VAN REETH, Adèle; NANCY, Jean-Luc. La Jouissance. Québec: Librairie Plon, 2014.
Por que falar do gozo?
Não encontrareis nesta entrevista nem conselhos avisados para gozar melhor, nem a constatação desolada de uma sociedade que identificaria o gozo com a absorção glutona de bens e prazeres, nem a pretensão de dar razão ou desrazão àqueles que já pensaram os vícios e as virtudes do fruir.
Na discussão que se segue, fomos conduzidos por uma curiosidade comum e por um interesse tão previsível quanto incongruente. Previsível, porque já não é tabu para o pensamento contemporâneo falar de sexualidade (desde Freud e Bataille, entre outros), e, no entanto, incongruente, porque o gozo não é o motivo dominante desses pensamentos que consideram a relação sexual sem levar em conta esse acontecimento que é o fruir. Previsível, ainda, porque a palavra “gozo” passou a designar, de modo privilegiado, menos o fruir sexual do que o ápice daquilo que há muito se denomina consumo, compreendido como a apropriação de bens e de satisfações. Mas incongruente, pois não se tratará precisamente de empregar esse termo para estigmatizar uma economia e uma ideologia, e sim de reapreender essa experiência que atua como motor individual e coletivo, e que foi, ora sucessiva, ora simultaneamente, louvada e condenada.
Pensamos que, com o gozo, propõe-se um importante motivo de reflexão. Se não esteve presente como tal no cenário filosófico durante muito tempo, não deixou de sê-lo, e de maneira bastante explícita, em Platão, assim como o foi, em seguida, de modos menos visíveis, mas não menos vigorosos, nos pensamentos do amor, das paixões e dos prazeres — pensamentos filosóficos, místicos, poéticos e literários, aos quais concedemos amplo espaço nesta entrevista. Escolhemos igualmente abordar de frente os desdobramentos políticos suscitados pelo fruir, a partir do momento em que este foi tanto objeto de reivindicações (“gozai sem entraves!”) quanto de condenações coletivas.
O que diz, afinal, o que nos diz ou nos dá a entender a palavra “gozo”? Algo talvez inaudito, ou até mesmo inaudível. Isto não é razão para não tentarmos escutar, e foi isso o que nos levou a dialogar.
Adèle Van Reeth - Jean-Luc Nancy