Quando Descartes responde “Quem sou eu?” dizendo que sou uma “coisa que pensa” (
res cogitans), é preciso entender:
-
“Coisa” não no sentido de coisa determinada, mas no sentido indeterminado de “coisa pública” (res publica).
-
Nesta etapa, o pensamento inclui também o querer, o desejo, a imaginação e o sentir.
Na experiência do cogito, o pensamento é tudo isso junto, em estado nascente, na indiscernibilidade entre realidade e aparência, entre o que depois será atribuído à alma ou ao corpo.
Este pensamento é “confuso”, mas esta confusão é a fusão da alma e do corpo na experiência íntima da certeza fática de existir.
Neste nível enigmático, há ao mesmo tempo o encontro da união íntima (que nos constitui) entre alma e corpo, e o encontro filosófico – pela primeira vez com tal força – da aparição confusa, profusa e enredada do que faz nossa existência e nosso ser em sua contingência.
Neste sentido,
Husserl viu em Descartes um autêntico ancestral da fenomenologia, pois sobre nossa existência e ser ele não projeta nenhuma predeterminação metafísica ancorada em uma instituição simbólica determinada.
-
É em vista do
problema da conhecimento objetiva que Descartes engaja, na segunda parte da segunda meditação, a famosa análise do pedaço de cera.
-
Os únicos conteúdos de pensamento claros e distintos (firmes e constantes, próprios para orientar a conhecimento) são os de nosso espírito.
-
Para colocar corretamente o problema da conhecimento (e resolvê-lo), é preciso partir deles.
-
Neste movimento, Descartes redescobre a evidência dos termos da instituição simbólica na qual a filosofia se elaborou como conhecimento.
-
Resta mostrar que esta instituição também pode assegurar a conhecimento objetiva (novidade moderna em relação aos gregos, para quem o exterior do pensamento não se instituíra como “objetos”).
-
Esta demonstração se realiza na ideia da
infinitude de Deus como um excesso que excede originariamente toda representação que dele posso fazer.
-
Este excesso não só constitui a existência divina, mas também se desprende como a matriz da objetividade de nossos conceitos claros e distintos, especialmente os matemáticos, que são divinos neste sentido.
-
Toda a ambiguidade do projeto cartesiano vem do fato de que os conceitos claros e distintos da conhecimento concernem ao
que é.
-
Pode-se pensar que esta reconquista do que é pela filosofia é o todo de Descartes, mas isso supõe que o abismo da dúvida hiperbólica era apenas uma astúcia retórica, evacuando a questão em favor do problema.
-
No quadro da conhecimento objetiva, o dualismo cartesiano é integral: a alma (res cogitans, inextensa) versus o corpo (coisa material e espacial).
-
Descartes pensou resolver o problema enigmático de sua união situando seu ponto de contato no espaço ambíguo da “glândula pineal”.
-
Será sempre o problema de qualquer teoria dualista buscar em vão este ponto de contato ou tentar dissolver esta “glândula pineal”.