A eficácia dos cursos como chave de leitura permanece limitada, pois, sendo textos exotéricos que vêm de fora, exigem que o leitor já compartilhe a disposição fundamental para compreender a posição de onde o autor fala.
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Superficialidade relativa dos cursos.
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Necessidade de vivência prévia do que é mantido em silêncio.
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Obrigatoriedade de confronto direto com o texto esotérico.
O estilo interno da obra impõe o esoterismo através de uma linguagem idiossincrática repleta de neologismos e jogos de palavras que impede a inteligibilidade imediata e obriga o leitor a nadar sem auxílio.
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Aviso inicial sobre a falta de junção com a verdade do ser.
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Uso de termos como Götterung e Er-eignis sem definições.
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Falta de uma estrada real para o significado.
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Experimentação com famílias de palavras.
O processo de seleção dos leitores exclui aqueles entrincheirados na história da filosofia ou no senso comum, admitindo apenas os que percorreram o caminho prévio e aceitam a transformação pessoal.
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Rejeição dos não familiarizados com os escritos anteriores.
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Exigência de apropriação do caminho como próprio.
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Necessidade de perceber a tentativa como distante e íntima.
A distinção entre textos esotéricos e não esotéricos reside na ereção deliberada de barreiras que repelem ativamente os não qualificados, em contraste com a tentativa de superação de obstáculos típica da comunicação exotérica.
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Apresentação de nenhuma mensagem aos desqualificados.
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Diferença em relação à mera dificuldade técnica.
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Função de defesa contra a leitura inadequada.
A motivação política ou de autoproteção, embora plausível dado o contexto de perseguição e as críticas ao nazismo, não constitui a causa fundamental da natureza esotérica do manuscrito.
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Existência de ataques diretos à ideologia nazista.
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Distinção entre cautela do autor e esoterismo do texto.
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Insuficiência do fator político para explicar o estilo.
O uso da psicologia e da retórica em
Platão exemplifica um esoterismo baseado na prudência e na adaptação do discurso à alma do ouvinte, oferecendo crenças salutares àqueles incapazes de filosofia plena.
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Benefício diferenciado para públicos distintos.
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Crítica à escrita comum que fala a todos igualmente.
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Oferta de mitos como alternativa aos argumentos.
O esoterismo heideggeriano difere do modelo platônico por não oferecer uma mensagem exotérica salutar aos excluídos, limitando-se a barrar o acesso àqueles incapazes de questionamento solitário.
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Exclusão do establishment filosófico.
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Foco na capacidade de transformação através do questionamento.
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Desinteresse pelos mal-entendidos da maioria.
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Proteção da decisão sobre o ser contra o tatear vulgar.
O elitismo profundo da obra manifesta-se no desprezo pela compreensão mediana e na tese de que a racionalidade destrói a verdade ao ignorar as diferenças de classe espiritual e a inacessibilidade do acontecimento do ser.
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Associação entre racionalidade e entendimento médio.
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Recusa da representação universal da verdade.
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Natureza não representável do acontecimento do ser.
A profundidade do esoterismo ultrapassa a prudência extrínseca para alcançar uma dimensão intrínseca baseada na natureza essencialmente misteriosa da filosofia e do próprio tópico abordado.
A inacessibilidade do tópico decorre do fato de que o evento do ser se retrai no próprio momento da doação, tornando o claro e distinto apenas um derivado secundário.
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Caráter de recusa da origem da doação.
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Inexplicabilidade do início ou incepção.
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Natureza autodestrutiva da filosofia que se faz totalmente compreensível.
A apresentação obscura constitui a forma mais rigorosa e clara de tratar um tópico que se oculta, pois respeita a escuridão intrínseca da coisa em vez de impor uma iluminação artificial.
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Necessidade de desabituar da ideia de iluminação total.
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Adequação da apresentação à natureza do ser.
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Identidade entre busca e encontro na obscuridade.
A simplicidade radical da verdade do ser exige uma linguagem de silêncio eloquente e contenção, onde o dizer poético nomeia o inexplicável sem reduzi-lo a proposições.
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Transformação do dizer simples em silêncio que diz.
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Estilo de retenção ou comportamento contido.
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Recusa da explicação proposicional.
A retenção heideggeriana assemelha-se à ironia socrática na medida em que ambas constituem um estilo de existência não arbitrário fundado na experiência dos próprios limites.
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Recusa da ironia como mero traço pessoal.
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Vínculo com a experiência do que está em jogo na vida.
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Violência da explicação teórica sobre a postura existencial.
A experiência da finitude como apropriação fundamenta a rejeição heideggeriana dos postulados platônicos das formas, embora reste a questão sobre a possível postulação de uma nova ideia.
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Base na experiência da finitude.
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Contraste com a orientação socrática pelas ideias.
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Abertura para a crítica sobre a justificação dessa recusa.