Na tradição grega (mitologia, épica, filosofia), a divinização do homem passa pela
glória que o inscreve na memória coletiva.
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Pode ser uma glória benéfica (levando à imortalidade entre os deuses) ou maléfica (exemplo de hybris punida nos Infernos).
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No cristianismo, há uma inversão: a encarnação divina se traduz na humilhação e morte de Jesus na cruz.
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O que impressiona nos Evangelhos é a doçura e a humildade, não um excesso sublime de terror ou violência fundadora.
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Se há excesso na vida de Jesus, é um excesso de humanidade, não de inumanidade divina.
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O divino se revela no excesso do humano, transitando pelos seres e coisas mais humildes.
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Não há ideia de glória triunfante; toda pessoa, independentemente de posição social ou reputação, porta uma centelha divina.
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O pecado é apreendido como paixão que se endurece e se toma a si mesma por origem e objeto (paixão orgulhosa).
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A encarnação de Deus no “Filho” humano significa a unidade da carne como unidade íntima e contínua da alma e do corpo.
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Mas a doutrina cristã tem outro versante: sua autocompreensão como fundação de uma nova religião.
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Ela não termina na crucificação (que poderia significar fracasso), mas na ressurreição.
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A ressurreição atesta a significação transcendente: não há cadáver (o túmulo está vazio) e o corpo vive após a morte como corpo invisível mas encarnado.
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Este corpo ou carne transfigurada e deslocalizada vive em cada cristão; a eucaristia é sua encenação simbólica (regeneração pela incorporação do pão e do vinho).
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Este é o “corpo glorioso” ou “corpo místico”, também identificado com a assembleia dos fiéis (Igreja).
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Toda a ambiguidade está nesta glorificação de Jesus como Cristo na ressurreição.
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É como se o homem, como no pensamento pagão, se tornasse novamente Deus ao reunir-se ao Pai.
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Ao instituir-se como Igreja triunfante e hierárquica, a Igreja retomou o esquema pagão de fundação, mas carregando o risco de seu questionamento.
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Jesus, como Messias e Rei, é glorificado na ressurreição, tornando-se o “Senhor” dos crentes e a fonte teológico-política da autoridade eclesiástica (o Papa) e temporal (o rei como “vigário” de Cristo).
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Pode-se dizer que a novidade da mensagem cristã foi pervertida na origem, o que não impediu dissidências que buscaram retornar à sua autenticidade.
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Há sempre duas tendências contraditórias no cristianismo:
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Uma tendência pactuou com os poderes políticos temporais, impondo-se pela sociedade, muitas vezes com violência.
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Outra tendência, como força interna de subversão, pregou o retorno à humildade e doçura evangélicas.
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Na primeira tendência, reproduz-se a separação alma/corpo, buscando apoio no corpus grego para se elaborar.
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Na segunda, a centelha divina está na intimidade mais íntima do homem encarnado, como eco da encarnação.
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Esta intimidade extrema é o excesso de humanidade (com sofrimentos e misérias) como Deus no homem.
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Deus não está fora, no mundo profano, mas no mais íntimo do interior, no retorno que faz o homem se descobrir sempre já acolhido por Deus.
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O cristianismo, como mostra a obra decisiva de
Santo Agostinho, desemboca numa verdadeira
cultura ativa da interioridade humana.
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Resultou uma reelaboração simbólica da noção de alma (psyché).
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Para os gregos, a alma era fundamentalmente impessoal, com individuação contingente.
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No cristianismo, pela encarnação, a alma é essencialmente individual, centrada num si que é o si divino.
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Seu caráter oculto e misterioso faz viver, nas profundezas, o si individual – seja na abertura que transfigura tudo (inclusive o corpo), seja na revolta que o obscurece e opacifica (vivido no desordem das paixões).
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A abertura e a revolta são de extrema sutileza, jogando-se em nuances ínfimas, o que levou a um refinamento (e ambiguidade) enorme na elaboração psicológica da interioridade.
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Esta experiência pode chegar à tortura dos tormentos interiores e, em alguns místicos, à tortura do corpo (com elementos estoicos).
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Tudo se joga entre:
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O encontro do divino no mais íntimo de si, onde o corpo é transfigurado em carne (já como corpo indeterminado em excesso, no registro da prática religiosa).
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E o encontro recusado, onde a centelha divina, ao se tornar um Deus enganador e “maligno”, abandona o corpo, deixando-o surgir como obstáculo ou instrumento do engano.
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As psicopatologias não estão longe neste reverso instável da figura do Cristo redentor para a de um Deus vingativo e maquinador – um “complô contra a vida”, como diria
Nietzsche.
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A longa história desta cultura da interioridade, desde Agostinho até os Tempos Modernos, não pode ser traçada aqui em detalhe.
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Mesmo com a laicização e “desculturação” recente (possível fim da “era cristã”), esta cultura é a antepassada de nossa subjetividade moderna.
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É a maneira como, pela centração no “eu”, constituiu-se a psicologia que conhecemos – ao menos ideologicamente – para descrever e classificar nossos “estados de alma” e “estados de espírito”.
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Ela também contribuiu para tornar o mundo “exterior” uma materialidade inanimada, objeto das ciências objetivas da natureza.
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Com isto, já tocamos na obra própria dos filósofos dos Tempos Modernos.