(ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:32)
a. — O problema da pré-compreensão
1. Toda compreensão é circular, cumprindo-se o projeto rumo a um sentido sempre a partir de uma compreensão prévia à qual retorna para aprofundá-la, sendo esse cerne classicamente designado como círculo hermenêutico, noção que, oriunda da hermenêutica dos textos em Schleiermacher e Dilthey, pode estender-se a toda compreensão em geral mediante certa modificação de sentido.
2. Numa primeira simplificação, atribui-se a Heidegger a tese de que uma pré-compreensão do ser pertence ao Dasein na medida em que existe, sendo essa compreensão pré-ontológica do ser condição de toda compreensão ontológica expressa, verdadeiro a priori (ontológico) que garante a universalidade de toda compreensão do ser, embora deixe em aberto o problema de como tal compreensão surge de fato, já que a tradição sempre está solidária à decadência do Dasein.
3. Contra essa homologação heideggeriana do compreender, poder-se-ia sustentar que as pré-compreensões que orientam todo projeto interpretativo provêm de um legado e de uma tradição, caracterizando-se por seu enraizamento histórico, entendendo-se então a pré-compreensão como um conjunto de preconceitos pertencentes a uma época e ressortindo, por isso, a uma certa facticidade.
4. Antes de examinar em que sentido essas duas concepções se revelam insuficientes do ponto de vista evental, cabe reconhecer que a oposição entre Heidegger e Gadamer poderia reduzir-se a uma simples diferença de acentuação, já que a tese da apriorização da compreensão ontológica é indissociável daquela que sustenta a existência de preconceitos factícios consignados numa tradição; contudo, se a compreensão é um eventencial, todos os dados do problema devem ser reconsiderados.
5. A compreensão pode revestir duas formas principais — evenciada (événementielle), quando se refere a fatos intramundanos suscetíveis de explicação, e evental (événementiale), quando se refere a Eventos nos quais o Adveniente está em jogo em sua ipseidade —, sendo somente este último sentido aqui considerado.
6. Se essa pré-compreensão não pode ser definida nem como a priori ontológico do Dasein nem como dado de fato histórico, ela é certamente a priori no sentido de que o Adveniente deve estar aberto ao Evento em geral, mas esse a priori se declina necessariamente a posteriori, de modo que sua aposteridade pertence à própria textura evental de sua apriorização.
b. — Finitude da compreensão e infinidade do sentido
7. Rejeita-se, de um lado, o ideal ainda mantido por Sein und Zeit de uma compreensão plena e sem falhas em que o sentido da existência se tornaria inteiramente transparente no instante da resolução; de outro, recusa-se reconduzir a ilimitação do compreender a uma simples facticidade histórica, como se a impossibilidade de um sentido total se devesse apenas aos preconceitos que sobrecarregam a compreensão.
8. A finitude da compreensão deve ser pensada não a partir do ser-para-a-morte do Dasein, mas a partir do nascimento: no Evento precursor e inaugural da vinda ao mundo, a aventura humana abre-se a um não-fundo que não possibiliza a si mesma, e a partir do qual toda possibilização ulterior só pode advir-lhe, o que faz de seus possíveis não o que provém de um livre projeto rumo à morte, mas o que transcende todo projeto — literalmente eventualidades.
9. A incompreensão é aquilo sem o qual nenhuma compreensão poderia advir, pois compreender é sempre arrancar algo a uma incompreensibilidade inicial a partir da qual somente um sentido pode ser conquistado e subtraído ao não-sentido, não se tratando aqui de uma incompreensibilidade de fato, mas de uma condição essencial de toda compreensão.
10. Esse não-sentido e essa incompreensão, tal como o não-fundo da aventura, não têm significação primeiramente negativa, mas designam um fenômeno positivo: o excedente absoluto do sentido em geral sobre toda apropriação compreensiva, sendo a inesgotabilidade do sentido a inesgotabilidade dos possíveis interpretativos que, abertos desde o não-fundo do nascimento, tampouco se fecham com a morte.
11. Compreende-se assim melhor a afirmação de que toda compreensão é indissociável de uma ex-per-iência em sentido distinto do empirista, não designando esta senão a apriorização dessa aposteridade que pertence ao compreender enquanto tal, de modo que a compreensão só é possível segundo o a posteriori transcendental da ex-per-iência.
12. O sentido do melhor numa compreensão designa o caráter mais potente de uma interpretação capaz de dar conta de maior número de fenômenos que as interpretações precedentes, não podendo, contudo, compreender-se melhor senão à condição de nunca compreender tudo, repousando toda compreensão melhor, conquistada sobre uma incompreensão, e toda compreensão mais fraca sobre uma incompreensão mais radical que precede ambas.
13. Impõe-se então a questão de como se articulam a singularidade de todo ato de compreender em sua relatividade histórica e a universalidade a que necessariamente visa, questão idêntica à que interroga o sentido propriamente evental da ex-per-iência, pois o universal não pode ser dado aqui como terminus a quo, um a priori ontológico, mas designa antes um terminus ad quem, o termo de uma travessia de si a si enquanto exposição ao Evento.
14. Ao sobrevir, todo Evento introduz na aventura nativa um sentido que ela não supunha, mas que lhe cumpre apropriar, sendo esse sentido o que sempre já antecipou toda compreensão, abrindo-a a esse excedente inesgotável de si mesma — ao incompreensível também —, apropriação essa só possível pela transformação do Adveniente e sua estranheza ao passado.