III. A passagem do último deus
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A publicação de Ser e tempo, em 1927, alterou decisivamente a paisagem filosófica, embora a obra permanecesse fragmentária: apenas as duas primeiras das seis partes previstas vieram a público, e Heidegger reconheceu posteriormente a necessidade de procurar um novo ponto de partida.
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A urgência política dos anos 1930 atravessou essa procura e alimentou ilusões acerca do pretenso ressurgimento de 1933; o retorno ao trabalho filosófico resultou nos Aportes à filosofia, escritos entre 1936 e 1938, nos quais a rejeição ao delírio racial coexistia com a expectativa de uma grande criação histórica inspirada por
Nietzsche.
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Os Aportes também permaneceram inacabados, pois o pensamento ali buscado não encontrava correspondência numa época que se preparava para a luta pelo domínio mundial; o manuscrito passou a integrar um espólio que continuaria a crescer.
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Após a Segunda Guerra Mundial, a filosofia de Heidegger voltou a influenciar amplamente o pensamento europeu, bem como a psiquiatria, a teologia e os estudos sobre
Hölderlin, enquanto as publicações disponíveis ainda deixavam pouco visíveis as mudanças e as tensões históricas de seu percurso.
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A conferência Tempo e ser, de 1962, retomou o título e a intenção da parte não publicada de Ser e tempo sob as condições de um pensamento transformado; a obra maior em que Heidegger esperava reunir seu caminho, entretanto, não chegou a uma forma concluída.
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O isolamento dos trabalhos tardios coincidiu com a necessidade de confrontar a tradição continental com a filosofia analítica, o pragmatismo e os diversos marxismos; permanece aberta a questão de saber se algum escrito póstumo poderá intervir de maneira viva no filosofar.
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A partir dos anos 1980, a publicação dos primeiros cursos e dos Aportes à filosofia permitiu reconsiderar o percurso de Heidegger, enquanto impulsos recebidos em outros países retornavam ao debate europeu, inclusive por meio das questões políticas desenvolvidas por Hannah
Arendt e Jan Patočka.
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O centenário de 1989 ocorreu num contexto de reavaliação das revoluções modernas: a recusa heideggeriana da pretensão de dirigir a história mundial não impede que a busca de identidades nacionais ou religiosas produza novos desvios ao apropriar-se de seu pensamento.
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A possibilidade de tomar acontecimento apropriador (Ereignis) como palavra fundamental da filosofia exige interrogar sua relação com a identidade histórica e examinar os riscos de converter a pertença a uma tradição em fundamento de exclusão.
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A reunião de doze estudos sobre filosofia, política, arte e religião preserva a formulação original de cada intervenção para tornar identificáveis suas circunstâncias, ao mesmo tempo que reconhece os limites de concentrar a investigação exclusivamente em Heidegger.
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A fenomenologia requer ouvir também
Husserl e
Levinas, assim como as questões de
Hegel,
Hölderlin e da política reclamam caminhos próprios; o confronto com Heidegger exige primeiro compreender aquilo que foi buscado nas diferentes fases de seu pensamento.