5.5 Obra de arte

POLT, Richard. Heidegger: an introduction. 2ed. Ithaca: Cornell University Press, 2025.

“A Origem da Obra de Arte”: O Combate entre Terra e Mundo

1. A arte mal foi mencionada em Ser e Tempo, mas as obras de arte podem ser um tipo particularmente importante de ente, pois, se a verdade não pode ser captada em proposições teóricas, talvez a arte tenha um papel único no desvelamento, podendo alertar para a diferença entre algo e nada e até oferecer novos modos de relação com o ser.

2. Em “A origem da obra de arte” (Der Ursprung des Kunstwerkes), Heidegger realiza sua reflexão mais extensa sobre o tema e desenvolve conceitos muito importantes para seu pensamento tardio, sem expor uma doutrina organizada, mas seguindo uma das ramificações do problema do ser por território inexplorado, abrindo trilha por meio de perguntas, pronunciamentos e jogos de palavras por vezes enigmáticos.

3. Como todas as afirmações filosóficas, essas devem ser interpretadas e testadas à luz da própria experiência.

4. Aos exemplos de Heidegger pode-se acrescentar o Memorial dos Veteranos do Vietnã, em Washington, projetado por Maya Lin em 1981 e construído em 1984, conhecido simplesmente como o Muro, cuja fama e impacto atestam seu êxito como obra de arte.

5. Fiel às suas raízes fenomenológicas, Heidegger aborda a arte em função do que nela se manifesta, sustentando que as obras de arte genuínas “deixam acontecer o desvelamento do ente na totalidade”.

6. Isso se aplica muito bem ao Memorial dos Veteranos do Vietnã, presença impressionante mesmo em fotografias.

7. A obra revela outros entes além de si mesma sem que isso exija arte representacional ou “realista”, e o Muro certamente não o é.

8. Quanto ao que o monumento diz especificamente, muitos veteranos inicialmente se opuseram ao projeto por imaginar que sua mensagem seria de vergonha, mas hoje quase todos os visitantes reconhecem que seu sentido não pode ser resumido numa palavra simples como “vergonha”, “orgulho” ou mesmo “luto”.

9. As obras de arte não são as únicas ocasiões para a nova revelação do que é, pois Heidegger menciona a fundação política, observação que dá alguma ideia de suas próprias esperanças políticas, a revelação divina, o “sacrifício essencial”, talvez o de Sócrates ou de Jesus, e a filosofia, campos em que a verdade pode acontecer no combate entre mundo e terra, conceitos complexos nunca definidos com precisão no ensaio, mas que podem ser esclarecidos aplicando-os a exemplos e comparando-os com pares conceituais mais familiares.

10. Em Ser e Tempo, o “mundo” é um sistema de finalidades e significados que organiza a identidade e as atividades, focado no mundo cotidiano da produção, mas o mundo é o que dá sentido a tudo o que se pode fazer, a todos os caminhos que se podem seguir ao tornar-se quem se é.

11. O Memorial dos Veteranos do Vietnã tem o poder de abrir um mundo, mostrando aos americanos o que está em jogo para eles como comunidade, não por meio de uma mensagem óbvia ou de uma decisão sobre como interpretar o passado, pois o mundo é mais básico que qualquer decisão particular, sendo o contexto que determina o que precisa ser decidido e quais questões importam.

12. A grande arte deve envolver também a terra, noção nova nesse ensaio e fugidia, que designa a base sobre a qual se habita, o fundamento sobre o qual se constrói um mundo, aquilo que abriga os entes que dela surgem, algo espontâneo que tende a ocultar-se, em suma, a fonte misteriosa da qual brotam os seres humanos e os demais entes.

13. O modo mais fácil de abordar os conceitos de terra e mundo talvez seja vê-los como tentativa de repensar a desgastada distinção entre natureza e cultura.

14. Em Ser e Tempo, a natureza era considerada algo assimilado à cultura, disponível para uso prático ou para estudo como objeto simplesmente dado pela ciência natural, possível apenas sob certas condições culturais, ao passo que a “terra” oferece um modo novo e mais profundo de relacionar-se com a natureza, respeitando-a como algo que precede as manipulações e interpretações humanas e essencialmente lhes resiste, ponto de vista com afinidades com o movimento atual da “ecologia profunda”.

15. O vocabulário de natureza e cultura também ajuda a compreender a afirmação de que terra e mundo estão essencialmente em conflito.

16. Os limites da compreensão não são algo tão trivial quanto a precisão limitada dos instrumentos ou a existência de lugares ainda não visitados pelos seres humanos, pois, segundo Ser e Tempo, a compreensão é intrinsecamente finita, sendo um processo de interpretação nunca aperfeiçoado.

17. Uma obra de arte é um ponto em que acontece o combate entre terra e mundo, pois abre um mundo e ao mesmo tempo deixa a terra mostrar-se como terra, isto é, como algo oculto, de modo que a arte mostra que a terra não se mostra, poder talvez exclusivo da arte, já que a ciência só pode mostrar como as coisas se mostram, e não como se ocultam.

18. O Memorial dos Veteranos do Vietnã envolve a terra no sentido mais óbvio, pois está abaixo do nível do solo e integra-se ao entorno natural como poucos monumentos, sendo não apenas um painel feito pelo homem, mas uma abertura na própria terra, quase como uma sepultura aberta.

19. O envolvimento da terra no monumento torna-o especialmente apropriado como memorial e lugar de luto, pois, se permitisse que tudo se dissolvesse em cultura, numa série de interpretações claras e arrumadas da guerra e da morte, não deixaria espaço para o sentimento de um fardo inexplicável, crucial para o luto.

20. O perigo de equiparar mundo e terra a cultura e natureza está em julgar que essa equiparação dispensa o trabalho de pensar, pois “natureza” e “cultura” são palavras demasiado familiares que parecem óbvias até se tentar defini-las, quando se descobre que mal se compreende o que significam, o que explica por que Heidegger as evita, embora, tomadas como começos e não como fins do pensamento, possam ser instrumentos úteis para interpretar o ensaio.

21. Alguns outros conceitos familiares também podem ser úteis, pois, embora Heidegger deixe claro que não quer pensar a arte em termos de forma e matéria, esses conceitos não são inteiramente alheios ao que ele diz.

22. Terra e mundo têm também afinidades com conceitos de Ser e Tempo.

23. Outra aproximação a terra e mundo pode servir a quem leu o primeiro livro de Nietzsche, O Nascimento da Tragédia, claramente uma inspiração para o ensaio de Heidegger, até no título, pois, segundo Nietzsche, a tragédia reflete sua origem no conflito entre duas forças fundamentais, o apolíneo e o dionisíaco.

24. Nenhum desses paralelos pretende atacar a originalidade de Heidegger, que não se preocupava com a originalidade no sentido de diferir de tudo o que passou, mas com a originalidade como contato com a origem, e “A origem da obra de arte” permanece profundamente original justamente porque se nutre de correntes profundas da tradição filosófica para revelar o que está em obra nas obras de arte.