RICHIR, Marc. Phenomènes, temps et êtres I. Ontologie et phénoménologie. Grenoble: J. Millon, 1987.
A presente obra é dedicada ao tratamento do princípio da eidética indispensável a toda fenomenologia, que anunciamos no Prefácio do segundo volume de nossas Pesquisas fenomenológicas. Mais do que um problema meramente “técnico”, trata-se, como veremos, da relação entre o fenômeno como mero fenômeno e o fenômeno como “ser”: da relação entre a fenomenologia transcendental e a ontologia, onde o pensamento e o ser são tomados, por assim dizer, como “ser”: da relação entre o fenômeno como mero fenômeno e o fenômeno como “ser”: da relação entre fenomenologia transcendental e ontologia, onde o pensamento e o ser são tomados, por assim dizer, em seu alvorecer, prestes a nascer, a assumir sua concretude, à margem ou ao contrário de toda instituição simbólica, na selvageria das origens.
A principal característica da eidética (tratamento das essências que parecem ligadas aos fenômenos) que elaboramos aqui é ser uma eidética sem conceitos, muito profundamente diferente, portanto, da eidética husserliana, do que ainda a ligava a um “platonismo” fenomenológico. Desvinculadas dos conceitos e da linguagem, as essências cujo status questionamos não têm mais, além disso, do que uma relação muito distante com a ideia platônica ou o eidos aristotélico. Elas emergem como matrizes transcendentais de ontologias concretas, na continuação da “desconstrução” da metafísica (da onto-teologia) iniciada por Heidegger. Não tendo mais nada dos “atributos lógicos” ou “metafísicos” dos fenômenos, elas constituem as juntas aparentes, o espessamento nas aparências de sua fenomenalidade, seus existenciais encarnados, como Merleau-Ponty já havia fortemente indicado em O visível e o invisível.
Suportes, nos fenômenos, da transcendência do mundo, as essências concretas dos fenômenos fazem deles fenômenos-do-mundo. A ordem aparentemente abstrata que destacamos em nossas Recherches phénoménologiques como uma espécie de álgebra dos fenômenos — onde estes eram tomados como “variáveis” de um mesmo problema — começa aqui a se diversificar. E à questão que, ali, tinha necessariamente de ficar em suspenso (o que é, então, um fenômeno?), começamos aqui a dar uma resposta: um fenômeno é um fenômeno-do-mundo, e nada mais (portanto, não uma coisa ou coisas, e muito menos sujeitos ou objetos). Este livro é, portanto, uma realização que, como tal, pode ser lida por si mesma. Que essa realização não seja sem consequências, em particular no que diz respeito à reavaliação da questão levantada pela instituição simbólica, é algo que o leitor perceberá, e é algo que trataremos em outro lugar, em seu princípio. Em todo caso, o que se conclui é que a metafísica, pelo menos de Platão a Hegel, é um modo específico, que será necessário destacar, do questionamento da instituição simbólica por si mesma. Assim se abrirá, ousamos esperar, um novo horizonte para a releitura dos “grandes” de nossa tradição filosófica.
Quanto ao que pensamos abrir aqui, é um campo infinito, prolífico, barroco, bárbaro, que nos transborda e que, no entanto, nos sustenta como o oceano sobre o qual derivamos na maioria das vezes sem saber. Campo dionisíaco onde só surgem, por fases e lampejos passageiros, tais ou tais calmas apolíneas. O lugar da eidética transcendental sem conceitos é o de uma “poética”: de uma arte fenomenológica, mais “verdadeira” do que a “verdade” e profundamente próxima da poesia. Tal é o destino da fenomenologia compreendida em seu rigor. Cabe a cada um encontrar nela o seu bem… Nossa navegação, por sua vez, não pretende ser a única possível, pois visa apenas a precisão. A imensidão da tarefa deve nos incitar à mais autêntica humildade.