Evento em sentido "evental"

ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1998:44

O mesmo não se passa com o evento, no sentido propriamente “evental” (Geschehen), na medida em que este se distingue precisamente do simples fato. Enquanto o fato intramundano não se dirige a ninguém em particular, e ocorre indiferentemente a qualquer testemunha, o evento é sempre dirigido, de modo que aquele a quem acontece está propriamente implicado no que lhe acontece. Por conseguinte, compreender o sentido de um evento nunca significa relacionar-se com ele no modo neutro de um puro observador, como se fosse um fato “objetivo” no mundo. O evento nunca é “objetivo” como o fato pode ser, e não se presta a qualquer observação imparcial: aquele que compreende o que lhe acontece como acontecendo precisamente a si próprio está ipso facto envolvido naquilo que compreende, de modo que compreender o evento e dele fazer a experiência insubstituível, experienciá-lo em si como destinado a si mesmo e a nenhum outro, são uma e a mesma coisa. Há aqui uma implicação estrita daquele que compreende no próprio ato de compreender: só posso compreender um evento como sendo a mim dirigido se eu próprio estou em jogo nas possibilidades que ele me destina e pelas quais ele faz história abrindo-me um destino.

Em outras palavras, os fatos intramundanos me acontecem, mas não me põem em jogo a mim mesmo, em minha insubstituível ipseidade. O mesmo não se pode dizer dos eventos que aqui servirão de fio condutor para uma interpretação do advento humano, segundo o enredo histórico da sua própria aventura. Esta hermenêutica do evento da aventura humana à luz do evento, tomado no seu sentido propriamente “evental”, constitui a tarefa primeira e última de uma fenomenologia do evento.