Romano – Ipseidade

Em Ser e tempo, a introdução do conceito de ipseidade é motivada pelo fato de que a ontologia do Dasein [o ser-aí, o homem considerado em sua essência] “proíbe partir da doação formal do eu para dar uma resposta fenomenalmente satisfatória à questão do quem (Wer)” (§25). É, portanto, em contraste com o termo-chave das egologias que a ipseidade é definida. A ipseidade não designa, de fato, na ontologia fundamental, uma entidade pensante, nem um núcleo de identidade própria, mas, como Heidegger insiste constantemente, uma maneira de ser (Weise zu sein) ou uma maneira de existir (Weise zu existieren) do Dasein (§ 54). O ponto de partida para a tematização da ipseidade reside na ideia de que existem duas maneiras fundamentais para o Dasein existir e se relacionar com o seu ser: ou antecipando resolutamente a sua morte e decidindo por si mesmo, à luz desta, a sua existência e quem ele tem de ser; ou delegando essa decisão a “outros” e, na realidade, a todos e a ninguém, ou seja, ao que Heidegger chama de “o On” (das Man). No primeiro caso, o Dasein é ele mesmo, assume o fardo de seu ser e existe de maneira autêntica: ele alcança a ipseidade, o ser-si-mesmo (Selbstsein), ou seja, uma existência “em pessoa”; no segundo caso, ele cede à decadência e mergulha na inautenticidade: não é mais ele mesmo, mas das Man, o On.

Toda a economia da noção de ipseidade repousa sobre esse contraste entre a ipseidade (ou o ser em pessoa) e o modo de ser em que se torna literalmente “ninguém”, ou seja, qualquer um, indistinguível dos outros, em que se afunda no anonimato: “O Dasein sempre se compreende a partir de sua existência, de uma possibilidade de ser ele mesmo ou de não ser ele mesmo” (§4). Qual é, então, a relação entre identidade própria e identidade? Acontece, especialmente em suas aulas, que Heidegger apresenta a ipseidade como uma forma específica de identidade (Selbigkeit e não Identität) que seria própria do Dasein e somente dele, e que diferiria do conceito usual de identidade, a identidade numérica através do tempo (Heidegger, 1985, p. 210).

Mas essa afirmação levanta pelo menos duas dificuldades. Primeiro, como o que foi definido no §54 de Ser e tempo como um conceito modal que se refere ao como (quomodo, Wie) do tempo (Heidegger, 1985, p. 210) pode ser considerado como um conceito modal que se refere ao como (quomodo, Wie) de si mesmo? Mas essa afirmação levanta pelo menos duas dificuldades. Primeiro, como é que o que foi definido no §54 de Ser e tempo como um conceito modal que se refere ao como (quomodo, Wie) de uma “maneira de ser” pode agora significar uma forma de identidade e permitir responder à questão do quem (quis, Wer)? Por outro lado, se esse sentido específico de identidade não é seu sentido lógico, usual, qual é esse sentido? A resposta que Heidegger traz implicitamente a essas questões é que a identidade designa, acima de tudo, uma forma de fidelidade (Treue) a si mesmo (§75) ou de auto-constância (Selbst-ständigkeit), que não é uma simples permanência (§65).