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Esta nova etapa da investigação sobre a refiguração do tempo por referência cruzada faz convergir a função de representância que o conhecimento histórico exerce a respeito do passado “real” com a função de significância própria do relato de ficção, sobre o pano de fundo já estabelecido pela primeira determinação.
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A questão embaraçosa de saber o que significa dizer que algo “realmente” aconteceu constitui a segunda diferença fundamental entre história e ficção: ao contrário do romance, as construções do historiador visam ser reconstruções do passado, submetido à prova documental, o que o torna devedor insolvável de uma dívida de reconhecimento para com os mortos.
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Retomando a noção de traço, propõe-se, com Karl Heussi, pensar o passado como o “vis-à-vis” ao qual o conhecimento histórico procura corresponder de maneira apropriada, distinguindo representar, no sentido de fazer as vezes de algo (Vertretung), de representar-se, no sentido de formar uma imagem mental de algo ausente (Vorstellung), sendo essa função de representância própria do modo referencial indireto da história.
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Para articular essa dívida sentida em conceito, propõe-se transpor à questão a dialética platônica dos grandes gêneros do Sofista, retendo os três gêneros do Mesmo, do Outro e do Análogo, cada qual representado por tentativas respeitáveis de filosofia da história, cuja insuficiência unilateral impulsiona a passagem de um a outro.
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Em sentido inverso, vários historiadores veem na história uma confissão da alteridade, uma restituição da distância temporal, levada por vezes até um exotismo temporal, ainda que poucos tenham teorizado essa primazia do Outro.
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O modelo do outrem, herdado de
Dilthey, funda as ciências do espírito na capacidade de se transportar para uma vida psíquica estranha por meio de signos expressivos, mas, ao abolir a diferença entre o outrem de hoje e o de outrora, acaba por obliterar a própria problemática da distância temporal.
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A noção de diferença admite dois usos distintos: em Paul Veyne, no Inventaire des différences, a diferença é correlata da individualização de invariantes, mas essa individualização lógica não se confunde com a individuação pelo tempo, que é o que faz o inventário de diferenças investir-se em relatos e não em classificação intemporal.
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Michel de Certeau leva mais longe a ontologia negativa do passado ao interrogar o lugar social não dito da operação historiadora, propondo uma noção de diferença-desvio (écart), tomada da linguística estrutural, segundo a qual o passado seria o faltante, uma “ausência pertinente”; mas o desvio permanece tão relativo a um modelo e tão destemporalizado quanto a variante, não fazendo justiça ao que há de positivo na persistência do passado no presente.
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As duas tentativas anteriores não são vãs, podendo ser conjugadas sob um terceiro grande gênero que associa Mesmo e Outro — o Semelhante, ou melhor, o Análogo, semelhança entre relações mais que entre termos simples —, sugerido pelas expressões recorrentes do tipo “tal como” que povoam o discurso historiográfico, entre elas a célebre fórmula rankeana wie es eigentlich war.
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Hayden White, em Metahistory e Tropics of Discourse, completa sua teoria da mise en intriga (emplotment) com uma teoria dos tropos — metáfora, metonímia, sinédoque, ironia —, sendo a prefiguração tropológica do campo histórico o que permite à história desenhar itinerários possíveis e dar contorno a objetos de conhecimento antes de qualquer explicação propriamente dita, constituindo assim a estrutura profunda da imaginação histórica.
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A retórica governa a descrição do campo histórico como a lógica governa a explicação por mise en intriga, não havendo entre o relato e o curso dos eventos uma relação de reprodução ou equivalência, mas uma relação metafórica que assemelha os eventos relatados a uma forma narrativa familiar à nossa cultura.
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Essa contribuição decisiva de White ao terceiro momento dialético — o Análogo — corre, contudo, o risco de apagar a fronteira entre ficção e história se isolada dos outros dois grandes gêneros e da coação exercida pelo Gegenüber do evento passado, sendo necessário restabelecer o primado da visada referencial que atravessa a “tropicidade do discurso” em direção aos eventos passados, combatendo simetricamente o preconceito de uma linguagem historiadora inteiramente transparente e o preconceito de que a literatura de ficção careceria de toda apreensão sobre a realidade.
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A chave do problema reside no funcionamento não apenas retórico, mas ontológico, do “como” contido na fórmula rankeana, correspondendo ao ser-como correlativo do ver-como que resume o trabalho da metáfora, conforme a análise da Métaphore vive, sendo essa correspondência o que permite atribuir à metáfora — e, por extensão, à tropologia histórica — uma função ontológica sem contradizer sua potência de redescrição.
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O Análogo não opera isoladamente, mas em ligação com a identidade e a alteridade: o passado é aquilo que deve ser reefetuado no modo identitário, mas apenas na medida em que é também o ausente de todas as nossas construções, retendo o Análogo, no ser-como, tanto a força da reefetuação quanto o distanciamento, já que ser como é ser e não ser.
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Essa análise da representância retoma, pelo viés do “como” analógico, a problemática do traço deixada em suspenso no capítulo anterior, na medida em que o traço, ao “significar sem fazer aparecer”, segundo Lévinas, encontra no ver-como uma saída parcial, explicitando a estrutura dialética da travessia que converte o espaçamento temporal em mediação — restando, porém, essa exploração necessariamente inacabada e abstrata, já que o passado separado da dialética entre futuro, passado e presente permanece, como ensina a fenomenologia heideggeriana, uma abstração.