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O tempo calendário é a primeira ponte lançada pela prática historiadora entre o tempo vivido e o tempo cósmico, constituindo a invenção de um terceiro-tempo que é a sombra projetada, no plano da prática historiadora, de uma entidade mais vasta, o tempo mítico, presente já em filigrana no Timeu de
Platão, na Física de
Aristóteles e no fragmento de
Anaximandro.
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O tempo mítico regula o tempo das sociedades sobre o tempo cósmico ao ordenar entre si ciclos de duração diferente, sendo pela mediação do rito que se revela raiz comum do tempo do mundo e do tempo dos homens, ao passo que o mito alarga o tempo ordinário e o rito aproxima o tempo mítico da esfera profana da ação.
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Seguindo Émile Benveniste, o “tempo crônico” comporta três traços comuns a todos os calendários: um acontecimento fundador que determina o momento axial a partir do qual todos os eventos são datados; a possibilidade de percorrer o tempo nas duas direções a partir desse eixo; e um repertório de unidades de medida — dia, ano, mês — que denominam os intervalos constantes entre recorrências cósmicas.
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O tempo calendário toma emprestado ao tempo físico suas propriedades de continuum uniforme, infinito, linear, segmentável à vontade, mas o princípio de sua divisão — o momento axial — escapa à física e à astronomia, remetendo à noção fenomenológica de presente, sem a qual não poderíamos dar sentido a um acontecimento novo que rompe com uma era anterior, nem à ideia de percurso bidirecional, que supõe a experiência viva da retenção e da protenção.
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O momento axial confere ao tempo calendário um caráter “exterior” tanto ao tempo físico quanto ao tempo vivido: todo instante é candidato igual ao papel de momento axial, e nenhuma data, tomada em si mesma, é passada, presente ou futura, a menos que se conheça a data da enunciação que a profere, de modo que o tempo calendário cosmologiza o tempo vivido e humaniza o tempo cósmico.
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A noção de traço constitui o derradeiro conector entre as perspectivas sobre o tempo dissociadas pela especulação, tornando-se pensável ao se seguir o percurso que, partindo da noção de arquivo, encontra a de documento e, deste, remonta à sua pressuposição epistemológica última, o traço.
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As definições enciclopédicas de arquivo isolam três características — o remisão à noção de documento, a relação a uma instituição e a finalidade de conservação —, sobre as quais uma sociologia pode legitimamente denunciar o caráter ideológico da discriminação que preside à conservação dos documentos.
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A crítica de primeiro grau da noção de documento observa que qualquer traço deixado pelo passado se torna documento desde que o historiador saiba interrogá-lo, alargando o campo do testemunho involuntário; uma crítica de segundo grau, contemporânea da história quantitativa, mostra, com Jacques Le Goff, que o próprio documento, uma vez desmistificado, revela-se também monumento.
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Renunciar às noções de traço e testemunho do passado em favor de uma nova ciência histórica fundada em bancos de dados equivaleria, contudo, a um suicídio da história, pois a ideia de uma dívida para com os mortos é o que dá à busca documental sua finalidade primeira, sem a qual o dado se torna propriamente insignificante.
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A fonte de autoridade do documento é, assim, a significância ligada ao traço, definido pelo senso comum como vestígio de uma passagem ou marca deixada por uma coisa, combinando uma relação de significância — o vestígio de uma passagem — e uma relação de causalidade inscrita na coisidade da marca, o que faz do traço um efeito-signo e um conector entre duas perspectivas sobre o tempo.
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É na medida em que o traço marca no espaço a passagem do objeto da busca que ele remete ao tempo do calendário e, além dele, ao tempo astral, tornando-se documento datado, o que permite retomar o problema, deixado em aberto por Heidegger, da relação entre a temporalidade do Cuidado e o tempo “vulgar”.
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Heidegger distingue o ente que já não existe (vergangen) do Dasein “que-foi-aí” (da-gewesen), transferindo o caráter historial dos restos do passado — utensílios, documentos — ao estatuto de historial-mundano (weltgeschichtlich), mas essa análise só progride se se admitir que a intra-temporalidade acrescenta um sobrecréscimo de sentido, e não uma diminuição, à historialidade.
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A significância do traço não pode, contudo, ser inteiramente dada conta sem recorrer também ao “tempo vulgar”, pois seguir um traço é contar com o tempo por meio da databilidade, decifrar sobre o espaço o estiramento do tempo por meio da medida do lapso temporal, e projetar a busca no tempo público que torna comensuráveis as durações privadas — três operações que Heidegger reduzia a um mero nivelamento decadente da intra-temporalidade.
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O traço ilustra assim, ao contrário do calendário, que exemplifica uma colisão negociada entre as duas perspectivas do tempo, uma forma de contaminação regrada entre elas, recobrimento entre o existencial e o empírico que a expressão “significância do traço”, tomada de empréstimo a Emmanuel Lévinas, capta com precisão, mesmo que a meditação levinasiana vise, para além de todo passado historiador, o passado imemorial do Outro, cujo traço, o rosto de outrem, significa sem jamais fazer aparecer.
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O traço permanece, assim, um dos instrumentos mais enigmáticos pelos quais o récit histórico refigura o tempo, construindo a junção que opera o recobrimento do existencial e do empírico — problema que já não é do historiador-sábio, mas do historiador-filósofo.