Críticas de Zubiri a Heidegger

(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:154-156)

1. A crítica de Zubiri a Heidegger, localizada nas páginas 438-453 de Sobre la esencia, expõe inicialmente o pensamento heideggeriano, resumido em três teses fundamentais.

2. O dar-se do ser na compreensão não é o mostrar-se de algo que em si mesmo seria alheio a esse mostrar-se, como ocorre com os entes, mas um estrito dar-se, um estar sendo aquilo que o ser é, de modo que dar-se o ser é ser-Da, é Dasein, o transcurso do ser em sua pureza ontológica, distinto do ente.

3. O ser mesmo, nessa sua pureza, dá-se e é somente no Dasein, na compreensão do ser, de modo que o ser apenas é sendo Da, dando-se na compreensão.

4. A compreensão do ser, na qual o ser se dá e está sendo, pertence ao ser mesmo do Dasein, de sorte que o Dasein é o ser do ser, uma primária unidade ôntico-ontológica, o ente que consiste apenas em ser, uma espécie de substantivação do ser.

5. Essa concepção heideggeriana não constitui nem subjetivismo nem idealismo de espécie alguma, pois algo não ser senão na compreensão não significa sê-lo pela compreensão nem ser apenas um momento dela; nessa concepção o ser não é produto do homem, não é algo que o homem faz, mas se dá, não se produz, tendo verdade própria, sendo a análise da temporalidade justamente a exposição desse caráter do ser.

6. Passa-se em seguida à discussão de cada uma dessas teses heideggerianas.

7. Quanto à primeira tese, reconhece-se como verdadeiro que o ser não apenas se mostra, mas se dá, sendo necessário completar essa ideia afirmando que esse dar-se faz com que a inteligência seja o mesmo que o inteligido, no caso o mesmo que o ser, e que, reciprocamente, na apreensão de algo, esse algo não apenas se mostra, mas está sendo, o que, no entanto, não é exclusivo do ser, ocorrendo com toda coisa e toda nota reais, de modo que a peculiaridade do ser não está nesse dar-se, mas há de buscar-se na índole do dado, a menos que essa índole consista precisamente em que, enquanto no ente sua realidade é distinta de sua atualidade no dar-se, tratando-se do ser, sua índole seja apenas seu puro dar-se.

8. Quanto à segunda tese, considera-se insustentável a afirmação de que o ser, diferentemente do ente, não apenas está sendo em seu dar-se, mas só é nesse seu dar-se, sendo falso que só há ser no Dasein, pois o dar-se de algo só envolve o momento de ser se esse algo já está dado como realidade, o que se esclarece pela comparação entre o puro estímulo e o dado como real.

9. Interpreta-se em seguida a imagem da luz, tantas vezes empregada pelo próprio Heidegger para pensar o ser, distinguindo-se nela três elementos: a luminária, ou lúmen; o esplendor ou brilho dessa luminária, que é algo que a luminária tem por si mesma, momento de sua realidade própria e nada mais; e por fim a claridade, lux, que não é senão o próprio brilho em função iluminadora, em função do entorno luminoso, sendo essa claridade, para Heidegger, o que corresponderia ao ser, ao passo que, na concepção proposta, isso ocorre precisamente porque a coisa possui uma prévia atualidade lumínica segundo a qual é brilhante por si mesma, sendo a produção de claridade apenas o desempenhar função de entorno, entendido este como respectividade, isto é, mundo em sentido transcendental.

10. Segue-se que o ser não é algo que só é no Da da compreensão, no Da do dar-se, mas um momento da realidade ainda que não houvesse compreensão nem Da, não sendo o ser algo ôntico, nem coisa nem nota de coisa, podendo contudo, sem ser coisa nem nota de coisa, constituir um momento transcendental da própria coisa; a luz é um momento das luminárias e possui, contudo, de algum modo, uma unidade distinta do brilho destas, sem por isso ser uma espécie de luminária maior, tampouco o ser, como atualidade do real na respectividade, é uma nota real a mais, havendo no real uma respectividade especial, a respectividade a essa coisa inteligente que é o noûs, de modo que a atualidade nessa respectividade é também ser.

11. Quanto à terceira tese, o homem move-se sempre no ser, mas o elemento em que primária e constitutivamente se move não é o ser, e sim a realidade, movendo-se o homem no ser porque o ser é um momento, um ato, do já real, não porque o ser seja aquilo que primária e formalmente caracteriza a intelecção humana, fundando-se a atualidade do ser no Da da compreensão na prévia atualidade do ser na realidade.

12. Reaparece aqui o conceito fundamental de realidade, tendo essa crítica sentido e força apenas sob o suposto de que o primeiro dado à inteligência é a realidade, residindo justamente nesse ponto a maior obscuridade do método intelectual empregado, permanecendo em aberto se as coisas são radicalmente inteligidas como algo por si mesmas ou se essa é apenas uma das formas em que também são inteligidas, sem que se justifique no próprio livro se as valiosas indicações sobre o modo de apreensão da inteligência, distinto do dos sentidos, não se movem já num plano que é produto de um método não radical.