2 Ideia

NANCY, Jean-Luc. Le plaisir au dessin. Paris: Galilée, 2009.

Ideia

1. Impõe-se retomar o problema do que se chama forma, uma vez que o desenho representa por excelência o elemento da forma, ou uma forma - e, como já se sugeriu, não apenas no domínio das artes visuais, mas em todos os domínios artísticos, já que em todos eles se pode discernir um registro, elemento ou valência ao qual a ideia de desenho faz jus, sem que se trate de simples uso metafórico do termo.

2. A forma é a “ideia”, relembrando a palavra escolhida por Platão para designar os modelos inteligíveis do real, significando ideia, para Platão, segundo o termo grego, nada além de “forma visível” - podendo-se acrescentar que o “visível” é o registro primeiro de referência da forma, porque esse registro mantém a forma em primeiro plano, distinta e, desse modo, “formada”, ao passo que, segundo outra distinção, o desenho abre a forma à sua própria formação.

3. Assim como a forma visível da mesa nos apresenta seu uso e sua disponibilidade enquanto mobília, seja para comer, escrever ou subir, também a “ideia” de mesa (tabula rasa, tábua de multiplicação, tablatura) carrega o sentido de uma disponibilidade geral para… a própria disponibilidade, ou seja, a forma de uma superfície sobre a qual as coisas se dispõem, o modo como a forma vem à evidência e à presença.

4. Deve-se compreender que “sentido ou verdade” - empregados aqui como equivalentes - estão longe de constituir simplesmente a “inteligibilidade” do sensível, sendo essa inteligibilidade, ao mesmo tempo, nada além de uma apreensão mais exigente e mais intensa da própria propriedade sensível, podendo-se ainda dizer, ao distinguir esses dois termos, que a verdade é o ponto ou o momento de interrupção do movimento e da abertura do sentido.

5. Por essa razão a palavra desenho assumiu desde cedo, se não exatamente o significado, ao menos o valor associado a um esboço ou a um estudo, tendo Roger de Piles, em A Arte da Pintura, um capítulo “Sobre os Desenhos” que principia afirmando que os Desenhos de que ali se trata são os Pensamentos que os Pintores costumam expressar sobre o papel a fim de executar a Obra que planejam, devendo-se contar entre os Desenhos os estudos feitos pelos Grandes Mestres, isto é, as Partes que desenharam segundo a Natureza, tais como cabeças, mãos, pés e Figuras inteiras, Draperias, Animais, Árvores, Plantas, Flores e, enfim, tudo o que entra na Composição de um Quadro.

6. A matéria - para relembrar palavra que permanece inseparável da “forma” - é o nome da resistência da forma à sua deformação, não sendo um “conteúdo” informe que a forma venha moldar ou modelar, mas antes a espessura, a textura e a força da própria forma, questão à qual se voltará adiante para compreender como cor e desenho não são tão exteriores um ao outro quanto se poderia crer, mesmo permanecendo irredutíveis e insubstituíveis.

Caderno de Esboços 2

“Com carvão, ele marcava na parede as ideias das coisas conforme lhe vinham à mente; é costume das mentes agudas e imaginativas amontoar pensamentos sobre pensamentos a respeito do mesmo assunto.”
“desenho [dessein], que significa a meta, o objetivo, o fim e a mira da ação. Mas significa também um projeto, um plano, ou o retrato de algumas figuras, o esboço de uma superfície pictórica plana ou em relevo que se quer criar: palavra comum entre Pintores, Estatuários e outros artesãos semelhantes que desenham ou esboçam.”
Trata-se da diferença entre a literatura e a pintura quanto ao efeito que pode ser produzido pelo esboço grosseiro de um pensamento, ou seja, da impossibilidade, na literatura, de se fazer um esboço que transmita uma ideia ao espírito, e da força com que uma ideia pode ser enunciada no esboço grosseiro do pintor, ou em seu primeiro rascunho, devendo a música ser como a literatura, provindo essa diferença entre o desenho e as outras artes do fato de que, nestas, as ideias se desenvolvem em sucessão, ao passo que toda a impressão de uma composição pictórica pode se resumir em três ou quatro linhas.
“O que se chama 'bom desenho' é aquilo em que nada pode ser alterado sem destruir essa vida interior, independentemente de esse desenho contradizer a anatomia, a botânica ou qualquer outra ciência.”