A singularidade funcional dos indicadores confirma-se num traço decisivo: enquanto a abordagem referencial privilegia a terceira pessoa, a teoria dos indicadores associada à dos atos de discurso privilegia a primeira e a segunda pessoa e exclui a terceira, retomando o anátema de Benveniste contra a terceira pessoa
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Segundo Benveniste, só a primeira e a segunda pessoa gramaticais merecem esse nome, sendo a terceira a não-pessoa, pois basta o eu e o tu para determinar uma situação de interlocução, enquanto a terceira pessoa é inconsistente gramaticalmente, como mostram os usos incoordenados de “ele” (chove, é preciso, há) e a multiplicidade de expressões como “on”, “chacun”, “ça”
Cabe perguntar se esse pacto entre a enunciação e os indicadores eu-tu, seguidos dos dêiticos isto/aqui/agora, torna impossível toda discordância entre a teoria da enunciação e a de seu sujeito
Duas ou três notações deveriam ter alertado antes: o termo central da teoria dos atos de discurso é o ato, não o agente, e a força ilocutória é definida por G. G. Granger sem menção expressa ao autor do discurso, o que permite despsicologizar as condições transcendentais da comunicação, restando saber até onde vai essa despsicologização se um ego ainda precisa ser considerado
Uma segunda notação intriga: a reflexividade foi sempre atribuída ao fato da enunciação, não ao sujeito da enunciação, segundo a fórmula de Récanati de que no sentido de um enunciado se reflete o fato de sua enunciação, o que trata a enunciação como um evento que ocorre no mundo
Récanati afirma sem equívoco que um enunciado é, por sua enunciação, algo, e que a enunciação se põe como um ente, sugerindo o paradoxo de uma reflexividade sem ipseidade, um “se” sem “si mesmo”, mais próxima de uma referência invertida ou retro-referência do que de uma verdadeira autorreferência
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Se a reflexividade equivale à autorreferência, o eu enquanto eu parece desaparecer ao se atribuírem ao enunciado duas referências de direção oposta — para a coisa significada e para a coisa significante —, deslizamento já contido na definição antiga do signo como coisa que representa outra coisa
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Perde-se de vista que não são os enunciados nem as enunciações que referem, mas os sujeitos falantes, e que a situação de interlocução só tem valor de evento porque os autores da enunciação, em carne e osso, são postos em cena com sua experiência e perspectiva insubstituíveis sobre o mundo
Essa deriva da pragmática para um conceito de autorreferência só pode ser contida enfrentando os paradoxos e aporias que se abrem quando se interroga o estatuto do sujeito da enunciação como tal, e não apenas o ato de enunciação tratado como fato mundano, retomando a questão “quem fala?”
O primeiro paradoxo reside na ambiguidade da expressão “eu”, já notada por
Husserl como necessariamente ambígua
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Como pronome pessoal do sistema da língua, “eu” é termo vago que designa uma pessoa diferente a cada emprego, aplicando-se a quem quer que se designe falando e que, ao assumi-lo, assume a linguagem inteira, segundo Benveniste, sendo por isso chamado shifter (mal traduzido por “embrayeur”)
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Ao mesmo tempo, na tomada de palavra efetiva, opera-se a fixação do termo vago a um único enunciador atual, passando-se do ponto de vista paradigmático, em que “eu” pertence ao quadro dos pronomes, para o sintagmático, em que designa apenas quem fala aqui e agora — fenômeno que G. G. Granger chama de ancoragem, e cujo paradoxo está na contradição aparente entre o caráter substituível do shifter e o caráter insubstituível da ancoragem
Uma explicação desse paradoxo dentro da própria pragmática recorre à distinção de Peirce entre tipo e ocorrência (type e token)
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O tipo é da ordem do “a cada vez”, a ocorrência da ordem do “uma só vez”, e a contradição desaparece se o tipo implica uma escolha obrigatória entre os candidatos ao posto de sujeito falante, de modo que o shifter exerce uma função distributiva, retomando a fórmula husserliana da significação necessariamente ocasional, que liga o “a cada vez” do tipo ao “uma só vez” da ocorrência
Essa distinção entre tipo e ocorrência não elimina todo paradoxo, pois é compatível com uma interpretação da reflexividade como autorreferência a um fato espaço-temporal do mundo, tratando-se então de ocorrências diferentes de um mesmo signo — o ato de enunciação como fato — e visando o eu apenas obliquamente, como expressão marcada dentro de um performativo explícito
As análises técnicas das expressões chamadas token-reflexives confirmam que a distinção tipo/ocorrência privilegia a enunciação, e não o enunciador, elidindo o paradoxo que só surge quando o sujeito da enunciação é tematizado por si mesmo
Esse paradoxo não pode mais ser ocultado ao se confrontar a estranheza da relação entre um locutor singular e a multiplicidade de suas enunciações, cabendo perguntar se o sujeito comum a esses múltiplos eventos é ele próprio um evento, o que remete às hesitações de
Husserl quanto ao ego do cogito cogitatum e a expressões metafóricas como Ichstrahl ou Ichpol
O paradoxo transforma-se então em aporia — a aporia da ancoragem, sobre a qual
Wittgenstein não cessou de voltar do Tractatus às Investigations e ao Cahier bleu —, segundo a qual o ponto de perspectiva privilegiado sobre o mundo que é cada sujeito falante constitui o limite do mundo e não um de seus conteúdos, e no entanto o ego da enunciação aparece no mundo, atestado pela atribuição de um nome próprio ao portador do discurso
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No Cahier bleu,
Wittgenstein observa que por “eu” (em “eu vejo”) não quis dizer L.W., ainda que pudesse dizer a outrem “é agora L.W. que vê realmente”, sem que fosse isso o que quis dizer, evidenciando a não coincidência entre o eu limite do mundo e o nome próprio de uma pessoa real
Essa aporia ficava oculta numa versão da pragmática em que o reenvio reflexivo se fazia menos ao ego da enunciação do que ao fato da enunciação como evento do mundo, assimilação que deixa de ser possível quando o acento recai sobre o ato no fato da enunciação e sobre o eu-tu nesse ato
3. A conjunção das duas vias da filosofia da linguagem
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Resolver essa aporia exige fazer convergir as duas vias da filosofia da linguagem — a da referência identificante e a da reflexividade da enunciação —, sendo que ao termo da primeira a pessoa aparecia como particular de base, o ele de quem se fala, e ao termo da segunda o sujeito aparece como o par de quem fala e a quem se fala, excluída a terceira pessoa como não-pessoa
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A convergência se assegura por empréstimos recíprocos: a terceira pessoa da referência identificante só adquire significação plena de pessoa se a atribuição de predicados psíquicos for acompanhada da capacidade de autodesignação transferida da primeira para a terceira pessoa, à maneira de uma citação entre aspas — “o outro diz em seu coração: eu afirmo que”
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Inversamente, o fenômeno de ancoragem só se torna compreensível se o eu de “eu afirmo que” for extraído do prefixo de um verbo de ação e posto por si mesmo como pessoa, particular de base entre as coisas de que se fala, operando-se assim uma objetivação que assimila o eu, sujeito de enunciação, à pessoa, particular de base irredutível
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A noção de autorreferência, cuja coerência antes se suspeitava, revela-se o produto misto do cruzamento entre reflexividade e referência identificante
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Antes de indagar se essa mescla entre o eu reflexivo e a pessoa referida não é arbitrariamente constituída, importa mostrar que o entrecruzamento das duas vias rege o funcionamento de todos os indicadores e pode ser identificado em operações linguísticas precisas
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O dêitico “agora” oferece bom ponto de partida, já que a caracterização da enunciação como evento ensejou a assimilação do ato de linguagem a um fato, retomando-se aqui a análise do dêitico temporal desenvolvida em Temps et Récit III
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O que se designa por “agora” resulta da conjunção entre o presente vivo da experiência fenomenológica do tempo e o instante qualquer da experiência cosmológica, conjunção que não é mera justaposição, mas repousa em operações precisas de inscrição do tempo fenomenológico sobre o tempo cosmológico, cujo modelo é a invenção do tempo calendário
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Sem data, a definição do presente é puramente reflexiva e tautológica — é sempre hoje —, e só se sai dessa tautologia perguntando que dia é hoje, resposta que faz corresponder o presente vivo a um dos dias contados pelo calendário, constituindo o agora datado o sentido completo do dêitico “agora”
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O mesmo vale para “aqui”, que se opõe ao “lá” como o lugar onde me encontro corporalmente, lugar absoluto que, como o ego da enunciação, é limite do mundo e origem metafórica da orientação espacial, sendo em si mesmo “em nenhum lugar”
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O emprego de “aqui” na conversação implica todavia um saber topográfico mínimo que permite situá-lo num sistema de coordenadas cujo ponto de origem é tão arbitrário quanto o instante do tempo cosmológico, de modo que o lugar funciona como a data, por inscrição do aqui absoluto num sistema de coordenadas objetivas, dando o aqui localizado o sentido completo do dêitico
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Dos dêiticos “agora” e “aqui” retorna-se aos indicadores eu-tu: a conjunção entre o sujeito, limite do mundo, e a pessoa, objeto de referência identificante, repousa num processo da mesma natureza da inscrição ilustrada pela datação e pela localização
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A expressão “eu, L.W.”, que tanto intrigava
Wittgenstein, atesta que a relação entre o pronome “eu” e o nome próprio é uma relação de inscrição em sentido institucional, pela qual o “eu” é literalmente inscrito, em virtude da força ilocutória de um ato de discurso particular, a nomeação, na lista pública dos nomes próprios
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O ato de nascimento contém uma tríplice inscrição — nome próprio, data e lugar de nascimento — registrada no estado civil, do que resulta o enunciado “Eu, fulano, nascido em…, em…”, de modo que “eu” e o nome próprio designam a mesma pessoa em virtude dessa inscrição especial operada pela nomeação
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Resta perguntar se essa assimilação entre a pessoa da referência identificante e o eu-ocorrência reflexivo pode se fundar numa realidade mais fundamental
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Essa fundação só pode ser buscada fora da filosofia da linguagem, interrogando-se sobre o tipo de ser capaz de dupla identificação como pessoa objetiva e sujeito reflexivo, direção sugerida pelo próprio fenômeno de ancoragem: a significação irredutível do corpo próprio
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A possibilidade de atribuir à mesma coisa predicados físicos e psíquicos fundava-se numa estrutura dupla do corpo próprio — realidade física observável e pertença à “esfera do próprio” ou do “meu”, segundo a quinta Meditação cartesiana de
Husserl —, dupla pertença que funda igualmente a estrutura mista do “eu-fulano”: enquanto corpo entre os corpos, fragmento da experiência do mundo; enquanto meu, ponto de referência limite do mundo
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Essa constituição estranha do corpo próprio estende-se ao próprio ato de enunciação, que enquanto voz articulada partilha a sorte dos corpos materiais e, enquanto expressão do sentido visado por um sujeito falante, é veículo do ato de enunciação remetendo ao eu, centro de perspectiva insubstituível sobre o mundo
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Essas reflexões antecipam o momento em que será preciso sair do plano da linguagem, já que o estranho estatuto do corpo próprio remete a uma problemática mais ampla, referente ao estatuto ontológico desse ser que somos, o qual vem ao mundo sob o modo da corporeidade