Budismo

Carlo Saviani. El Oriente de Heidegger. Barcelona: Herder, 2004

A CONFRONTAÇÃO COM O BUDISMO ZEN

1. PRIMEIROS ENCONTROS

1. Já nos anos vinte, Heidegger teve a possibilidade de estabelecer contatos diretos e indiretos com estudiosos budistas japoneses, como recorda K. Tsujimura em seu discurso em Meßkirch em 1969, mencionando que em 1921 Tokuryū Yamanouchi, mais tarde fundador do Instituto de Filosofia Grega na Universidade de Kyoto, foi o primeiro japonês a estudar com Heidegger, seguido em 1922 por Hajime Tanabe, que foi, segundo Tsujimura, o primeiro a descobrir a importância do pensamento heideggeriano não apenas no Japão, mas talvez no mundo inteiro, com seu ensaio de 1924 que já apresentava uma primeira versão de “Ser e Tempo”, e posteriormente, em Marburgo, o barão Shūzō Kuki, a quem os japoneses devem a primeira elucidação confiável de “Ser e Tempo”, e, no conturbado período dos anos trinta, Keiji Nishitani assistiu em Friburgo às lições de Heidegger sobre Nietzsche.

2. O ENCONTRO COM SHŪZŌ KUKI

2. A profunda amizade que uniu Heidegger e Shūzō Kuki (1888-1941), um pensador que reveste uma singular importância no panorama filosófico japonês e europeu do século passado, remonta ao período marburguês, durante o qual Kuki, em uma longa estada na Europa para estudos (1921-1928), conheceu Rickert e Herrigel em Heidelberg, Husserl em Friburgo e Heidegger em Marburgo (verão 1927 - verão 1928), e finalmente o jovem Sartre em Paris, que soube de Heidegger pela primeira vez através do refinado barão japonês, e a noción de Iki e o problema, exemplar, de sua traduzibilidade por “Ammut”, “graça”, constituem o eixo do célebre “Diálogo com o Japonês” de Heidegger.

3. A TRADUÇÃO JAPONESA DE “WAS IST METAPHYSIK?”

3. Outro episódio importante, que Heidegger recordou em diversas ocasiões, situa-se no início de seu período docente em Friburgo: a tradução imediata ao japonês, em 1930, de “Was ist Metaphysik?”, a cargo de seu aluno Seinosuke Yuasa (1905-1970), e Heidegger assinalou repetidas vezes a plena compreensão que este texto alcançou no ato no Japão, frente à errônea interpretação de “nihilista” que recebeu na Europa, como se depreende do “Gespräch”, onde o Japonês afirma que compreenderam no ato a conferência quando em 1930 chegou uma tradução, e ainda hoje se surpreendem e perguntam por que os europeus puderam interpretar a Nada em sentido niilista, pois para eles o vazio é o nome eminente para o que Heidegger quer dizer com a palavra “ser”.

4. A CONVERSA COM DAISETZ TEITARO SUZUKI

4. Se a finais dos anos 30 Heidegger está em contato com K. Nishitani, que assiste em Friburgo a suas lições sobre Nietzsche e o niilismo, é nos anos 50 e 60 que as relações com os estudantes budistas japoneses se intensificam, e a primeira entrevista documentada é a que teve lugar com D. T. Suzuki em 8 de julho de 1953, onde a conversa, que durou uma longa hora, teve como tema principal o pensamento em sua relação com o ser, e Suzuki explicou que o ser está ali onde o homem que medita sobre o ser se advirte a si mesmo, sem por isso se separar do ser, e quando Heidegger perguntou de que forma isso poderia ser expresso linguisticamente, Suzuki falou de Tokusan, e o professor, sem fazer qualquer comentário, mostrou sua aprovação em silêncio.

5. A CONVERSA COM TOMIO TEZUKA

5. Mais rico em referências teóricas é o relato de T. Tezuka (1903-1983), docente de Literatura alemã na Universidade de Tóquio, que, em uma conversa com Heidegger em 1955, transcreveu e explicou um haiku de Bashō, e Heidegger perguntou pela palavra japonesa que designa o linguagem, “koto-ba”, e Tezuka explicou que “koto” significa “coisa” ou “estado de coisas” e “ba” designa “muitos” ou “espeso”, de modo que “koto-ba”, linguagem, e “koto”, coisa ou evento, poderiam ser considerados os dois lados de uma mesma realidade, onde o evento-coisa resplandece e se converte em linguagem, e Heidegger, tomando apontamentos, disse: “Interessante! Então a palavra japonesa kotoba significa Ding, coisa”.

6. AS CONVERSAS COM HŌSEKI SHIN'ICHI HISAMATSU

6. Em 18 de maio de 1958, Heidegger e Hōseki Shin'ichi Hisamatsu (1889-1980), monge zen da tradição Rinzai, conduziram um breve seminário na Universidade de Friburgo, onde Hisamatsu, ao ser questionado sobre a noção japonesa de arte, explicou que “Gei” significa originalmente “arte” como “capacidade”, “habilidade”, e o composto “Gei-jitsu” é a tradução do conceito ocidental-estético de “arte”, mas existe outro termo antigo, “Gei-dō”: a via da arte, onde “Dō” é o chinês “Tao”, que guarda uma relação profunda e intrínseca com a vida e com o ser, e no arte zen, o homem é conduzido da realidade ao origem da realidade, e uma vez introduzido no origem, retorna à realidade, e esse retorno é o obrar, o pôr-se-a-obra da verdade zen mesma, onde o origem da realidade é a verdadeira vida originária, o Si mesmo, e é, ao mesmo tempo, o abandono divino de todo vínculo, o ser livre de todo vínculo formal, denominado também Nada.

7. A CORRESPONDÊNCIA COM TAKEHIKO KOJIMA

7. Em 1965, foi publicado um intercâmbio epistolar entre Takehiko Kojima e Heidegger, mantido dois anos antes, onde Kojima, em uma carta aberta, menciona a conferência de Heidegger sobre a era atômica e, refletindo sobre a situação do Japão, lamenta que, após ter recebido a bomba atômica, o Japão se afunde totalmente na mediocridade da europeização, e que a alva japonesa é como uma imitação da alva, onde tudo advém como em um sonho com os olhos abertos, e com o Japão, todo o mundo não europeu mas europeizado segue este caminho para a ausência do homem, de forma ainda mais despreocupada que a própria mãe Europa.

8. A CONVERSA COM MAHA MANI

8. Em 27 de setembro de 1964, Heidegger manteve uma conversa privada com Maha Mani, um monge budista tailandês de tradição Theravada, descrita minuciosamente por H. W. Petzet, onde o tema da técnica e a relação entre o pensamento oriental e o ocidental foram discutidos, e Heidegger sustentou que a questão é quem faz de mediador, e que muitas vezes está de acordo com Lao-Tzu, mas o conhece apenas através de tradutores alemães, e que a própria língua inglesa, na qual a conversa se desenvolvia, é absolutamente não filosófica, tornando difícil a compreensão do decisivo.

9. UM TESTEMUNHO DE KŌICHI TSUJIMURA

9. Kōichi Tsujimura (nascido em 1922), aluno de filosofia de H. Tanabe e K. Nishitani e, na prática do zen, de H. Sh. Hisamatsu e D. R. Ōtsu, estudou com Heidegger em Friburgo de 1956 a 1958, e em 1969, no discurso para o oitenta aniversário do pensador, pronunciou uma interpretação magistral do passo de Heidegger dedicado ao “árvore em flor”, enlaçada com a do célebre Kōan de Chao-Chou do “cipreste no jardim”, e como imagem da confrontação epocal entre os dois mundos culturais, alude ao “pontinho” [Steg] que Heidegger nomeia em um de seus poemas.