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Os trabalhos da nova retórica têm a ambição comum de renovar a empresa essencialmente taxinômica da retórica clássica, fundando as espécies da classificação sobre as formas das operações que se jogam em todos os níveis de articulação da linguagem, e são tributários de uma semântica levada ao mais alto grau de radicalidade estrutural.
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A semântica estrutural sobre a qual a nova retórica se apoia não é um simples desenvolvimento da semântica exposta anteriormente, pois procede de uma revolução na revolução que confere aos postulados do saussurismo uma pureza cristalina, definindo o signo como uma relação sui generis, despojada de sua ganga psicológica e sociológica, e fazendo da análise do significado, com Prieto e Greimas, uma decomposição em traços distintivos, os semas.
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A radicalização do modelo semiótico, ao mudar de plano estratégico em direção aos semas, não produz um deslocamento da problemática da metáfora comparável ao operado pelos autores anglo-saxões, mas reforça o privilégio da palavra, consolida a teoria da metáfora-substituição e deixa menos facilmente entrever o ponto de sutura entre a semiótica da palavra e a semântica da frase.
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A nova retórica, no entanto, não se reduz a uma reformulação meramente formal da teoria dos tropos, pois se propõe a restituir à teoria das figuras sua envergadura inteira, construindo a noção de tropo sobre a de figura e não o inverso, e encadreando o tropo em um conceito mais geral, o de desvio.
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O conceito de desvio, que havia aparecido na Retórica de
Aristóteles e na estilística contemporânea, é incorporado pela nova retórica às operações que a semântica estrutural mostra que jogam em todos os níveis de articulação da linguagem, de modo que o tropo aparece como um desvio local no quadro geral dos desvios.
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A primeira questão que uma teoria geral das figuras deve resolver é a da determinação do grau retórico zero em relação ao qual há desvio, e três respostas principais foram propostas: o desvio é a passagem de um discurso real a um discurso virtual, cujo testemunho é a consciência do locutor; o desvio é um afastamento em relação a um grau zero relativo, como a linguagem científica; o desvio é uma construção de metalinguagem, sendo o grau zero um discurso reduzido a seus semas essenciais.
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A primeira resposta, que liga a virtualidade do grau zero à consciência do locutor, identifica a detecção desse sentido virtual à ideia de que toda figura é traduzível, o que a torna solidária de uma concepção substitutiva da metáfora, mas essa ideia de tradução palavra por palavra pode ser corrigida em favor da de uma interpretação literal inconsistente do enunciado inteiro.
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A segunda resposta, que escolhe a linguagem científica como grau zero relativo, permite dar à noção de desvio um valor quantitativo e introduzir o instrumento estatístico, mas a dificuldade teórica não é resolvida, pois o estilo da prosa científica já marca um desvio e a tradução absoluta permanece uma ideia limite.
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A terceira resposta, que constrói o grau zero como uma construção de metalinguagem, supõe uma decomposição do significado em semas essenciais, mas o desvio, como alteração sentida, pertence ao plano de manifestação do discurso e requer um grau zero prático, cuja delimitação enfrenta as mesmas dificuldades das interpretações anteriores.
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A segunda questão diz respeito ao significado do próprio termo “desvio”, uma metáfora espacial que se inscreve em um feixe convergente com outras propriedades da metáfora, como a de “colocar sob os olhos” e a de fazer o discurso “aparecer”, o que convida a uma meditação sobre a figura como tal.
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A interpretação de Roman Jakobson sobre a função poética, que define esta como o acento posto sobre a mensagem por ela mesma, dá um sentido original à espacialidade da figura, interpretando a quase-corporeidade da mensagem como uma aderência do som ao sentido e a espacialidade do desvio como um aprofundamento da dicotomia entre os signos e os objetos.
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A nova retórica, explorando a ruptura de Jakobson, trata a figura como o que faz aparecer o discurso tornando-o opaco, mas essa opacidade é identificada rapidamente com a ausência de referência, o que supõe uma decisão filosófica sobre a significação da realidade que ultrapassa os recursos da linguística.
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A distinção entre denotação e conotação, pela qual se atribui à figura o papel de significar a poesia, é posta em questão, pois o excesso de sentido da metáfora pode ser entendido como uma informação nova que contribui para abrir e descobrir um outro campo de realidade, em vez de se limitar a uma simples conotação genérica.
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A terceira questão, a dos critérios do desvio propriamente retórico, exige que se complete a ideia de desvio pela de redução de desvio, a fim de dar uma forma ao desvio, e Jean Cohen introduziu de maneira decisiva a noção de redução de desvio, identificando a metáfora a toda redução de desvio.
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A análise de Jean Cohen distingue, no nível semântico, um código de pertinência que rege a relação dos significados entre si, e a metáfora é definida não como o desvio em si, mas como a redução do desvio criado pela impertinência predicativa, sendo que o desvio é uma violação do código da fala (plano sintagmático) e a metáfora é uma violação do código da língua (plano paradigmático).
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A teoria de Jean Cohen, embora reconheça a condição predicativa da metáfora, em sua análise formal acaba por situar a metáfora apenas no plano paradigmático, omitindo a nova pertinência propriamente sintagmática, o que a impede de dar conta do momento predicativo da metáfora e a leva a uma teoria emocionalista da poesia.
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A adição do momento predicativo, a nova pertinência, permite dizer a que nível uma teoria do desvio paradigmático toma sentido e validade, correspondendo ao fenômeno de focalização sobre a palavra, de modo que a metáfora é uma inovação semântica tanto de ordem predicativa quanto de ordem lexical.
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A teoria da interação descreve a dinâmica do enunciado metafórico, enquanto a teoria da substituição descreve o impacto dessa dinâmica sobre o código lexical, e as duas abordagens são fundadas no caráter duplo da palavra como lexema e como parte do discurso.
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A questão do funcionamento das figuras, que constitui o quarto problema, exige uma mudança de plano semelhante à que conduziu à decomposição dos fonemas em traços distintivos, e a Retórica Geral do Grupo de Liège procede à decomposição do significado em semas, postulando a homogeneidade de todos os níveis de decomposição, do fonema à frase.
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A Retórica Geral define os metassememas como figuras que substituem um semema por outro, ou seja, figuras de palavra, e a metáfora é tratada como um fenômeno de substituição que modifica a coleção de semas nucleares de uma palavra.
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O aparato conceitual da Retórica Geral, baseado em conceitos da teoria da informação como redundância e autocorreção, permite reprisar as noções de desvio e redução de desvio, mas ao tratar a metáfora apenas no plano paradigmático, a especificidade do processo predicativo fica reduzida a uma condição extrínseca.
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A análise da metáfora na Retórica Geral se concentra na redução do desvio, que consiste em encontrar uma classe-limite ou termo intermediário que sirva de interseção entre os dois objetos, e essa redução é decomposta em duas sinédoques, uma generalizante e uma particularizante.
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A redução da metáfora à sinédoque é problemática, pois a sinédoque não pressupõe o caráter predicativo e impertinente da metáfora, e a teoria, ao operar apenas com coleções de semas já lexicalizados, não consegue dar conta da produção de uma nova significação pela instância de discurso.
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A metáfora de invenção desafia a análise sêmica, pois a nova significação que ela cria não se encontra nem no código lexical, nem no código dos lugares-comuns, e os prédicados indecomponíveis e as metáforas sinestésicas forçam a teoria a recorrer a efeitos subjetivos para explicar a redução do desvio.
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A teoria da metáfora-enunciado mostra-se superior por dois motivos: primeiro, porque rende conta da produção da interseção pela interação de todos os termos presentes no enunciado, e segundo, porque permite estabelecer a parente profunda, no plano dos enunciados, entre a metáfora e as figuras que operam sobre a referência, como a alegoria, a parábola e a fábula.
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Ao admitir que os metassememas podem ser reduzidos à forma predicativa e que a identificação de uma metáfora in absentia exige o conhecimento do referente, a própria Retórica Geral aponta para a necessidade de se considerar a metáfora como um enunciado inteiro, e não apenas como um desvio lexical.
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O desvio paradigmático no nível da palavra, que a Retórica Geral descreve, é apenas o impacto sobre a palavra de um fenômeno semântico que concerne ao enunciado inteiro, de modo que se deve chamar de metáfora o enunciado inteiro com seu sentido novo, e não apenas o desvio lexical que focaliza sobre uma palavra a mutação de sentido do enunciado.