Carlo Saviani. El Oriente de Heidegger. Barcelona: Herder, 2004
A CONVERSA COM CHUNG-YUAN CHANG
Em julho de 1949, ocorreu um importante congresso internacional sobre “Heidegger and Eastern Thought” na Universidade do Havaí, organizado pelo Departamento de Filosofia, que desde 1939 se distinguia por promover cursos e publicações de Filosofia comparada através da revista “Philosophy East and West”; entre os participantes estava Chung-yuan Chang, um emérito especialista contemporâneo do taoísmo e do budismo Ch'an, que havia estudado Filosofia na Columbia University e lecionado na Universidade do Havaí, e que comparou repetidas vezes em seus estudos a milenar tradição taoísta e o pensamento do último Heidegger, deixando um valioso testemunho de uma conversa que manteve com Heidegger em Friburgo em 18 de agosto de 1972.
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Chang recorda que Heidegger, em sua conversa, mostrou-se muito interessado na nomenclatura “Lichtung”, que pode ser traduzida como “extensão” ou “claro”, e que esta noção foi identificada com a noção taoísta “Ming”, que significa “diluído” ou “claro”, estabelecendo assim uma afinidade profunda entre o conceito heideggeriano do claro do ser e a compreensão taoísta da luminosidade que emerge da vacuidade.
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Sobre a questão do princípio de identidade, Heidegger disse que não se sentia satisfeito com seu livro “Identität und Differenz”, escrito quinze anos antes, e que desejava voltar a abordar o tema o mais rápido possível, citando fragmentos de
Parmênides para ilustrar sua insatisfação; esta confissão revela que Heidegger considerava a questão da identidade como um problema ainda aberto e que buscava, no diálogo com o pensamento oriental, novas perspectivas para aprofundá-la.
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Heidegger perguntou a Chang como se dizia “há um velho árvore” em chinês antigo, e Chang respondeu “Mu lao yee”, que significa literalmente “árvore velha”, explicando que, quando uma expressão como esta é pronunciada, o ser do falante e sua pronúncia se identificam totalmente ou se “co-pertençam”; Heidegger se mostrou muito complacente ao encontrar este exemplo de identidade entre ser e pensar na antiga língua chinesa, e quando Chang afirmou que tal identidade não deveria ser chamada de ontológica, mas pré-ontológica, Heidegger se mostrou ainda mais complacente, reconhecendo a importância dessa distinção para sua própria reflexão sobre a história do ser.
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Chang iniciou uma tradução do Tao Te Ching, em cujo comentário se referia com frequência a Heidegger, sugerindo, por exemplo, a propósito do capítulo XXV, que o significado de “wu” ou “coisa” não indica a coisa entendida ordinariamente, mas sim na linha da interpretação heideggeriana da coisa como um reunir-se, como a “pura, coligação escanciante” da simples unidade da Quaderna de terra e céu, os divinos e os mortais; e, a propósito do capítulo XLVIII, indicava que a máxima de Lao-Tzu sobre diminuir dia a dia para chegar ao Tao é comparável com a de Heidegger do “passo atrás” no caminho do pensamento, que consiste em recuar da representação metafísica para abrir-se ao acontecimento do ser.
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Chang também menciona em sua obra “Philosophy of Chuang-tzu” que Heidegger lhe mostrou uma tradução alemã do Chuang-tzu e a discutiu com uma competência inequívoca, demonstrando um conhecimento aprofundado do texto e uma familiaridade que ia além do mero interesse superficial, e que Heidegger, durante a conversa, citou uns fragmentos de
Parmênides, mostrando como seu diálogo com a tradição grega se entrelaçava com seu interesse pelo pensamento oriental, numa busca comum por um pensamento não metafísico.