Em 1950,
Ricoeur traduziu para o francês a obra abstrusa de
Husserl, Ideas, tornando-se rapidamente uma referência ao fornecer um léxico consistente de equivalentes franceses para a terminologia husserliana e ao oferecer um comentário que impulsionou sua autoridade intelectual entre os estudiosos de
Husserl, ambição que logo ultrapassou a exegese filológica ao publicar no mesmo ano Filosofia da Vontade e, posteriormente, obras sobre
Freud, hermenêutica e, a partir de 1983, um vasto empreendimento sobre narrativa, ação e identidade pessoal
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as obras posteriores incluem Sobre a Interpretação, O Conflito das Interpretações, Tempo e Narrativa, Do Texto à Ação e Si-mesmo como um Outro
A variação dos títulos ao longo da trajetória indica deslocamentos de interesse, ainda que três motivos permaneçam constantes em toda a obra: a convicção cartesiana quanto ao papel unificador do Cogito, a descoberta fenomenológica da intencionalidade e a ênfase hermenêutica na mediação semiótica e interpretativa
O percurso intelectual de
Ricoeur configura um diálogo vivo com a filosofia contemporânea das últimas cinco décadas, situando-o como testemunha de uma época marcada por um polemos de discursos e por conflitos de interpretação
Enquanto
Sartre costuma ser considerado o último intelectual de sua época,
Ricoeur, na expressão de Bernard Stevens, assume o papel de árbitro de sua era, não como mero relator de debates alheios, mas como contribuinte original diante da psicanálise, do estruturalismo, do desconstrucionismo e do pós-modernismo, tornando possível desconstruir um texto sem abandonar a ideia de que alguém o escreveu ou proferiu
Jean
Grondin caracteriza parte da obra de
Ricoeur como uma apologética, no sentido de apresentar suas posições por contraste com outras correntes, procedimento que, apesar de parcialmente correto, também abre um diálogo pedagógico entre tendências filosóficas que tendem a se impor por si mesmas, aproximando
Ricoeur da caracterização husserliana dos filósofos como funcionários da humanidade
A introdução ao comentário de
Ricoeur sobre Ideas não pretende apresentar de modo geral seu pensamento, mas examinar como sua noção de narrativa amplia os limites da fenomenologia ao reformular dois pontos técnicos centrais em
Husserl: a síntese passiva e o preenchimento
1. O tratamento husserliano da síntese passiva e do preenchimento
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A síntese passiva é o conceito com que
Husserl explica que a atividade constitutiva da consciência já é atravessada por uma passividade, de modo que a síntese do Ego possui, ela mesma, uma gênese
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O problema da síntese passiva vincula-se à fenomenologia genética, em oposição à estática, introduzindo a história como tema fenomenológico, questão debatida entre a manutenção de uma fenomenologia estrita e sua reformulação hermenêutica, caminho seguido por Heidegger, para quem o Dasein, lançado num mundo articulado pelo “Se”, precisa reconquistar sua autenticidade
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O problema do preenchimento constitui o teste crucial para uma filosofia centrada na intencionalidade, pois é preciso mostrar como o ato intencional se preenche pela doação de um objeto sem recair no realismo ingênuo nem no idealismo ingênuo, questão para a qual Heidegger ofereceu resposta negativa ao situar o Dasein como primordialmente ocupado por coisas à mão
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Embora se apoie livremente em Heidegger,
Ricoeur mantém papel central para o Cogito, exigindo apresentação mais detalhada dos problemas antes de expor sua solução em termos de narrativa
1.1 Síntese passiva
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A noção de passividade nunca recebeu tratamento sistemático em
Husserl, cabendo aos comentadores elucidá-la: Franco
Volpi distingue três direções de investigação — a constituição temporal originária no presente vivo, desenvolvida por Klaus Held; a teoria da associação como nível básico da constituição perceptiva, desenvolvida por Elmar Holenstein; e a análise da cinestesia ligando percepção e movimento corporal, de que
Merleau-Ponty é o expoente
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Diante da complexidade do problema, adota-se um recorte metodológico restrito à síntese e à gênese passivas, entendendo passividade como o fato de o objeto já se apresentar como totalidade antes de ser intencionado e do Eu já constituir um campo unificado de consciência antes de intencionar, considerando-se a questão a partir da intersubjetividade
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A expressão síntese passiva parece ameaçar o núcleo transcendental da fenomenologia, pois cabe perguntar o que realiza a síntese se ela é passiva; nas Meditações Cartesianas,
Husserl afirma que tudo construído ativamente pressupõe uma passividade dada de antemão, de modo que tanto o objeto quanto o ego possuem uma gênese passiva reconstruível
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A gênese de um ego dentro de um mundo de objetos passivamente constituídos poderia levar a fenomenologia a integrar a história em seu escopo, ainda que
Husserl limite essa disseminação da passividade às fronteiras do que pode ser ativamente constituído, tratando a associação como conceito fundamental da fenomenologia transcendental
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A síntese passiva, ao integrar uma dimensão genética e histórica, abre a questão da intersubjetividade, uma vez que o sentido de existência do mundo objetivo inclui uma presença para todos; ainda assim,
Husserl sustenta que essa intersubjetividade se dá dentro da própria esfera de propriedade do ego, de modo que todo sentido de qualquer existente surge e provém de sua vida intencional
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Essa afirmação central revela o contraste com a posição de
Ricoeur:
Husserl acredita que tal passividade pode ser recuperada mediante uma dupla redução — isolando primeiro um substrato de “Natureza” dentro da esfera de propriedade e, em seguida, distinguindo-o de tudo que é psíquico ou intersubjetivo — estratégia que, ao reduzir o objetivo-intersubjetivo de volta à esfera de propriedade, faz desaparecer completamente o sentido “Objetivo”
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Essa segunda estratégia revela a metodologia husserliana de fundo: a passividade do mundo e do Ego é tratada como um conjunto de atividades recuperáveis por um questionamento retrospectivo, tornando a passividade uma qualificação sincrônica cuja diacronia se revela como série de sincronias, análise restrita aqui ao aspecto da intersubjetividade
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A explicação husserliana da intersubjetividade articula-se em quatro passos, três deles assumidos como pressupostos: o impacto do outro sobre mim deve ser constituído; essa constituição só é possível por apresentação, a partir da experiência do corpo alheio; esse processo de redução pressupõe um polo unitário — a esfera de propriedade —; e o critério de autoidentidade nessa esfera é a harmonia da experiência
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O primeiro passo não apresenta grande dificuldade, pois a fenomenologia descreve o que aparece para alguém capaz de constituir, sem exceder as próprias capacidades constitutivas e intencionais
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o segundo passo reduz a constituição intersubjetiva à constituição do outro como corpo animado, de modo que, por emparelhamento com outros egos, aprepresento o que eles veem e, assim, um segundo estrato daquilo que percebo como objetivo, recuperando estaticamente a constituição intersubjetiva
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O conceito de apresentação garante que qualquer papel intersubjetivo possa, em princípio, remontar à presença de dois Egos, reduzindo as potencialidades do outro ao que pode ser apresentado através de seu corpo
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A condição de possibilidade da apresentação é a existência de uma esfera de propriedade, imune aos efeitos dos outros embora os constitua — terceiro passo, ligado à redução transcendental —, de modo que essa esfera se torna o único sítio de constituição, e o ego transcendental resulta dessa redução
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Como a esfera de propriedade é o lugar em que a gênese passiva e a constituição intersubjetiva podem ser recuperadas como próprias, supõe-se que a passividade do ego e do mundo se decomponha em elementos apresentáveis, à maneira de uma memória que presentifica o passado, mas o próprio ponto de partida — a noção de propriedade — permanece implícito, remetendo, num quarto passo, à harmonia da experiência
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Husserl qualifica a redução transcendental como abstração que retém um estrato coerente do mundo fenomênico, correlato de uma experiência de mundo continuamente harmoniosa, harmonia que, contudo, só funciona do ponto de vista estático, deixando em aberto a questão de quem constitui a própria gênese do ego
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Husserl tenta sustentar duas teses aparentemente antagônicas: a gênese só pode ser compreendida retrospectivamente por um questionamento-retorno que, uma vez realizado, não abala o ego nem o mundo, de modo que a metodologia de recuperação da passividade não tem impacto ontológico algum, cabendo à esfera de propriedade garantir essa homogeneidade dentro dos limites da atividade estática de constituição — critério de harmonia que
Ricoeur reformulará em termos de narrativa
1.2. A questão do preenchimento
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A noção de intencionalidade só tem relevância se o ato intencional puder ser preenchido; nas Investigações Lógicas,
Husserl parte dos atos significativos, nos quais um ato conferidor de sentido correlaciona o corpo físico do signo a um significado ideal, e estende essa teoria à percepção, desafio que exige mostrar um sentido perceptivo correlato ao ato perceptivo, tal como
Dreyfus assinala
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Reconstruindo o problema a partir de
Dreyfus, o significado conferido permanece ideal enquanto o sentido preenchedor deveria dar o “objeto em pessoa”;
Husserl tenta contornar a dificuldade dividindo o sentido do ato preenchedor entre uma intenção significativa e uma intenção intuitiva, mas, se o componente intuitivo for ele mesmo abstrato, corre-se o risco de um regresso infinito em que um sentido deveria preencher outro sentido indefinidamente
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A dificuldade decorre da separação husserliana entre sentido e preenchimento, distinguindo um sentido de apreensão vazio de um sentido intuitivo preenchedor, permanecendo obscuro como esse sentido intuitivo seria possível, aporia que
Dreyfus descreve como a falta de relato sobre a interação corporal com o objeto na percepção
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Husserl parece reconhecer o problema nas Investigações Lógicas ao admitir que o sentido preenchedor não implica plenitude nem inclui todo o conteúdo do ato intuitivo; Gurwitsch tenta remediar isso com a noção de significado encarnado, ao mesmo tempo sensível e da ordem do sentido
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A introdução do noema em Ideas representa um avanço, cobrindo ao menos três elementos distintos — correlato pontual do ato, sentido ideal e objeto intencional constituído —; no caso da percepção, permanece ambíguo se o noema corresponde ao sentido interpretativo ou ao sentido intuitivo, ambiguidade que
Husserl não esclarece de todo, embora estenda a noção de significado da esfera linguística para toda a esfera noético-noemática
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Apesar de a extensão do sentido à percepção abrir caminho para compreender o preenchimento, a análise husserliana permanece demasiado estática, faltando uma explicação dinâmico-genética, como observa
Dreyfus ao concluir que só existe o sujeito encarnado às voltas com objetos encarnados
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Em obras posteriores,
Husserl enfatiza cada vez mais o papel dos horizontes, dentro dos quais um objeto aparece situado entre outros objetos que abrem, por sua vez, novos horizontes; Klaus Held observa que a verdadeira experiência de preenchimento exigiria que o ser em si do objeto fosse dado não-tematicamente, o que, dado o caráter horizontal da consciência, torna impossível o encontro pleno “em pessoa” entre consciência e objeto
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Como nenhuma articulação entre intenção e preenchimento é dada em
Husserl, Klaus Held vê em Heidegger quem oferece tal articulação, ao deslocar o eixo da investigação da intenção perceptiva para a ação e o mundo das preocupações cotidianas, no qual um verdadeiro preenchimento se daria no encontro com uma ferramenta em sua confiabilidade discreta
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a experiência de algo dentro de um mundo-de-trabalho torna inseparável a coisa de seu uso potencial, e a autoconsciência da própria identidade equivale a tomar consciência daquele em função de quem opera a rede de remissões, permitindo à existência humana alcançar a autenticidade ao se desvincular da ação instrumental; segundo Held, somente na autenticidade ocorre o preenchimento, experimentado não como objeto, mas como afeto, um contentamento afetivo
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Apesar de seu fascínio intelectual, esse caminho heideggeriano corre o risco de escapar ao credo fenomenológico ao enfatizar excessivamente o dado em detrimento do Ego, deixando o fenômeno se retirar do domínio visível-humano; embora leitor atento de Heidegger,
Ricoeur sempre manifestou certa inquietação com essa extensão heideggeriana, propondo-se a conduzir a fenomenologia ao campo da hermenêutica preservando a fé cartesiana original
2. A narrativa como articulação do fenômeno
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A tarefa configuradora da narrativa, do discurso ou da linguagem, fortemente afirmada por
Ricoeur, representa um dos raros pontos de encontro entre correntes de pensamento do fim do século — Heidegger,
Gadamer, o desconstrucionismo, o pós-modernismo, a crítica literária franco-americana e certa filosofia analítica —, todas atribuindo às narrativas um impacto ontológico
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Ainda que
Ricoeur não tenha endereçado diretamente os problemas husserlianos da síntese passiva e do preenchimento, sua concepção de narrativa pode ser lida como solução a ambos: quanto ao primeiro, aceita que todo ato intencional é de caráter interpretativo, tornando subsidiária a possibilidade de uma filosofia transcendental; quanto ao segundo, desloca o preenchimento para o âmbito da ação, de modo que uma intenção só se realiza ao ser articulada em signos e tornada compreensível pela maneira como se age sobre ela
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ao introduzir um viés pragmático na fenomenologia,
Ricoeur concebe a ação como corporificação dos atos intencionais, de modo que a intenção antecipa seu preenchimento pragmático e a ação, articulada por uma narrativa, torna-se um quase-texto, assim como o próprio texto já é atravessado por potencialidades de ação
2.1. A passividade como conquista narrativa
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Para estabelecer a ligação entre a narrativa e os problemas husserlianos de passividade e preenchimento, toma-se a interpretação ricoeuriana do conceito de mundo-da-vida como outra vertente do problema da passividade: no ensaio sobre a Krisis,
Ricoeur busca resolver a apresentação paradoxal do mundo-da-vida em
Husserl, ao mesmo tempo originário como base de toda atividade e originário no sentido de uma operação recuperável por questionamento-retorno
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o mundo-da-vida não pode ser separado do método que o descobre, método cujo ponto de partida está nas idealizações e objetificações produzidas pela atividade científica e cultural, tornando-o inatingível como presença reatualizável; por outro lado, o mundo perceptivo já é de caráter interpretativo, de modo que jamais se retorna a um dado puro, pois dele já se partiu para sempre sob a pressão da questão de um fundamento último
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Para compreender esse paradoxo,
Ricoeur distingue dois sentidos de originário — ontológico e epistemológico —, sendo o mundo-da-vida, epistemologicamente, apenas um contraste que permite mostrar a falta de fundamento da ciência objetiva, embora a ideia de ciência como fonte de legitimação não derive dele; ontologicamente, porém, o mundo-da-vida é referência última da ciência objetiva, de modo que vivemos num mundo que precede toda questão de validade, ainda que a questão de validade preceda todo esforço de dar sentido às situações vividas
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Contrariamente a certas formulações de
Husserl, o mundo-da-vida — ou a passividade, em sentido ontológico — depende do modo como foi posto e não escapa ao dispositivo narrativo da investigação fenomenológica, sem que isso relegue o mundo-da-vida ao domínio da ficção, revelando antes que
Husserl, ao se apegar dogmaticamente à presença original como sítio último de constituição, afastou-se das próprias exigências da fenomenologia
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O papel mediador das narrativas responde à alternativa proposta por
Gadamer em Verdade e Método entre o distanciamento alienante que permite a objetividade das ciências humanas e o pertencimento que preserva a relação fundamental com nossa concretude histórica
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Ricoeur argumenta longamente, em seu debate com
Gadamer, contra essa alternativa, propondo superá-la através da problemática do texto, que permite pensar a experiência humana como comunicação entre humanos dentro do próprio distanciamento, mediante cinco critérios de textualidade — a realização da linguagem como discurso, do discurso como obra estruturada, a relação entre fala e escrita, a obra discursiva como projeção de um mundo e como mediação da autocompreensão —, que correspondem, em termos husserlianos, aos estágios da síntese passiva
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A linguagem, sistema anônimo de combinação de signos, só se torna discurso quando os signos são reunidos numa frase proferida por alguém, tornando-se obra sob a responsabilidade de um Cogito que, ao contrário de Atena, não nasce plenamente formado, mas se reconstitui a si mesmo através de suas obras discursivas, no que
Ricoeur chama identidade narrativa, processo em que o Cogito se perde na produção e decifração de signos para, ao fim de uma vida de leitura, escrita e interpretação, compreender-se a si mesmo, uma vez que não há autocompreensão que não seja mediada por signos, símbolos e textos
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O Cogito pertence à mesma categoria do autor de uma obra — como artesão, o auctor —, sendo o autor categoria que só surge da interpretação da obra, de modo que há correlação e precedência entre autor e obra, e entre Cogito e pensamento, sendo o Cogito um ser humano individualizado por produzir obras individuais
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Essa visão questiona radicalmente a distinção forte entre explicação e compreensão, pois recorrer à intenção do autor confunde os dois momentos distintos da gênese da obra e de sua interpretação, ou reduz a obra aos processos de sua produção, quando na verdade os autores só se compreendem através de suas obras, que se contextualizam e recontextualizam dentro de uma rede de textos constitutiva de uma cultura; contra
Dilthey e a hermenêutica romântica,
Ricoeur afirma que o distanciamento não é apenas o que a compreensão supera, mas também o que a condiciona
2.2 A narrativa como articulação de intenção e ação
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Husserl introduziu a noção de noema para resolver a dificuldade do preenchimento sem sucesso pleno; na introdução à sua tradução de Ideas,
Ricoeur reconhece a importância central do preenchimento para a fenomenologia transcendental, mas conclui que essa é uma promessa que a obra mais anuncia do que demonstra, já que a realidade sempre parece escapar à constituição transcendental
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A narrativa em que
Ricoeur se apoia pode ser entendida também como reformulação do noema, compreendido em analogia aos atos de fala, pois exibe traços ilocucionários semelhantes aos de um ato de fala completo; a narrativa excede a antiga oratio que apenas veicularia uma ratio preexistente, dando forma ao que, sem ela, permaneceria informe e empobrecido — o que saberíamos do amor, do ódio e dos sentimentos éticos sem a literatura? —, configuração e mediação que se organizam no esquema tríplice da mimese
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O primeiro nível desse esquema, a Mímesis 1, corresponde ao mundo pré-narrativo que já reclama, em sua própria articulação, ser narrado, havendo na experiência algo que exige o auxílio da narrativa
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o primeiro ponto de ancoragem manifesta-se na própria estrutura da ação, organizada em projetos, planos, metas, meios e circunstâncias já compreendidos implicitamente, configurando uma “semiótica da ação”; o segundo ponto está na inscrição da ação em signos, regras e normas que qualificam capacidades e meios, tornando a ação um quase-texto interpretável; o terceiro ponto é o caráter pré-narrativo da experiência humana, de modo que a vida, como cadeia de ações, já é uma história em estado nascente, uma atividade e paixão em busca de narrativa
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O segundo nível, a Mímesis 2, é o nível propriamente narrativo em que a mediação simbólica da linguagem permite contar uma história, trazendo à tona estruturas simbólicas já corporificadas na vida prática, de modo que as histórias tornam-nos conscientes da articulação narrativa do mundo e constituem uma reserva de narrativas aplicável de volta à vida, possibilitando um aumento icônico do mundo; a Mímesis 3 é justamente esse resultado final, o impacto das narrativas sobre a vida prática, quando o leitor é afetado pela narrativa e age em conformidade
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As narrativas fictícias, como a literatura, apresentam a dificuldade de não se referirem a nada real;
Ricoeur resolve isso com a noção de referência de segundo grau: enquanto o discurso oral se apoia numa função ostensiva ligada ao aqui e agora dos falantes, a ficção abole essa referência de primeiro grau para abrir uma referência de segundo grau, remetendo ao ser-no-mundo exposto diante do texto, uma proposta de mundo que se poderia habitar, expressão que remete diretamente a Heidegger e que situa a oferta da literatura no nível do Lebenswelt husserliano e do ser-no-mundo heideggeriano
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A inter-relação desses três níveis mostra que a ficção só se completa na vida e que a vida só se compreende através das histórias que dela se contam, de modo que uma vida examinada, no sentido socrático, é uma vida narrada, abrindo uma dimensão ética em que a narrativa se torna o primeiro laboratório do juízo moral
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Essa ênfase nas narrativas reformula o problema do ato intencional e do preenchimento, pois, sendo a intenção mesma de caráter narrativo e semioticamente mediada, ela não pode ser separada de seu preenchimento potencial, e a narrativa, como mediação semiótica, articula intenção e preenchimento garantindo que todo preenchimento possível já estava antecipado na própria articulação da intenção
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Ricoeur desloca decisivamente o debate fenomenológico para além das intrincações husserlianas: a passividade do ego e do mundo não é o que outrora esteve presente, mas o que se constitui como reconstruído dentro de uma atividade de consciência, de modo que a vida se apresenta como campo de atividade construtiva tomado da compreensão narrativa, pelo qual se busca descobrir, e não simplesmente impor de fora, a identidade narrativa que nos constitui; ao mesmo tempo, uma passividade só faz sentido quando corporificada numa história sob a responsabilidade de um narrador, de modo que, abandonada a concepção ingênua de presença original, esta permanece o sítio da autoidentidade conquistada ao termo de uma jornada narrativa