Ser e Tempo

JS2024

Introdução: A exposição da questão do sentido do ser

Nossa preocupação principal é a seguinte: ler Ser e Tempo, de Heidegger, cuidadosa e reflexivamente. Isto é, procurar lê-lo com a mesma atenção que o próprio Heidegger dedicou às suas leituras de Aristóteles, Kant, Hegel, Schelling, Nietzsche e assim por diante. Isto é, procurar lê-lo de tal maneira que se pensem a fundo as questões nele em jogo, permitindo que elas se tornem genuinamente questionáveis.

Há duas características de Ser e Tempo sobre as quais é preciso concentrar-se desde o início.

(1) Sua incompletude.

Segundo o plano apresentado no § 8, Ser e Tempo deveria consistir em duas partes principais, cada uma contendo três seções. Dessas, somente as duas primeiras seções da primeira parte foram efetivamente publicadas.

Em particular, a terceira seção da primeira parte (“Tempo e ser”) — a seção na qual a questão fundamental teria finalmente sido abordada em seu nível próprio — jamais apareceu.

Portanto: Ser e Tempo (tal como publicado) é inteiramente preliminar —

Isto é, radicalmente incompleto.

Isto é, um torso!

(2) Seu enraizamento na tradição — o fato de se encontrar em diálogo e em confronto com a tradição. Uma metáfora mais apropriada: Ser e Tempo é a ponta de um iceberg.

O que não se vê é o amplo confronto com a tradição que Heidegger desenvolveu em seus cursos. Estes lançam considerável luz sobre Ser e Tempo, e convém comparar a cronologia com o ensaio de Sheehan, “Os primeiros anos de Heidegger”. Examinam-se dois cursos — aqueles ministrados imediatamente antes e depois de Ser e Tempo. Por ora, porém, é preciso chegar o mais rapidamente possível ao texto de Ser e Tempo.

Foi nesse confronto que se elaborou a maior parte das questões fundamentais de Ser e Tempo, embora, no próprio Ser e Tempo, essa dimensão seja, em grande medida, apenas aludida.

À guisa de introdução, sejam simplesmente apresentadas três citações, a fim de situar o projeto de Heidegger em seus termos mais gerais.

(1) Do Sofista, de Platão. Heidegger o cita na primeira página de Ser e Tempo.

“Pois é manifesto que há muito estais familiarizados com o que quereis dizer quando empregais a expressão ‘ser’. Nós, porém, que antes julgávamos compreendê-la, encontramo-nos agora perplexos.”

Isso indica a relação da obra de Heidegger com o pensamento grego (Platão, Aristóteles): do pensamento grego, ele retoma a questão fundamental de sua obra — a questão do sentido do ser.

(2) Do Crepúsculo dos ídolos, de Nietzsche, cujo subtítulo é “Como se filosofa com o martelo”.

“De fato, nada teve até agora um poder de persuasão mais ingênuo do que o erro do ser.”

Isso significa: o ser é um erro.

Além disso, no mesmo contexto, Nietzsche afirma acerca de todos esses “conceitos supremos” que eles são “os conceitos mais gerais, os mais vazios, o último vapor da realidade que se evapora”.

Essa passagem indica o estado a que chegou a questão do ser: o ser já não é sequer — como afirmava Hegel — o mesmo que o nada, mas antes puro erro, um ídolo cujo crepúsculo, cujo ocaso, Nietzsche anunciaria.

Essa é a “situação” a partir da qual Heidegger procura renovar a questão do ser.

(3) De Husserl (mestre de Heidegger, a quem Ser e Tempo é dedicado); especificamente, do prefácio à segunda edição das Investigações lógicas, no qual Husserl caracteriza as Investigações nos seguintes termos: “São tentativas de um trabalho fundamental genuinamente realizado sobre as próprias coisas imediatamente visadas e apreendidas. Mesmo quando procedem criticamente, não se perdem em discussões acerca de pontos de vista, mas deixam a última palavra às próprias coisas e ao trabalho que se realiza sobre tais coisas.”

Isso indica a maneira pela qual Heidegger procura renovar a questão do ser — mediante a fenomenologia, mediante o retorno às coisas mesmas.

Dito isso, passe-se ao texto de Ser e Tempo.


I. A Página Inicial sem Título de Ser e Tempo

II. A Primeira Introdução de Ser e Tempo: A Necessidade de uma Renovação (Wiederholung) Explícita da Questão do Ser

III. A Segunda Introdução de Ser e Tempo: A Dupla Tarefa na Elaboração da Questão do Ser: O Método da Investigação e seu Esboço

PRIMEIRA DIVISÃO: A ANÁLISE PREPARATÓRIA FUNDAMENTAL DO DASEIN

SEGUNDA DIVISÃO: DASEIN E TEMPORALIDADE

CONCLUSÃO

APÊNDICE

POSFÁCIO DO EDITOR