Existência

(ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:21-23)

1. O existir do Dasein consiste num modo de ser transitivo pelo qual esse ente se relaciona ao próprio ser em primeira pessoa, de modo que a minheidade (Jemeinigkeit) do ser expressa que, para tal ente, está em jogo em seu ser o próprio ser, e a compreensão desse ser é simultaneamente a compreensão de quem esse ente é.

2. A compreensão (Verstehen) designa não um comportamento teórico de um sujeito frente a um objeto, mas um evento pelo qual o próprio ser se torna manifesto e se desvela para o Dasein, constituindo um modo do existir e o evento fundamental da transcendência pelo qual o ser se desvela e o ente vem à descoberta.

3. Existência, compreensão e verdade aparecem como eventos que sobrevêm ao ser-aí (Dasein) e, por meio dele, ao próprio ser, de modo que a compreensão é obra de verdade, a verdade é desvelamento (Erschlossenheit), e o Dasein constitui o “sítio” desse evento do ser, sendo somente porque a verdade é um existencial que uma ontologia no sentido clássico se torna possível, fundada em última instância nos existenciais do Dasein e, mais particularmente, na compreensão.

4. É porque o ser é interrogado desde Sein und Zeit em seu sentido verbal, transitivo e evental, tomando o Dasein como fio condutor, que se tornam possíveis a derivação e o desmantelamento da ontologia tradicional, regida desde Aristóteles pelo primado da estrutura predicativa, de modo que Heidegger não pensa mais o ser logicamente no sentido de cópula, mas, mais originariamente, como Evento (Ereignis), condição pela qual o tempo pode aí ser determinado como o horizonte da compreensão do ser.