3.1 Noli me frangere

Jean-Luc Nancy, Demande: Philosophie, littérature, Paris: Éditions Galilée, 2015

Noli me frangere (com Philippe Lacoue-Labarthe)

1. Sobre o fragmento pouco se deveria escrever, não sendo ele objeto nem gênero, não formando uma obra, sendo a vontade fragmentária de Friedrich Schlegel a própria vontade de Obra, já tendo sido dito bastante sobre isso, mas excedendo aquilo que Blanchot chama exigência fragmentária a obra, pois essa exigência excede a vontade.

2. Fragmento: o texto é frágil, nada além disso, quebra-se e no entanto não se quebra, no mesmo lugar, onde? em algum lugar, sempre algum lugar, lugar inatribuível, incalculável, sendo assim um erro escrever em fragmentos sobre o fragmento, o que vale também para Blanchot, mas o que mais há a fazer? Escrever sobre outra coisa inteiramente, ou sobre nada, e deixar-se fragmentar.

3. Foi contudo a publicação de A Escrita do Desastre, em julho de 1980, que veio interromper a composição de um texto inteiramente diferente, que poderia agora chamar, tendo-o abandonado, uma dialética suplementar do fragmento, sendo a exigência de Blanchot seu guia, tendo o texto de Blanchot a interrompido.

4. Uma dialética suplementar do fragmento estava assim também em ação nesse texto, não sendo talvez errado chamá-la de dialética negativa e buscar correspondências secretas entre Blanchot e Adorno, mas isso ainda significa que a dialética, o discurso, é indestrutível, ordenando em todo texto, e também no texto fragmentário, e no discurso em fragmentos sobre o fragmento: Noli me frangere, não me estilhaces, não me fragmentes.

5. Isso não é mero efeito de uma vontade de autoproteção, tal como não o é o Noli me tangere das Escrituras: não me toques, diz Cristo ressurgido, porque não poderias, porque não saberias o que estarias tocando, e porque crerias saber, não podendo saber nem querer nada sobre o que se chama corpo glorioso.

6. Sobretudo não devemos crer que poderíamos saber como fragmentar, que poderíamos conhecer-nos em fragmentos, que de fato poderíamos fragmentar, não fragmentando ninguém, a menos que seja talvez esse Noli me frangere que toda escrita profere: não me fragmentes, não desejes me fragmentar, a fragmentação prossegue, e já estou bastante fragmentado; de qualquer forma, não depende de ti.

7. Tudo isso está escrito na escrita fragmentária de Blanchot, nada havendo a acrescentar, nada a retirar, nada a dialetizar, nada a fragmentar, não devendo sobretudo cair-se na dupla armadilha da superdialetização e da superfragmentação, sustentando Blanchot até a exaustão, até já não conseguir suportá-lo, a arriscada exigência de escrever exatamente entre essas duas armadilhas gêmeas.

8. Assim sua escrita também, não apenas seu discurso, declara: Noli me frangere, não estilhaces minha insistência, meu murmúrio, não estarias te aproximando do fragmento: ele já precedeu meu gesto e o teu, e os seguirá para sempre, não fales, não escrevas sobre o fragmento, ou muito pouco.

9. Finalmente, é o fragmento, os fragmentos, a exigência fragmentária, que diz Noli me frangere, preservando assim nenhum átomo puro, nenhuma obra indivisível, mas, muito simplesmente, permanecendo sem relação com operação alguma, em sentido algum, sendo o fragmento indestrutível, o que significa que a destruição está assegurada e que essa segurança não é segurança, não, em todo caso, para saber algum, sujeito algum.

10. Alguém escreve, alguém lê, pessoas conversam, algo toma forma, faz sentido, completa-se numa obra ou em fragmentos, numa obra, isto é, em fragmentos, e é indestrutível: uma conversa tanto quanto um poema, sendo o indestrutível a própria fragilidade, mais atenuada, mais trêmula, mais insustentável, insuportável, que qualquer fragmentação, a fragilidade que habita o falar ou o escrever, no abrir a boca, no traçar uma palavra.

11. Ali e então se estilhaça, em nenhum outro lugar, em nenhum outro momento, a fragilidade de um corpo glorioso, nem transcendente nem imanente, nem teu nem meu, nem corpo nem mente, estilhaça uma garganta ou uma mão, surgindo uma palavra, um discurso, um canto, uma escrita, não deixando o corpo glorioso jamais de repetir essa ordem tão frágil quanto uma súplica: Noli me frangere.

Diálogo

12. — Pois bem? — Estou dividido, hesitando… Noli me frangere, tudo bem, mas é um pouco… não toque, está quebrado, e depois tem esse aspecto especulativo, à Sully Prudhomme… — Não exageremos.

13. — Não, evidentemente, porque, ao mesmo tempo, é o polo não irônico, ou ainda mais o polo irônico, do meu Schweben, então reconheço algo ali. O que me impressiona, creio, é o quanto o fragmento está ligado a uma emoção do pensamento. — Isto é…?

14. — É difícil, evidentemente penso no sentimental, tanto no sentido trivial quanto no sentido de Schiller, que também contém o sentido trivial, portanto também penso no subjetivo, no sujeito-pensamento, cujo corpo, a escrita, treme por, e é movido por, sua fragilidade, que é como a criança que a infância abandona no momento em que a criança abre a boca para falar, para lamentar esse abandono, é a tua última súplica.

15. — Ou o chant romantique, tal como Barthes o definiu: o sujeito abandonado, talvez o fragmento não esteja tão distante do Lied, mas nos românticos, evidentemente, e já em Schiller, há outra coisa, sendo o Sentimental o que tentamos analisar em O Absoluto Literário como o processo de infinitização: é a matriz da dialética especulativa, mas é também o movimento do excesso, não parando o subjetivo jamais de se superar.

16. — A música, também, ao menos para mim… — E o teu émoi, que seria aqui melhor que emoção. — Sem dúvida, contanto que se mantenha o sentido estrito, a perda de meios, ou se mantenha o Witz, é-moi, fora do ego, mas não deve ser Et-moi! e eu!

17. — Precisamente, Witz… — Sim, há pouco, era isso também que eu pensava: o fragmento como espasmo do pensamento, hoje, naturalmente, falaríamos imediatamente de gozo, prazer, orgasmo. — E por que não?

18. — Sim, afinal, por que não? Na perda que o gozo implica, há certamente um movimento irreprimível de súplica, mas a súplica é contraditória: tanto toca-me, desfaz-me, quanto não me toques, ajuda-me, protege-me.

19. — O fragmento seria então um momento de gozo no pensamento, mas momento, quando se pensa no uso dialético da palavra — — Exatamente: se teu Noli me frangere está certo, e creio que está, é ainda o que faz do gozo um momento, de fato, desde o início, foi ali que hesitei, tenho a impressão de que esses fragmentos consolidam, paradoxalmente, uma especulação sobre o fragmento.

20. — É bem possível, eu mesmo tive sentimento semelhante, mas vagamente, terás que explicar. — Isso não se pode improvisar. — Então escreve-o! Decidimos assinar juntos este texto, por que não seguir os fragmentos com um diálogo, ao estilo do Gesprach, apenas mais curto? — É isso, dançaremos à beira do abismo! — Bem, onde estamos agora… — Realmente, quem sabe? Pode não ser a pior maneira de escapar da armadilha especular. — Pois bem, então, meu caro Lothario! À tua pena! Cobre uma ou duas dessas folhinhas que tanto gostas com teu rabisco divino, dar-me-ei o prazer, e o dever, de te responder. — Podemos sempre tentar.

LOTHARIO

21. Acho bastante difícil, caro Ludovico, não ver em tua série de fragmentos um verdadeiro discurso em miniatura, com sua própria composição, sua introdução, sua demonstração bem articulada, sua conclusão retumbante, como o gênero exige, ocultando habilmente uma retórica poderosa, isto é, no caso, uma dialética poderosa, ocultando-a ao notá-la, de tal modo que esses fragmentos sobre a fragmentação (impossível) são propriamente falando um discurso sobre o discurso, sobre a dialética indestrutível.

22. Longe de mim censurar-te: sei tão bem quanto tu a vigilância extrema necessária nessas matérias, havendo tantas repetições fracas da escrita romântica em nossos dias, tantas especulações miméticas fracas! E além disso, sou grato por conceder a Blanchot o crédito de ter evitado, ou sabido evitar?, as armadilhas gêmeas da superdialetização e da superfragmentação, mas uma dialética, mesmo suplementar, mesmo negativa, permanece uma dialética, isto é, uma economia.

23. Principalmente, não compreendo muito bem a frase de Blanchot na qual baseias tuas observações, parecendo-te essa frase, se te sigo, a melhor tradução de exigência fragmentária, em oposição à vontade fragmentária dos românticos, o que não compreendo muito bem é a frase manter-se como a energia de desaparecer, esse tipo de suprassunção negativa que seria sem sentido se não fosse precisamente uma energia mantida, posta em obra, havendo ainda ali uma vontade, podendo alguma ser evitada?, e portanto provavelmente cálculo também, a astúcia de um cálculo último: o do incalculável.

24. É tua dialética indestrutível que profere o Noli me frangere… De minha parte, perguntaria, mais francamente, se não é a própria energia, a vontade de obra, que dá origem à fragmentação, a paixão implacável rumo à obra, sendo isso, exemplarmente, mas aquém de sua vontade fragmentária, o que ocorre em Schlegel e em todos aqueles que simplesmente sofreram fragmentação, uma fragmentação que não desejaram.

LUDOVICO

25. Leste-me muito bem, Lothario, tão bem quanto talvez tenhas mal compreendido uma de minhas intenções, e pela mesma razão, sendo de fato verdade que meus fragmentos são um discurso, acrescentarei que a mise en abîme, tão tentadora, tão insidiosa e urgente, do fragmento deveria, a meu ver, exibir a reconstituição irresistível do discurso, à qual a vontade fragmentária não escapa, e, mais ainda, à qual cede de antemão, sem saber.

26. Mas é também nesse aspecto que Blanchot me surpreendeu e interrompeu um primeiro rascunho no qual eu tentava expressamente discursar, pois encontrava, em passagens como a que citei, uma singular ressurgência dialética e, muito precisamente, como dizes, a manutenção de uma mira em direção à obra, sendo, como o Espírito hegeliano, a energia da obra, se me perdoares essa expressão redundante, o que parece manter-se aqui na morte fragmentária.

27. Que Blanchot, nesse caso, escreva bem ao lado da dialética também significa precisamente que repete, se quiser, seus contornos externos, e significa que, desse modo, todos pedimos para não sermos estilhaçados.

28. Mas ao mesmo tempo tentava ler ou ouvir a mesma dialética como a admissão, não a vontade, de uma fragilidade do discurso, que o discurso admite mesmo enquanto suplica ser poupado, sendo energia palavra tão estranha nesse contexto que é sem dúvida necessário dar-lhe também o sentido, se é um sentido, de uma renúncia à energia.

29. Quis falar de dialética negativa no sentido em que Adorno escreve: a dialética é a consciência rigorosa da não-identidade, sendo o livro de Adorno também, à sua maneira, escrito em fragmentos, sem vontade visível de fragmentar, mas pelo efeito, parece-me, de uma atenção extrema, quase insuportável, à oposição aguda, em Hegel, entre a dialética e o ponto de vista da consciência, que traz de volta à sua identidade tudo o que difere de si mesmo.

30. Adorno tenta, não digo que consiga, isso não faria sentido, não manter a contradição mas suportar sua ruptura, o negativo em Adorno e o fragmento em Blanchot tentam converter-se do domínio à provação, apesar de tudo, como se houvesse um espaço além de Hegel e do absoluto romântico, nosso além, não um passo além, como bem sabes, onde nada mais é desejado, mas onde se trata de experimentar a não-identidade, de suportar assim o peso do pensamento e da escrita.

31. E esse espaço começa, paradoxalmente, no coração da identidade, onde discurso e consciência suplicam Noli me frangere e assim admitem que já há fragmentação, que uma interrupção ou suspensão ocorreu, que não envolveu totalidade alguma, e que não estilhaçou unidade alguma, já que a unidade jamais é alcançada, um fragmento que fragmenta, nada, mas não sei se compreendo essa provação da mesma maneira que compreendes o fato de sofrer fragmentação…

LOTHARIO

32. Sofrer, tal como entendo o termo, aponta para passividade, mas a palavra que tu próprio usas, provação, cai-me perfeitamente bem, e tudo o que sugeres sobre tal provação, creio poder fazer meu, não apenas subscrever, creio saber, sem saber algum, o que é suportar a não-identidade, estar condenado a essa suspensão, a essa ruptura ou cesura que sempre já ocorreu, como o que nunca ocorreu, reconhecendo isso como o difícil, o impraticável, como dor, dizendo em meu pathos, nem sempre tão distante do teu: escreve, pensa, nada acontece.

33. É assim, parece-me, que a desconexão se produz, sem produção, Adorno de novo: penso na acuidade extrema de sua análise da parataxe na poesia tardia de Hölderlin, que de modo algum buscou a ruptura, embora, em plena consciência, tenha recusado a síntese dialética, conceitual, quando falei de sofrer fragmentação, pensava de fato nele.

34. Mas o estranho em tudo isso é que frequentemente me censuraste, ou ao menos frequentemente ficaste maravilhado, maliciosamente, com aquilo que chamas minha tendência ao misticismo, e tu, meu caro amigo? E essa admissão, essa súplica, esse poupa-me? Quando eu próprio não ousava mais dizer-te quão perturbador achava o modo de Benjamin apropriar-se da proposição de Malebranche sobre a atenção e infligi-la para descrever a escrita ou o pensamento como uma forma de oração.

35. Há certamente um mal-entendido entre nós, está no lugar que apontas, mas não apenas ali, e, para retomar a bola, prefiro falar, já que estamos nisso, de mal-estar, vês, o que realmente me incomoda, e talvez tivesse sido melhor dizê-lo desde o início, é tua referência ao corpo glorioso, acho a ressurreição, em qualquer registro, místico, especulativo, completamente impenetrável, jamais encontrei nada no cristianismo mais escandaloso.

36. É por isso que meu misticismo, se é isso que é, o que muito e profundamente duvido, tem pouco a ver com o tipo de teologia negativa que pareces ali desenvolver e cuja positividade absoluta não posso deixar de suspeitar, o que me incomoda, enfim, é que, com uma torção extra de lógica ou retórica, como que arrastado por um movimento do que hoje se chamaria maximalização, reforças o misticismo do fragmento sob o pretexto de combatê-lo.

37. Se não encontramos solução alguma para a fragmentação, e aqui concordo bastante contigo, isso não é por causa da injunção silenciosa, e terrivelmente eloquente, do corpo glorioso da escrita, sendo a indecisão uma pobre experiência.

LUDOVICO

38. Uma pobre experiência… tenho realmente de te conceder isso, ou antes, nada tenho a te conceder aqui, como se fosse questão de opor tese a tese, falas de algo em que ou através do qual todas as teses e posições do discurso ruem, mas silenciosamente, ou com um murmúrio persistente, ocultando até o evento desse colapso.

39. Blanchot, escrevendo sobre a escrita e sobre o pensamento, jamais deixou de assombrar essas regiões, sentindo-se o colapso, e dificilmente podendo ser expresso, muito menos justificado, sendo isso o que acontece: há um esgotamento do discurso, um esgotamento da linguagem, que jamais pode ser conhecido ou reconhecido, embora deva ainda dizer-se que a falha em reconhecê-lo condena o discurso à futilidade.

40. Isso não é misticismo do inefável, pois não contém segredo algum de um sentido oculto, de uma Palavra além das palavras, sendo antes um misticismo da fragilidade através da qual apenas se revela aquilo que me perdoarás por chamar, apesar de tudo, uma verdade na fala humana, não havendo outra verdade, como vês, não rejeito a palavra misticismo, ao contrário, colocá-la-ei, para ecoar tua oração, sob o patrocínio de um ensinamento místico, o de Mestre Eckhart.

41. Se isso ainda cheira demasiado a teologia negativa, e já que a articulação, e o discurso, da diferença muito real da teologia negativa em relação ao misticismo seria certamente tarefa infinita, então devo fazer-te uma confissão, Lothario, sobre meu corpo glorioso, não deduzi o discurso desses fragmentos do pensamento de um corpo glorioso, ao contrário, a frase dos Evangelhos veio primeiro, sozinha, a meu ouvido.

42. Noli me tangere, naquele latim impregnado das antigas sonoridades da Igreja, num tom de salmodia e recitação sagrada, não saberia dizer-te por quê, poderia ser que A Escrita do Desastre, tendo interrompido meu trabalho, tendo-me tocado do modo complexo de que te falei, me fez dizer não me toques? Não sei.

43. Mas essa frase se impôs, junto com a memória vaga de uma narrativa, da qual agora te lembrarei: Maria Madalena vai ao túmulo e, vendo Jesus, de pé, não o reconhece, diz-lhe Jesus: Maria! Virando-se, diz-lhe ela, em hebraico, Rabôni!, que significa Mestre! Diz-lhe Jesus: não me toques, pois ainda não subi a meu Pai; mas vai a meus irmãos.

44. Podes sentir quanto essa história, que só João relata, é feita inteiramente de uma fragilidade extrema, perseguida, sendo uma provação, uma alegria e um desaparecimento ao mesmo tempo, brilhando aqui o corpo glorioso que te perturba com uma glória tão pobre que nem é reconhecida nem nomeada como tal.

45. Admito que não rejeitei o que uma frase frágil, um fragmento de som e sentido, assim me trouxe, mas o corpo glorioso, como escrevi, nada oferece para conhecer ou tocar, está ali, e escapa, não é tanto que eu quisesse criar uma alegoria da escrita quanto que senti como essa frase e essa história, seu sentido espiritual e emoção fugaz, estavam suspensas, fragmentadas, instantaneamente.

46. E a ideia glória, de um brilho invisível… creio que sempre se escreve não apenas pela glória mas também nessa glória oculta, falei-te há pouco do peso do pensamento: na palavra hebraica que exprime a glória bíblica há a ideia de um peso, de uma pesadez…

LOTHARIO

47. Esse corpus, se ouso dizê-lo, não me é muito familiar, sabes disso: esqueci realmente bastante, exceto, contudo, essa figura de Maria Madalena, que, por toda sorte de razões, algumas menos admissíveis que outras, sempre me foi, como dizer?, muito próxima.

48. É estranho, aliás, não sabia que ela estava implicada nesse assunto do Noli me tangere, estranho e, de certo ângulo, perturbador, sugestivo, talvez essa estranheza venha do fato de que, para mim, ela é antes de tudo uma figura secreta e enigmática de pinturas, ou, se preferires, a imagem da mulher associada, memória imemorial, à luz de La Tour, sendo de fato minha imagem do amor, ou do belo em si.

49. Mas, como suspeitas, isso nada tem a ver com glória, com esplendor, que para mim é inseparável, rirás, da Contrarreforma, do Barroco, desde Platão, o belo tem sido uma explosão de luz, mas há dois tipos de tais explosões, e a ostentação, um dos sentidos do latim gloria, me incomoda um pouco.

LUDOVICO

50. Ouso dizer que não me incomoda? Devo dizê-lo, por minha conta e risco, não a defendo, e não a oponho à explosão de luz contida, evanescente, inteiramente interior que pareces querer dizer, direi antes que, para mim, a fragmentação está ligada a isto: que não há, ou já não há, interioridade, e, consequentemente, está ligada de fato a algo do Barroco.

51. A passividade de que ambos falamos pode ser concentrada ou dispersa, talvez eu seja incapaz de deixá-la concentrar-se, e assim a vejo dispersar-se na fragmentação barroca sobre a qual Benjamin soube falar, o Benjamin da Origem do Drama Barroco Alemão, tendo o Romantismo sem dúvida misturado, em proporção variável, os dois tipos de fragmentação.

52. O Barroco emerge da perda da totalidade orgânica como interioridade e entrega-se ao caráter incompleto, estilhaçado, da physis sensível e bela, encontrando-se evidentemente a escrita, na própria ruptura e em seus intervalos, nas imobilizações bruscas e nas simultaneidades surpreendentes, no jogo de espelhos e superfícies cintilantes, também preocupada, de boa vontade, em desenvolver sua própria energia.

53. Reivindicarei para a escrita, não para mim, mas para a literatura, nada menos que o risco dessa boa vontade e o acaso de que a escrita possa estilhaçar-se, explodir, havendo certamente algo do Witz aqui, sendo o Witz, jogo, achado casual, encontros com o incongruente, muito próximo da dialética, como já escrevemos.

54. Lembrar-te-ás também que Heidegger, em seu Schelling, fala de uma transposição romântica da dialética idealista, mas o Witz não está ausente da escrita, apenas não pode ser comandado, e nisso, creio, concordamos, um fracasso conspícuo da vontade, ou do projeto, faz a fragmentação, ou a escrita, entregando-me a uma espécie de devastação, aliás brilhante, da qual o jogo não é excluído, o jogo do ridículo ou do regozijo.

55. Pareces-me, neste ponto, cair na contemplação, e devo admitir que a contemplação é o que esqueci, ou nunca conheci, e isso, sem dúvida, é apenas sinal dos tempos… não posso, finalmente, dissociar o fragmento do fechamento do mundo moderno.

56. — Pois bem, aí está, tenho a impressão de que é melhor deixarmos assim, e, curiosamente, penso que com esse método acabei dizendo exatamente o que queria dizer. — E o fragmento póstumo de Schlegel que mencionaste, não fizeste nada com ele? — Não, encaixá-lo direito ter-me-ia levado longe demais, e isto já é bastante longo assim. — O que dizia esse fragmento? Ainda podemos colocá-lo no pequeno diálogo do final. — Aqui está.

57. — A atividade pela qual a consciência melhor se revela como fragmento… — É Bruchstück, pedaço. Ele não diz fragmento… — …é Witz, cuja essência consiste precisamente em ser dilacerado… — É bom, mas… — Mas? — Mas a dialética atacou de novo. — Sim e não.

58. — De qualquer forma, no teu texto, funciona, mas quando penso que, bem ali no final, me atingiste com interioridade, com contemplação! E se eu te tivesse atingido de volta, com piedade? Contive-me de elaborar um Ad majorem scriptionis, ou cogitationis, gloriam… Mas sejamos sérios, não sei se é isso que realmente tentavas dizer, mas quando falas do fragmento como sinal do fechamento do mundo moderno, parece-me que estás tocando em algo verdadeiro.

59. — Quis dizer que o fragmento, mesmo em Blanchot, é demasiado a marca do moderno, sendo impossível separá-lo da modernidade… — De Nietzsche, por exemplo, que desempenha papel importante nas origens da escrita fragmentária de Blanchot, em suma, se queres dizer que não há nada a fazer com o fragmento enquanto tal, isto é, em última análise, com o fragmento como gênero… — Sim, mas não com a fragmentação…

60. — Então compreendo perfeitamente, não, o fragmento como gênero ainda é a vontade de fragmentar, com tudo o que isso implica: a literatura, em sua própria delimitação, a letra do sujeito, em Barthes é notável: Montaigne, a recorrência do autorretrato, e quanto ao anonimato e apagamento de si de Blanchot… — Isso é outra coisa, como poderíamos reduzir o anonimato ao autorretrato, mesmo ao autorretrato do sujeito da literatura?

61. — Há literatura e há literatura, e um dia teremos de nos decidir a distingui-las um pouco mais rigorosamente. — Absolutamente! — Falamos muito mais sobre essa questão, naquele dia, e também mais tarde.