórias (Gebiete der Geschichten) e o nexo entre a fala, o pensamento e as histórias.

19. Os domínios das histórias — vida desperta, sonho, embriaguez, loucura e hipnose — configuram-se como disposições fundamentais (Grundbefindlichkeiten) das quais o homem não pode escapar, pois se permanece sempre enredado em histórias oriundas desses domínios, deslocando-se de um a outro sem jamais sair da região das histórias.

20. Uma consideração filosófica das histórias não visa a uma divisão conceitual estanque desses domínios, já que neles se encontram por toda parte transições, encobrimentos, engates e sobreposições de camadas, impondo-se antes partir dos próprios enredamentos, nos quais se manifesta a unidade dos cinco domínios.

21. O nexo entre fala, pensamento e histórias remete ao complexo temático “a palavra e a história”, tratado na quarta parte da obra, que aborda a questão do que seja a palavra em si, o problema do significado da gramática — classes de palavras, substantivo, adjetivo e verbo — e, por fim, a fala propriamente dita, distinguindo-se a fala silenciosa da fala dirigida a um destinatário.

22. A perspectiva central da obra, que poderia figurar em qualquer de suas passagens, situa-se no propósito de esboçar uma história universal (Allgeschichte) na qual todos os povos e culturas encontrem lugar, bastando que se sinta o compartilhamento de um mesmo barco, mais do que náufragos no nada, unidos nessa condição comum (citação da obra), conferindo à filosofia das histórias uma relevância prática voltada à tolerância e à abertura, enquanto saber de sabedoria relegado a segundo plano pela dominância do saber científico-natural.

23. Reivindica-se, em síntese, a restituição do sentido das histórias ante o ser do homem como enredamento em histórias e a reconsideração da relação clássica entre histórias e o ser das coisas, possibilitando uma compreensão renovada do homem singular e insubstituível, cujo acesso a si e aos outros não se dá por abstração, mas por processos de concretização (Konkretisierungsvollzüge) que conduzem às histórias particulares e, assim, ao si mesmo próprio, mediado pelas histórias.