Se Heidegger foi “grande”, foi como metafísico, e certamente não como fenomenólogo.
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Uma anedota sobre Husserl ilustra um primeiro sentido de “metafísica”: Husserl pedia “moedas miúdas” (Kleingeld), análises concretas, e não “notas grandes”, abstrações especulativas.
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Heidegger, ao contrário, pagou com “notas grandes”: inflações verbais, jogos de cratilismo, desvios do sentido da língua ordinária.
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Heidegger promoveu extraordinárias criações linguísticas, como se cunhasse sua própria moeda.
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A maneira heideggeriana de carregar blocos inteiros de problemas e decidir unilateralmente o sentido de longos períodos históricos é impressionante.
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Há uma retórica heideggeriana usando “notas muito grandes”, com poucas análises concretas e um “pathos” do autêntico e do abismo.
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Isso “funciona” com base em um partido cego, propriamente metafísico, de rejeitar no erro tudo o que não se integra em sua démarche.
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Em “Ser e Tempo”, a consciência é destronada em favor do Dasein, e um leitor ingênuo poderá crer que dizer “eu” na filosofia é inautêntico.
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Isso porque não terá compreendido a complexidade da consciência mostrada por Husserl.
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A hermenêutica da facticidade do Dasein é, na verdade, a instituição do próprio Dasein em sua autenticidade, na tautologia simbólica entre “ser” e “pensar”.
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O sentido da palavra “hermenêutica” se deslocou, pois o Dasein não é um texto a interpretar, mas algo cujo sentido se deve elaborar simbolicamente.
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A tarefa é gigantesca: uma reinstitucion da filosofia na autenticidade do Dasein, hipercartesiana porque parte do zero.
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“Ser e Tempo” fascina como uma “Fenomenologia do espírito” do século XX, mas não menos metafísica que a obra de
Hegel.
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É o próprio sujeito Heidegger que visa sua instituição filosófica e sua instituição como filósofo.
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Há poucas análises fenomenológicas concretas; termos como ser-para-a-morte, Gewissen (consciência), Sorge (cuidado), angústia são cercados por um halo de mistério.
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Estes termos, desviados de seu uso corrente, são as primeiras “notas grandes” postas em circulação por Heidegger.
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Husserl, por seu cuidado analítico, qualificaria isso de “obscuro” ou “incompreensível”.
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A dimensão metafísica do empreendimento é mais manifesta onde a inautenticidade é rejeitada como um erro “ontológico” originário.
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Daí vem a propensão de Heidegger a rejeitar no erro até os termos da língua filosófica tradicional.
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Parece que o “verdadeiro” filósofo só tem o direito de falar a língua heideggeriana.
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Como essa língua é ambígua, todos os “desconstrucionismos” e “metafísicas” são possíveis.
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A hybris em jogo foi a convicção de Heidegger de recomeçar ou instituir a filosofia sozinho, instituindo sua própria língua.
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Essa identificação fantasmática ao “nomoteta” platônico gerou “seitas” e “dissidências”.
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É um sintoma da “derrelição” filosófica em que ainda se vive.