Enquanto as sensações nos fazem aceder aos seres e às coisas, a ponto de nos confundirmos com eles, a afetividade (ou sensibilidade) nos faz aceder ao mundo.
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É o mundo em que há seres e coisas, mas um mundo sempre “colorido” pela cor dominante ou pelo tom de tal ou qual tonalidade afetiva.
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É o mundo em si que é leve numa bela manhã de primavera, ou que se torna pesado numa tarde cinzenta de inverno.
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O amor exalta, e não apenas o objeto amado; o ódio destrói, e não apenas o objeto odiado.
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O excesso do afetivo no próprio afetivo está na ausência de solução de continuidade entre o estado-afetado pelo humor ou pelo sentimento, e o estado do mundo.
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Isto foi magistralmente mostrado por Heidegger em “Ser e Tempo” a propósito da *Stimmung* (“tonalidade afetiva”).
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O mundo nunca nos aparece como neutro ou sem tonalidade alguma; isso é uma abstração do conhecimento objetivo.
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O conhecimento em seu sentido mais geral está ligado a essa espécie de igualdade de humor que é a tonalidade de um ser encarnado liberto dos cuidados quotidianos e ligado ao mundo pela “contemplação desinteressada”.
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É apenas nesse tom que se pode falar das sensações e das afecções.