Há, portanto, um tempo (e um espaço) próprio do pensamento, como um αἰών (aion) do pensamento, que o faz levar sua vida própria à parte do corpo, ao menos do corpo obscuro e rebelde das afecções e paixões.
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Primeira interpretação do excesso (atitude dualista):
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O excesso se autonomiza a ponto de constituir seu tempo próprio, um tempo sem tempo, o tempo da iluminação do pensamento sem medida comum com o tempo do corpo ou da vida.
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O excesso do pensamento se toma a si mesmo por objeto, condensando-se como na paixão.
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A pensamento, embora gerada em seu tempo, é imortal, trans-temporal ou trans-histórica.
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Como dizia
Husserl, o teorema de
Pitágoras não é menos verdadeiro hoje que no dia de sua descoberta.
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Pode-se assim dizer que as pensamentos, como problemas resolvidos, são divinas.
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Segunda interpretação do excesso:
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Nem toda pensamento se reduz a problemas a resolver ou resolvidos.
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Nesta redução, a pensamento se submeteria a uma circularidade, presupondo-se sempre a si mesma; como dizia
Marx, a humanidade só se colocaria problemas que pode resolver.
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Nesta interpretação, a pensamento se excede a ponto de nunca chegar ao fim de si mesma.
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A resolução de um problema é sempre relativa, dependente de sua elaboração e organização.
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O excesso pode ser tal que a pensamento vá até o impossível, onde essa relatividade se manifesta a céu aberto, quando há várias maneiras de elaborar, ordenar e resolver a mesma questão.
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Seria um etnocentrismo violento e ingênuo afirmar que este excesso da questão sobre o problema só existe em nossa cultura.
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O linguagem da filosofia mais especulativa possui ligações com nosso corpo.
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Como já observara K. Lorenz, este linguagem está cheio de termos ligados ao corpo (“ver claro”, “conjunto embaraçado”, “saber pegar um objeto”, “compreender”).
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Isto não é uma “metafórica”, mas indica que onde a pensamento parece mais longe do corpo, em seu excesso, ela porta profundamente sua marca.
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Pode-se quase falar de um “corpo do pensamento”, pois não há pensamento sem corpo; até em seu excesso, a pensamento é ainda pensamento encarnada em um corpo.
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A relação da pensamento com “seu” corpo é tão complexa quanto a nossa relação com nosso corpo, pois é a mesma relação, vista do ponto de vista do excesso do pensamento.
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Este “corpo do pensamento” também tem sua parte obscura e rebelde, visível na impossibilidade cultural de pensar certas questões ou problemas.
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Pensar é sempre também se orientar, por isso falamos de um espaço e de um tempo do pensamento.