(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. 1. ed ed. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:24-25)
1. A primazia ôntico-ontológica do Dasein é a razão pela qual lhe permanece oculta sua específica constituição de ser, entendida no sentido da estrutura categorial que lhe é própria, sendo o Dasein para si mesmo onticamente proximíssimo, ontologicamente distantíssimo e, contudo, pré-ontologicamente não estranho.
2. O Dasein é para si mesmo onticamente proximíssimo, uma vez que ele mesmo é o ente que se chama Dasein, consistindo essa proximidade ôntica em ser ele mesmo o ente ao qual se trata de aceder, estando o Dasein, enquanto ente, sempre acedido, pois ele mesmo o é, significando proximíssimo tão perto quanto possível, ou seja, impossível estar mais perto, o que por sua vez significa não haver nenhuma distância ôntica entre o Dasein e si mesmo.
3. Contrariamente à expectativa de que essa proximidade eliminaria os problemas, ocorre exatamente o inverso: aquilo que nos é tão próximo a ponto de sermos nós mesmos, torna-se para nós ontologicamente distantíssimo, não havendo nada mais difícil de apreender tematicamente, sobretudo em seu próprio ser, do que aquilo que nos é mais imediato.
4. O Dasein que somos nos é ontologicamente distantíssimo, o que significa que seu modo de ser, seu próprio ser, escapa-nos pertinazmente, não se deixando apreender pelo olhar teorético, sucedendo com o ser do próprio Dasein o que sucede em geral com o ser enquanto tal: tudo se vê em sua luz, o ser faz ver os entes em sua precisa condição de tais, mas, justamente por isso, ele mesmo escapa.
5. O ser parece ocultar-se no aparecer dos entes, cobrando esse ocultar-se sentido somente a partir do manifestar-se dos entes, pois, sem dúvida, o ser não se manifesta como se manifestam os entes, e nesse preciso sentido o ser se oculta, sendo esse estar oculto do ser a condição de possibilidade para o comparecer dos entes, já que, se o ser fulgurasse com todo o esplendor que lhe é próprio, deixaria os entes na penumbra, diluindo-se estes na luz do ser.
6. O que ocorre com o ser ocorre também com o próprio Dasein: de tão próximo, invasoramente próximo, que é, não é possível vê-lo, não o vendo, entenda-se, como um objeto presente, escapando seu ser de entre as mãos.
7. A frase de Heidegger não apenas afirma que o Dasein é para si mesmo onticamente proximíssimo e ontologicamente distantíssimo, mas afirma também, em terceiro lugar, que pré-ontologicamente o Dasein não é estranho para si mesmo, significando não ser-lhe alheio, sendo-lhe, pré-ontologicamente, familiar, o que significa que, numa compreensão não teorética, mas radicalmente vital, o Dasein já está compreendido por si mesmo em seu próprio ser.
8. Seguindo uma propensão que lhe é natural, o Dasein interpreta-se de modo inadequado, interpretando-se a partir dos entes que não são ele, a partir dos entes intramundanos, fazendo sua uma interpretação alheia, a do impessoal, que é a de todos e a de ninguém, interpretação essa que não brota do próprio Dasein, isto é, não brota de uma compreensão em que o Dasein se projetasse em seu próprio ser, mas que o Dasein recebe já feita, ao modo de um estado interpretativo vigente, ao modo de um topos impessoal.