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A história de que trata a filosofia hegeliana não é mais história de historiador, mas história de filósofo — “história do mundo”, e não “história universal” —, pois a ideia capaz de conferir unidade à história, a ideia de liberdade, só é compreendida por quem percorreu inteiramente a filosofia do Espírito na Enciclopédia, de modo que só o filósofo pode escrevê-la.
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A convicção de que a Razão governa o mundo não é, para o filósofo especulativo, uma hipótese, mas a autoapresentação do sistema inteiro, sendo essa a única ideia que a filosofia traz à história, retomando a recusa obstinada, já presente na Fenomenologia do Espírito, da cisão entre formalismo da ideia e empirismo do fato.
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O percurso da Razão na história articula-se em quatro momentos — fim, meios, material, efetividade —, sendo o primeiro a posição da liberdade como fim último do mundo, momento que permanece abstrato enquanto não articulado com os meios, o material e a efetividade que lhe dão corpo histórico.
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A tese da astúcia da razão intervém no estágio dos meios: toda paixão contém uma intenção sabida e uma intenção ignorada pelo próprio indivíduo, e é essa segunda intenção, inscrita na esfera do Estado, que a Razão do mundo se apropria como meio, sacrificando a particularidade em proveito do universal, papel reservado sobretudo aos “grandes homens históricos” em quem paixão e ideia coincidem.
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O “material” da Razão livre é o Estado, em torno do qual gravitam religião, ciências e artes, seguindo-se ainda o estágio da “efetividade”, marcado pelo estabelecimento do Estado de direito, e finalmente o “curso” da história do mundo, organizado segundo uma “partição” cuja execução mesma constitui a prova do sistema.
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O tempo histórico se sublima na ideia de um “retorno a si” do Espírito, equação entre efetividade e presença que abole a narratividade na consideração pensante da história: o desenvolvimento não é eclosão sem luta, mas duro trabalho contra si mesmo, sendo o tempo a determinação mesma do negativo, e as “etapas” (Stufengang) o equivalente temporal da astúcia da razão, análogo à permanência das espécies naturais, mas cuja estrutura difere porque os povos passam e suas criações persistem.
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A diferença entre passado morto e passado vivo torna-se assim inessencial, pois o Espírito porta em si todos os graus de sua evolução passada como profundidade atual, e é nessa medida, e apenas nessa medida, que a história filosófica reveste os traços de uma retrodição, arriscando-se
Hegel a decifrar no passado suficientemente sedimentado o fim último do mundo.
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Essa equação final entre desenvolvimento e presente eterno acaba, contudo, por recusar o caráter insuperável da significância do traço — que significa sem fazer aparecer — e por dissolver, mais que resolver, o problema da relação entre passado histórico e presente, tornando supérfluo o recurso ao grande gênero do Análogo, já que a própria relação de representância perde sua razão de ser.