JS2016
1. O caminho ao longo do qual a natureza retorna de sua destituição pode conduzi-la a si mesma, à natureza ela mesma, tal como é, talvez mesmo em sua plenitude, tal como do morto do inverno a natureza renasce na abundância de seu crescimento — ou pode retornar sob figura outra que não a que lhe é própria, disfarçada a ponto de mal se reconhecer ela mesma, tal como quando desfigurada por forças alheias que, ainda que pareçam provir da natureza, contrariam as que lhe pertencem por natureza.
2. O curso pelo qual a natureza retorna, o ciclo das estações, articula-se finamente, não sendo apenas percurso que circula indefinidamente, mas também medido e marcado pelas fases de retração e retorno da natureza, entrelaçado ainda ao curso marcado pela retração noturna da luz e seu retorno com a chegada do dia, que restitui a visibilidade a todas as coisas.
3. Há ocasiões, eras inteiras mesmo, em que a intervenção humana obriga a própria natureza a recuar por trás das fabricações construídas a partir dela, podendo a eventual desolação abrir espaço para o retorno da natureza ela mesma, ou a exploração persistente bloquear esse retorno enquanto ela mesma, permitindo-lhe retornar apenas como fantasma daquilo que de outro modo seria.
4. Uma postura teórica orientada a tudo o que seria inteira e invariavelmente ele mesmo pode postular a natureza ela mesma para além da natureza tal como se exibe diante dos sentidos, situando-a assim além de toda possibilidade de retorno e considerando a natureza que se apresenta diante de nós como mera semelhança remota da natureza tal como, em sua completa identidade consigo mesma, ela é.
5. O retorno da natureza pode evocar um retorno à natureza: com a chegada da primavera, ao avistarem-se os primeiros brotos, as pequenas folhas e os demais traços de tudo o que em breve chegará, somos seduzidos pela promessa visível de abundância e talvez mesmo impelidos a aventurar-nos na natureza circundante.
6. Do mesmo modo, o retorno da luz pela manhã impele a sair conforme o dia exige, deixando o abrigo que resguardava durante a noite para avançar em meio aos elementos que ao mesmo tempo acolhem e ameaçam, sendo talvez mais irresistivelmente atraídos pela natureza quando o brilho das coisas naturais excede tanto nossa apreensão quanto nossas palavras, podendo a beleza natural ultrapassar mesmo aquela de que a arte é capaz — como sugere a cena paradigmática de alguém dotado de genuíno senso de beleza que deixasse o museu para se aventurar na expansão aberta onde poderia deter-se diante da beleza da natureza.
7. Para que o esplendor da bela natureza exerça sua atração, é necessário que se torne manifesto, pois a atração e a retração da natureza só podem exibir-se diante de nós se as coisas naturais se manifestam ao serem reunidas em seu retorno e retração, devendo mostrar-se de modo a poderem ser apreendidas pelo sentido, juntamente com o que vem em auxílio do sentido, completando aquilo que o sentido sozinho jamais poderia alcançar.
8. Um dos nomes dados a esse suplemento do sentido é imaginação (Einbildungskraft), sendo somente por sua vinda que se torna possível apreender tanto as coisas naturais — animais, flores, gramíneas, pedras — quanto as coisas fabricadas a partir da natureza — edifícios, utensílios de toda sorte, instrumentos diversos —, exibindo-se tais coisas diante de nós seja como coerentes dentro do retorno e retração da natureza, seja, no caso das coisas fabricadas, situadas no limite da natureza.
9. Na natureza reúne-se não apenas a configuração das coisas, mas também os elementos que as circundam — chuva e neve, montanhas e vales, vento e luz solar e, de modo mais abrangente, terra e céu, que delimitam o espaço enchórico em que tudo o que é da natureza vem a acontecer —, de modo que as coisas naturais só podem ser apreendidas em sua plenitude se se mostram dentro de seu contexto elemental, exigindo-se que a abertura aos elementos pertença intrinsecamente à sua apreensão.
10. Para uma análise da manifestação enquanto tal, impõe-se realizar uma volta aos elementos, isto é, tal análise deve voltar-se aos elementos a fim de demonstrar os modos pelos quais as coisas naturais são circundadas por eles; e, se essa análise se estender ainda à expansão mais ampla do cosmos, impõe-se igualmente uma volta cosmológica correspondente, extensão que se pode entender tanto como ampliação do sentido de natureza quanto como passagem pelo limite que separa — mas também conjuga — natureza e cosmos, limite determinado como fronteira em que o céu que tudo circunda se transforma no cosmos enormemente expansivo.
11. Assim como a vinda da imaginação é necessária à plena apreensão das coisas naturais tal como aparecem diante do sentido, também é ela requerida para a abertura aos elementos que pertence a essa plena apreensão, pois, mesmo ocupando-se um recinto fabricado ou até natural — um edifício ou uma caverna —, terra, céu e o espaço por eles delimitado continuam implicados na apreensão das coisas e em virtualmente todos os modos de comportamento assumíveis.
12. Em todo caso, a abertura ao elemental, ainda que velada, pertence à apreensão das coisas da natureza e mesmo das coisas fabricadas a partir dela, de modo que, ao deixar as coisas aparecerem em seu contexto elemental, a imaginação também traça os espaçamentos dos elementais que constituem a estrutura móvel da natureza em seu conjunto.
13. A natureza é também cena da vida, sendo ela quem sustenta e abriga os seres vivos, por mais mediados que esses meios se tornem, como no caso dos humanos, fornecendo o material das construções fabricadas mesmo quando as moradas naturais dos animais são substituídas por recintos fabricados, e a terra o suporte que permite ao edifício humanamente construído manter-se firme.
14. A natureza é a cena do crescimento, o lugar onde as criaturas vivas prosperam e também padecem declínio e morte; a designação grega para o que se chama natureza, φύσις, liga-se ao verbo φύω, que, entre seus sentidos, significa crescer, e, em sua forma passivo-média, significa nascer, sendo φύσις, num de seus sentidos, também nascimento.
15. A natureza é o lugar do nascimento, o lugar onde uma vida nova pode vir a ser, uma vida que nunca antes existiu, uma vida que — ao menos no caso dos humanos — é, desde o instante do nascimento, um si mesmo por vir, sendo singular tudo o que nasce, sobretudo no caso dos humanos, de modo que atender à natureza e libertá-la de tudo o que, vindo de além dela, lhe imporia uma ordem alheia é também proteger a singularidade que nela abunda.
16. O elemental, que confere à natureza sua figura, é também o sítio do mítico, pois os elementos desdobram, para além de sua superfície, uma profundidade da qual as figuras míticas podem — e, para os gregos, de fato — surgir, entretecendo-se algumas dessas figuras, nomeadas — sobretudo Apolo e Penélope — ou não nomeadas — como Ártemis e Afrodite —, no discurso que se segue, especialmente quando este toca no elemental, na imaginação e na própria tessitura — e destecimento — de um texto, estando em jogo, acima de tudo, com essas várias figuras e sua passagem velada pelo texto, a vinda da imaginação.