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A discussão exige um uso preciso dos termos mito e salvação, a fim de evitar equívocos preliminares.
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O mito pode ser definido como narrativa das origens, recebida pela tradição, geralmente anônima, digna de fé para o grupo que a transmite e situada num tempo originário incoordernável com o tempo da história e do conto.
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A ideia de salvação, no horizonte judaico-cristão, designa a experiência de ser retirado de um perigo mortal, sob formas como proteção, libertação, resgate, cura, vitória, vida e paz.
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A categoria de mito é útil inicialmente para situar a noção judaica e cristã de salvação num campo comparativo mais amplo, incluindo o pano de fundo assírio-babilônico e os paralelos órficos e trágicos gregos.
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Os relatos de salvação pertencem ao mundo dos mitos por sua correlação com o problema do mal, que interroga a origem da condição miserável humana, marcada por sofrimento, morte, ódio, assassinato, trabalho penoso e dor do parto.
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A tipologia dos mitos da origem do mal inclui o mito teogônico, o mito órfico, o mito trágico e o mito adâmico, cada qual oferecendo uma figura distinta para a entrada do mal na condição humana.
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O relato do Gênesis pode ser chamado mito porque narra, em tempo incoordernável com a história dos homens, a deflexão da condição humana a partir de uma criação boa.
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Os mitos da salvação respondem aos mitos da origem do mal, pois proclamam reparação, reintegração ou restauração da integridade perdida pela condição miserável.
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Nas mitologias que integram o mal à cosmogonia ou à teogonia, o drama da salvação não se distingue da criação e se repete ritualmente no culto.
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No mito trágico, a salvação não constitui história, mas purificação das emoções de terror e piedade por meio da participação nos sofrimentos do herói.
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No mito órfico, a salvação é menos histórica ainda, pois a libertação da alma exilada ocorre pela purificação gnóstica e pela evasão para fora da história.
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No mito adâmico, a réplica da libertação começa a exceder a categoria de mito, pois a criação boa distingue-se do desvio do mal e abre uma história distinta.
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A figura de Abraão introduz, no tempo dos homens, a primeira réplica à figura imemorial de Adão, deslocando a narrativa bíblica do mito para a legenda, a saga e a história do povo.
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A salvação bíblica opera no próprio tecido da história de Israel, do Êxodo à instalação em Canaã e à monarquia de David e Salomão, de modo que o mito se torna mito da história e na história.
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A articulação bíblica entre tradição e profecia rompe ainda mais a temporalidade mítica, pois a profecia de desgraça abala a confiança nas tradições fundadoras e a profecia de libertação anuncia uma novidade futura.
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A abertura profética para um futuro superior à integridade perdida marca o limite mais significativo da noção de mito da salvação.
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A apocalíptica preserva a pertinência do mito da salvação ao produzir mitos da Fim simétricos aos mitos da Origem, nos quais a Endzeit responde à Urzeit fora da coordenação com o tempo histórico.
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A escatologia permanece ligada à história enquanto prolonga a profecia, mas a apocalíptica rompe esse vínculo ao revelar segredos sobre os últimos tempos e a Fim da história.
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A dimensão supra-histórica do mito deve ser confrontada com a dimensão intra-histórica da Heilsgeschichte, ou história da salvação, que designa a condução da história por Deus com o concurso dos agentes humanos.
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O primeiro traço da história da salvação é o vínculo tipológico que estrutura os relatos bíblicos por correspondências entre Promessa e Cumprimento, apoiadas na série cumulativa das Alianças.
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O tempo bíblico é cumulativo porque as alianças com Noé, Abraão, David e outros não apenas se sucedem, mas se acumulam e se reforçam mutuamente.
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A reconstrução tipológica de Northrop Frye evidencia a relação promessa-cumprimento, o caráter cumulativo da história e o contraponto entre tipos e antitipos.
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A história da salvação só permanece mito de salvação enquanto o vínculo tipológico se subordina à polaridade entre Origem e Fim.
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O segundo traço da Heilsgeschichte é a aparência de grande relato produzida pela organização canônica e pelo trabalho redacional que alinham tradições múltiplas num eixo temporal único.
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O grande relato bíblico articula criação, vocação de Abraão, patriarcas, libertação do Egito, Sinai, conquista e instalação em Canaã, constituindo a identidade narrativa de Israel.
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A Igreja cristã primitiva compreendeu a inscrição histórica de Jesus como cumprimento das Escrituras e abertura de um tempo intermediário entre Ressurreição e Parusia.
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O adiamento da Parusia obrigou a articular a história universal à história do novo povo de Deus, processo que encontrou um equilíbrio provisório em A cidade de Deus, de Santo
Agostinho.
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A identificação da salvação bíblica com a Heilsgeschichte deve ser criticada porque a libertação do mal não se exprime apenas no modo narrativo.
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A pluralidade de leis, profecias, textos sapienciais, hinos, lamentações e louvores produz múltiplas nomeações de Deus e múltiplas aproximações da salvação.
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A obediência aos mandamentos, a caminhada na justiça, a promessa profética, a súplica dos Salmos e o clamor dos pobres e perseguidos são modos diversos de experimentar Deus como salvação.
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A imposição de um grande relato à diversidade de textos e gêneros literários corre o risco de violentar a riqueza plural do tema da salvação.
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A crítica do conteúdo da salvação mostra que a eleição de Israel, inicialmente ligada às guerras de Yahweh, foi transformada pela experiência do exílio e pelo sofrimento extremo.
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O exílio introduziu uma “tranche de néant” na compreensão da eleição, fazendo Israel pensar-se como sobrevivente e tornando mais insondáveis as vias do Senhor.
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A passagem do destino coletivo ao sofrimento imerecido do justo, sobretudo no livro de Job, desloca a reflexão para o malheur individual que nenhuma teodiceia consegue resolver.
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O símbolo crístico ocupa no grande relato o tempo axial que separa o antes e o depois, reorientando a história bíblica em torno do evento de Jesus de Nazaré.
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O evento crístico pode integrar-se ao grande relato, mas o símbolo da Cruz e da Kénose tende a fazê-lo explodir por dentro.
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O Logos da Cruz, em Paulo, apresenta a loucura, a fraqueza e o nada como passagem para a potência e a elevação, impedindo que a história da salvação seja lida como marcha triunfal.
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A inversão messiânica de Jesus, como Messias às avessas, subverte a lógica política da dominação e torna problemático inscrever a Cruz num grande relato de vitória.
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A Paixão só poderia ter continuidade histórica se a Cruz se tornasse fio condutor de uma história centrada nas vítimas e não nos vencedores.
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As histórias das vítimas não se deixam incluir como momento superado na história contínua da dominação, nem formar uma segunda história coerente, pois o mal é legião e desafia o grande relato.
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O vínculo entre loucura e Kénose, de um lado, e potência e elevação, de outro, não pode ser sabido racionalmente nem narrado como sistema, mas apenas esperado no respeito de seu mistério.
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No campo da historiografia científica, a oposição entre mito e história parece inicialmente total.
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A historiografia recusa os relatos das origens situados em tempo originário e só reconhece eventos inscrevíveis no tempo calendárico sustentado pela ciência astronômica.
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A prova documental constitui a ruptura epistemológica que separa a historiografia do mito, da lenda, da novela, da epopeia e de toda narrativa ficcional.
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A emergência da historiografia exige investigar funções do mito que não se reduzem a explicação histórica.
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A função fundadora do mito constitui uma identidade narrativa para a comunidade que produz e recebe esses relatos.
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Israel e a Igreja primitiva compreenderam-se historicamente por narrativas confessionais, nas quais contar é também confessar.
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Nenhum povo parece elaborar sua identidade narrativa sem recorrer a mitos fundadores, como mostram Roma, a Revolução Americana e a Revolução Francesa.
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A função fundadora do mito exige uma concepção não ingenuamente unilinear do tempo, capaz de reconhecer durações heterogêneas e profundidades qualitativas distintas.