Para guiar a última etapa da investigação ontológica, retoma-se a afirmação da primazia dessa dialética, sublinhando primeiro sua pertença ao mesmo discurso de segundo grau que a dialética do Mesmo e do Outro aberta por
Platão nos Diálogos ditos metafísicos, e anunciando depois o caráter polissêmico da alteridade, segundo o qual o Outro não se reduz à alteridade de um Outrem
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O caráter especulativo dessa dialética se anunciou primeiro e se projetou retrospectivamente sobre os dois momentos anteriores da investigação ontológica
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A polissemia do Outro resulta do fato de ter sido primeiro o polo do Mesmo a perder sua univocidade, ao se fraturar entre o ipse e o idem, retomando-se o critério temporal dessa divisão segundo a dupla valência da permanência no tempo
O trabalho da alteridade no coração da ipseidade se esclarece pelo jogo entre discurso fenomenológico e discurso ontológico, fixando-se como répondant fenomenológico da meta-categoria de alteridade a variedade das experiências de passividade, reservando-se o termo alteridade ao discurso especulativo
A virtude principal dessa dialética é impedir que o si ocupe o lugar do fundamento, convindo perfeitamente à estrutura última de um si nem exaltado como nas filosofias do Cogito nem humilhado como nas filosofias do anti-Cogito, situação chamada de Cogito quebrado, cuja atestação é ela mesma quebrada
Sugere-se como hipótese de trabalho um tripé da passividade e da alteridade: a passividade do corpo próprio, ou da carne, mediadora entre o si e o mundo; a passividade implicada pela relação do si com o estrangeiro, isto é, a alteridade da intersubjetividade; e a passividade mais dissimulada, a da consciência (Gewissen), colocada como terceiro termo em relação às duas anteriores
Não se trata de acrescentar níveis aos já percorridos — linguístico, práxico, narrativo, ético — mas de identificar o grau de passividade vivida próprio a cada nível e a alteridade correspondente no plano especulativo
a. O corpo próprio ou a carne
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É com esta primeira figura de passividade-alteridade que o reenvio da fenomenologia à ontologia se dá mais facilmente, tendo o caráter enigmático do corpo próprio se manifestado em três ocasiões nos estudos anteriores
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Na análise de Strawson sobre a pessoa como particular de base, perguntava-se como predicados psíquicos e físicos díspares podem ser atribuídos a uma só entidade, sendo então a assertiva de que as pessoas são também corpos tomada como constrangimento da linguagem
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A dupla pertença do corpo próprio ao reino das coisas e ao do si impôs-se de novo na discussão com Donald Davidson, questionando-se como a ação pode constituir um evento do mundo e ao mesmo tempo designar autorreferencialmente seu autor
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A questão da identidade pessoal, levada ao extremo de refinamento por Derek Parfit, recolocou a problemática do corpo próprio ao ligar os critérios corporais e psíquicos da identidade à manutenção de um si ancorado no corpo próprio
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A fenomenologia da passividade ultrapassa o estágio implícito apenas quando se sublinha, no fenômeno global de ancoragem, o traço do sofrimento, revelando o pathos em sua dimensão integralmente passiva
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No tratamento da identidade narrativa observou-se a virtude do relato de conjugar agentes e pacientes, mas seria preciso levar em conta formas mais dissimuladas do sofrer: a incapacidade de narrar, a recusa de narrar, a insistência do inenarrável
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No exame da Regra de Ouro em ética constatou-se a dissimetria fundamental da interação, quando um agente exerce poder-sobre outro, mas seria preciso ir mais longe, até as formas de menosprezo de si e de detestação do outro
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Com a diminuição do poder de agir, sentida como diminuição do esforço para existir, começa o reino próprio do sofrimento, infligido na maior parte pelo homem ao homem, de modo que a passividade do corpo próprio se recobre com a passividade de ser vítima de outrem
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Para articular especulativamente a modalidade de alteridade correspondente a essa passividade, seria preciso ampliar a meta-categoria do corpo próprio, percorrendo o trabalho conceitual desde os Tratados clássicos das paixões, passando por Maine de Biran, até as meditações de Gabriel Marcel,
Merleau-Ponty e Michel
Henry sobre a encarnação, a carne, a afetividade e a auto-afecção
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A Maine de Biran cabe o mérito de ter aberto o canteiro do corpo próprio, dando dimensão ontológica à sua descoberta fenomenológica ao dissociar existência de substância e ligá-la ao ato, dizendo — je suis, c'est dire je veux, je meus, je fais
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No primeiro grau, o corpo designa a resistência que cede ao esforço, exemplo paradigmático em que o esforço ocupa o lugar da impressão e da sensação de
Hume e Condillac, ilustrado pela graça do corpo dançante
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Um segundo grau de passividade é representado pelas idas e vindas dos humores caprichosos, cujos movimentos Maine de Biran vigia com ansiedade em seu Journal
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Um terceiro grau de passividade é marcado pela resistência das coisas exteriores, atestando-se pelo tato ativo que existir é resistir, revelando-se o corpo próprio como mediador entre a intimidade do eu e a exterioridade do mundo
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O segundo e mais importante marco na via que conduz da filosofia do esforço de Maine de Biran às três grandes filosofias do corpo próprio encontra-se incontestavelmente na fenomenologia de
Husserl, cuja contribução a uma ontologia da carne é paradoxalmente mais importante que a de Heidegger
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A distinção entre Leib e Körper, ocupando posição estratégica nas Méditations cartésiennes, visa tornar possível o emparelhamento (Paarung) de uma carne com outra, permanecendo por isso presa à problemática da constituição da realidade na e pela consciência
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Apesar de Sein und Zeit romper com a problemática da constituição baseada na intencionalidade da consciência, não deixou se desenvolver uma ontologia da carne, sendo em
Husserl que se encontra o esboço mais promissor dessa ontologia
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A polaridade carne/corpo deve sua radicalidade à posição estratégica na argumentação das Méditations cartésiennes, situada numa egologia decidida e não numa filosofia do si, impondo-se o tema não em ligação com um je peux mas no plano da percepção
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Fica em aberto se a noção do estrangeiro, chamado por
Husserl o estrangeiro em si primeiro — o outro eu —, já não assombra desde o início a busca de um próprio que a redução da quarta Meditação pretende ter isolado
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Eu como carne, antes da constituição do alter ego, é o que a estratégia da constituição intersubjetiva da natureza comum exige pensar, sendo a formação do conceito ontológico de carne a divina surpresa dessa empreitada impossível
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A carne é o mais originariamente meu e o mais próximo de todas as coisas, sendo sua aptidão para sentir revelada privilegiadamente no tato, como em Maine de Biran, constituindo o eu enquanto este homem a alteridade prima da carne diante de toda iniciativa
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A carne precede ontologicamente toda distinção entre o voluntário e o involuntário, sendo o lugar de todas as sínteses passivas sobre as quais se edificam as sínteses ativas, constituindo a origem de toda alteração do próprio
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Pergunta-se se a grande descoberta de
Husserl pode ser dissociada de seu papel estratégico na fenomenologia transcendental das Méditations cartésiennes, respondendo-se que sim, havendo nos Inéditos investigações sobre a diferença entre carne e corpo relativamente independentes dessa problemática
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O que se diz sobre a distinção entre o aqui e o lá, irredutíveis a toda localização objetiva, ecoa inesperadamente as reflexões de
Wittgenstein sobre a não-pertença do sujeito ao sistema de seus objetos
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As notações sobre o contato como forma primordial do sentir, e sobre o mundo enquanto praticável, reanimam a problemática biraniana da existência-resistência, sendo sobre essa relação pré-linguística entre a carne localizada e o mundo acessível ao je peux que se deve edificar, como estabelece Jean-Luc Petit, uma semântica da ação
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Só quando a ontologia da carne se liberta o quanto possível da problemática da constituição pode-se enfrentar o paradoxo inverso ao da teoria straswsoniana dos particulares de base, a saber, que a carne seja também um corpo entre os corpos
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Assim como é preciso inventar o calendário para correlacionar o agora vivido com um instante qualquer, e o mapa para correlacionar o aqui carnal com um lugar qualquer, é preciso mundanizar a carne para que apareça como corpo entre os corpos, sendo aí que a alteridade de outrem como estrangeiro parece dever ser tida como preliminar à redução ao próprio
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É porque
Husserl pensou apenas o outro que eu como um outro eu, e jamais o si como um outro, que não tem resposta ao paradoxo de como minha carne é também um corpo
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Poder-se-ia voltar-se para Être et Temps para elaborar uma ontologia da carne, já que Heidegger, ao substituir a constituição de um mundo na consciência pela estrutura do ser-no-mundo e ao chamar Dasein o ente que não pertence ao conjunto dos entes manejáveis, teria liberado em princípio a problemática do corpo próprio da redução ao próprio
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Heidegger deu lugar à afecção (Befindlichkeit), para além de toda psicologia dos afetos, na constituição existencial do aí, percebendo no cerne de toda afecção o fato maciço da impossibilidade de sair de uma condição em que ninguém jamais entrou, remetendo à natalidade de que fala Hannah
Arendt
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Conclui-se que, se há categoria existencial apropriada a uma investigação do si como carne, é a do ser-jogado, jogado-aí, expressão que não sugere nenhuma queda gnóstica mas a facticidade a partir da qual o Dasein se torna encargo para si mesmo, dando à expressão soi-même comme un autre toda a sua força
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Apesar desse aparato nocional apropriado, Heidegger não elaborou a noção de carne como existencial distinto, por várias razões
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A ênfase no medo e na angústia do ser-para-a-morte pode ter negligenciado as instruções que uma fenomenologia do sofrer, só realizada por Michel
Henry, seria mais própria a dispensar
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A fenomenologia da espacialidade, bem esboçada em
Husserl, não recebeu de Heidegger a atenção merecida, apesar do parágrafo 24 de Être et Temps consagrado à espacialidade do Dasein
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O tema da encarnação parece sufocado em Être et Temps por depender demasiado das formas inautênticas da preocupação, e o desenvolvimento da problemática da temporalidade pode ter impedido que se desse chance à fenomenologia da espacialidade autêntica
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Pergunta-se, por fim, se Heidegger percebeu os recursos de uma filosofia do ser que colocasse o transcendental do ato no lugar do da substância, como exige uma fenomenologia do agir e do padecer
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É toda a frente da ontologia da ipseidade que deve se mover segundo as três dimensões da alteridade
b. A alteridade de outrem