0 Introdução

POLT, Richard F. H. The emergency of being: on Heidegger’s contributions to philosophy. Ithaca, NY: Cornell Univ. Press, 2006.

A Emergência do Ser

1. A presente obra propõe uma confrontação com os Contribuições à Filosofia (Beiträge zur Philosophie) que não visa reduzir o texto a conceitos familiares nem refutá-lo, mas engajar-se com ele numa confrontação sobre “as coisas mesmas”, respeitando e aprendendo com esse modo de pensar precisamente ao lutar com ele.

2. O tema central da confrontação com os Contribuições é a emergência (Not), pensada como o modo pelo qual o ser entra no que lhe é próprio, e o encontro genuíno com os entes (das Seiende) exige um momento raro e urgente de apropriação e de ser apropriado pela significância dos entes como um todo.

3. Heidegger acusa a tradição de esquecimento da emergência do ser, e as três alternativas políticas do século XX — democracia liberal, comunismo e fascismo — vêm todas a ser atacadas, pois a política contemporânea, junto com a ciência, a filosofia e a religião, faz parte de uma cultura ocidental que Heidegger vê como alienada do acontecimento da história.

4. As questões centrais da interpretação proposta são: como o ser emergiria numa emergência? Como essa emergência nos atrairia para o nosso próprio mundo e nosso próprio modo de abordar tudo o que é? E como pensar e falar adequadamente desse evento?

5. Embora a confrontação com os Contribuições exija uma interpretação cerrada do texto, não se pretende um comentário exaustivo, dada a extensão e riqueza do livro, oferecendo-se leituras detalhadas de passagens particularmente importantes e percorrendo o texto livremente para reunir referências relevantes.

6. Outra tarefa que se teve de abandonar é uma exposição do lugar dos Contribuições no conjunto dos escritos de Heidegger, bem como suas infinitas conexões com outros pensadores, embora se recorra a outros textos heideggerianos e se discuta em algum detalhe a evolução desde Ser e Tempo.

7. Antes de descartar essa linguagem, porém, deve-se meditar sobre o apocalipse, pois apocalypsis significa exatamente o mesmo que aletheia: desvelamento, revelação, e pode ser que a verdade aconteça num momento de crise.

8. A primeira e mais próxima interpretação de um texto em língua estrangeira é a tradução, e a tradução de Parvis Emad e Kenneth Maly dos Contribuições representa anos de labor interpretativo; no entanto, apresentam-se aqui traduções e paráfrases próprias, primeiro para não se poupar o trabalho de interpretar cada palavra de novo, e segundo porque a tradução existente é frequentemente peculiar, inconsistente ou enganosa.

9. Decidiu-se também traduzir Da-sein (geralmente hifenizado nos Contribuições) como “ser-aí” (being-there), pois, desde a publicação da versão de Macquarrie e Robinson de Ser e Tempo em 1962, a maioria dos estudiosos anglófonos deixou Dasein sem tradução, com a notável exceção de William J. Richardson, que usa “There-being” em sua obra de 1963.

A Turbulência Esotérica dos Contribuições

1. Até aqui não se confrontaram os Contribuições, mas apenas se anunciou a confrontação; a confrontação mesma precisa começar pelo estilo do livro, perguntando como ele resiste ao desejo de uma doutrina direta e consistente, por que é tão turbulento e esotérico e o que exige de seus intérpretes.

2. Heidegger afirma que a busca de seu único “caminho” filosófico exige uma mudança de pontos de vista (84); se a filosofia é uma doutrina — um sistema de asserções —, essa afirmação é um paradoxo, pois uma mudança nas asserções é uma mudança na filosofia.

3. Mas por que um foco persistente na mesma questão levaria a uma mudança de pontos de vista? É preciso olhar mais de perto para as limitações da exibição.

4. O desvelamento não está contido em nenhuma asserção particular gerada por essa interpretação; ele ocorre no próprio movimento interpretativo, desde que continuemos a confrontar a questão em pauta e os limites de nossa compreensão.

5. Movimento não é idêntico a alteração; a interpretação pode permanecer em movimento mesmo que consista simplesmente em esforços repetidos de apreender algo com as mesmas palavras e conceitos.

6. Mas o livro não é apenas hermenêutico; é hermético; não apenas está engajado numa luta constante, mas também parece recusar-nos acesso ao seu santuário interior, frustrando o desejo de clareza em pontos cruciais.

7. Ser admitido num texto é ser admitido numa experiência da questão do texto; um texto esotérico mantém vigilância sobre quem é admitido na vizinhança de sua questão, tendo uma política de admissões restritas.

8. Por décadas, os Contribuições foram privados num sentido óbvio: não publicados, e sua própria existência era matéria para conhecedores; Heidegger mostrou o texto apenas a alguns confidentes que comunicaram breves seleções a outros estudiosos.

9. Os cursos, então, fornecem a chave que destranca os Contribuições e nos admite a uma experiência da questão em jogo?

10. Quando nos voltamos para os próprios Contribuições, por mais bem que conheçamos os cursos, descobrimos que o estilo do livro impõe seu esoterismo — tanto que, embora o texto tenha sido publicado, seu significado dificilmente pode ser considerado público.

11. Quem afundará e quem permanecerá à tona? O estilo de Heidegger exclui aqueles que não estão familiarizados com seus escritos anteriores; aqueles que não estão familiarizados com a história da filosofia ou demasiado entrincheirados em alguma de suas fases; e, acima de tudo, aqueles que não estão dispostos a experienciar uma transformação.

12. Talvez isso possa ser dito de qualquer texto: apenas aqueles com o background necessário e tenacidade serão admitidos a uma experiência da questão sobre a qual o texto trata.

13. Por que escrever esotericamente? Um motivo pode ser a proteção pessoal contra perseguição política ou religiosa.

14. Num escritor como Platão encontramos motivos mais profundos para a escrita esotérica; não apenas Platão é politicamente cauteloso (como um seguidor de Sócrates bem poderia ser), mas também representa os seres humanos como pertencentes a diferentes ranks.

15. Nos Contribuições, Heidegger não escreve desse modo platônico; o seu é o tipo de texto esotérico que é simplesmente opaco aos de fora, em vez de lhes oferecer uma alternativa salutar à mensagem esotérica.

16. O elitismo é profundo nos Contribuições; Heidegger frequentemente expressa desprezo pela compreensão média, que associa à racionalidade.

17. Aproximamo-nos do sentido mais profundo em que este texto é esotérico; os tipos de esoterismo considerados até agora baseiam-se na prudência: seria incauto declarar certas visões diretamente, porque isso poderia ser danoso ao autor (se as visões são controversas), à audiência (se não está preparada para apreender as visões adequadamente) ou ao significado do texto (se cai nas mãos de intérpretes que o julgariam por um padrão alheio).

18. Mesmo que tenhamos nos qualificado como pensadores genuínos no sentido de Heidegger e tenhamos nos familiarizado com sua linguagem, os Contribuições não podem nos dar acesso direto ao seu tópico, porque esse tópico é ele mesmo intrinsicamente inacessível ao pensamento “direto”.

19. Muitos objetariam: não é a missão do filósofo precisamente clarificar o obscuro, lançar luz sobre o misterioso?

20. O objetivo de Heidegger nos Contribuições era “dizer a verdade do ser simplesmente”.

21. A contenção heideggeriana é paralela à ironia socrática; a ironia não é nem um cacoete pessoal de Sócrates que nada tem a ver com seu pensamento filosófico, nem uma tese que possa ser apoiada por um argumento socrático.

22. Heidegger, também, fala a partir de uma experiência de finitude — finitude como apropriação.

Lendo os Contribuições

1. Revisitaremos o estilo dos Contribuições em maior profundidade quando estivermos prontos para conectá-lo mais completamente ao seu conteúdo; mas nosso olhar preliminar sobre a turbulência esotérica do livro já pode nos dar algumas diretrizes para lê-lo.

2. Primeiro, se o ponto de um texto filosófico é revelar uma questão, essa revelação deve depender do leitor pelo menos tanto quanto do escritor.

3. Isso não sugere que o leitor deva concordar com o escritor ou usar as mesmas palavras; um foco compartilhado traz consigo a possibilidade e até a necessidade de pensamentos divergentes.

4. Como podemos desenvolver um vocabulário próprio que difira da linguagem de Heidegger sem descartá-la? Se estamos escrevendo em inglês, esse problema é especialmente agudo: somos forçados a “traduzir” os pensamentos de Heidegger para uma língua estranha.