5.3 Verdade

POLT, Richard. Heidegger: an introduction. 2ed. Ithaca: Cornell University Press, 2025.

“Sobre a Essência da Verdade”: Desvelamento e Liberdade

1. “Sobre a essência da verdade” (Vom Wesen der Wahrheit) persegue questões caracteristicamente heideggerianas, como a de saber de que modo os entes se revelam a nós como entes e como acontece a verdade, isto é, o desvelamento, e, se segundo “Que é metafísica?” os entes se mostram graças à “transcendência de um ser-aí suspenso dentro do nada”, de modo que no encontro com os limites do sentido o ser ganha sentido para nós, aqui essa transcendência é concebida em termos de liberdade.

2. Convém percorrer primeiro esse ensaio denso e breve, notando que nele, mais do que em outros textos, Heidegger escreve levantando objeções a si mesmo e passando frequentemente a uma voz que desafia seu próprio projeto ou os passos que executa, mudanças que podem ser acompanhadas desde que se lembre que ele contesta os conceitos tradicionais de sujeito e objeto e as interpretações tradicionais da relação entre ambos.

3. Cada palavra conta nesse ensaio, mas certas afirmações podem ser destacadas como particularmente importantes, uma de cada uma das seções 1 a 7, deixando-se de lado as seções 8 e 9, que trazem reflexões complementares sobre a filosofia e o ser.

4. O desafio consiste não apenas em compreender o que significam essas afirmações, mas em acompanhar o movimento que leva de uma a outra, pois Heidegger não apresenta um sistema acabado, mas está a caminho, considerando em seu percurso várias objeções e fazendo muitos comentários críticos à tradição, que, por valiosos que sejam, podem ser deixados de lado para esclarecer o fio principal do ensaio.

5. A afirmação (1) exprime o conceito tradicional de verdade como correspondência, que Heidegger não rejeita, mas cujo fundamento de possibilidade investiga, como já fizera no §44 de Ser e Tempo, e segundo a afirmação (2) a correspondência é possibilitada pela abertura do comportamento, pois só se podem formular afirmações corretas quando já se é capaz de comportar-se de modo aberto ao ente.

6. Segundo a afirmação (3), essa abertura do comportamento funda-se na liberdade, pela qual somos libertados para o aberto e ficamos livres para o que nele encontramos, sem que isso implique que se possa decidir arbitrariamente o que é verdadeiro ou falso, pois a liberdade não é mera capacidade de fazer o que se quer, mas, mais profundamente, a soltura num domínio aberto onde é possível encontrar outros entes.

7. Diferentemente de uma pedra ou de um lagarto, o ser humano pode deixar o ente ser, e a afirmação (4) diz que o deixar-ser é a essência da liberdade e, portanto, da verdade, não no sentido de deixar os outros entes intocados, o que pedras e lagartos também fazem, mas no de permitir que se mostrem como são, deixando, por exemplo, a chuva apresentar-se em seu próprio chover.

8. O “deixar-ser” pode soar bastante passivo, mas Heidegger também afirma que ele envolve empenho.

9. Segundo a afirmação (5), esse desvelamento traz consigo ocultamento, como Ser e Tempo já sustentava no §44 ao dizer que o ser-aí está essencialmente na verdade e na não-verdade.

10. Em “Sobre a essência da verdade” insinua-se uma história semelhante centrada na disposição, pois o ente na totalidade se abre nas tonalidades afetivas, podendo revelar-se, por exemplo, como opressivo ou edificante, e essa revelação é misteriosa porque “não pode ser compreendida a partir do ente aberto em cada caso”.

11. Em consequência da decadência (Verfallen), que Heidegger aqui rebatiza de “in-sistência” (Insistenz), abordamos os entes “como se fossem abertos de si e em si mesmos”, esquecendo a abertura originária do ente na totalidade, e, como essa abertura já é misteriosa de início, a afirmação (6) explica que há um duplo ocultamento, pois se deixa de notar que há um mistério em primeiro lugar.

12. A afirmação (7) resume a linha de pensamento e a liga a um último conceito, o de errância, pois, assim como a verdade das proposições corretas foi fundada num comportamento desvelador fundamental do ser-aí, o erro é muito mais que incorreção, sendo parte de nossa condição, uma “errância” que nos acomete enquanto vagamos pela existência.