Soberania

NANCY, Jean-Luc. The creation of the world, or, Globalization. Tr. François Raffoul e David Pettigrew. Albany: State University of New York Press, 2007.

** Ex Nihilo Summum (Da Soberania) **

1. A soberania designa, primeiro, o cume.

2. Segue-se também dessa história que a soberania não é primeiramente a qualidade de estar no cume, mas o próprio cume (termo que tem sentido botânico e também acadêmico), o cume, o soberano: não tem o sentido de um atributo, mas o de substância de um sujeito cujo ser consiste em altura.

3. O mais alto domina propriamente apenas segundo o sentido militar indicado pelo exemplo da “grande torre”: do alto é mais fácil vigiar e golpear o que está embaixo.

4. O soberano está na altura porque a altura separa o alto do baixo e liberta o primeiro da humildade do segundo: do humus, das costas curvadas pelo trabalho da terra, do deitar-se no sono, da doença ou da morte e das coisas extensas em geral.

5. O soberano é elevado porque a altura separa.

6. Como cume (summum, supremus), o soberano não é apenas elevado: é o mais alto.

7. O soberano é o mais alto, é a extremidade da elevação: é o Altíssimo.

8. O Altíssimo é aquele ou aquilo para o qual a própria cabeça não pode voltar-se sem imediatamente tombar do eixo que a liga ao corpo.

9. O Altíssimo só pode produzir uma coisa: vertigem.

10. O soberano teve um certo gêmeo na linguagem e no pensamento: o suserano.

11. O suserano ocupa uma certa altura dentro de um sistema ordenado.

12. O mais velho não é o mais alto: a sucessão das idades depende da natureza, não define — não exatamente ou inteiramente — uma diferença do mesmo modo que a altura.

13. No caso da soberania, ao contrário, é o poder que funda e forma o vínculo.

14. A ordem feudal está ela mesma subordinada a uma autoridade que supera qualquer suserano: a do único senhor que merece o título em sentido absoluto, Nosso Senhor, o Todo-Poderoso, criador e redentor do mundo.

15. Por essa razão o mundo inteiro se tornará súdito e os vassalos mais baixos não terão mais servos abaixo de si, servos presos à gleba.

16. O súdito do soberano pode ser entendido de duas maneiras: como aquele que é submetido à autoridade do soberano, ou como aquele que cria e autoriza essa autoridade.

17. Esse exercício nada mais é que o estabelecimento do Estado e de sua lei, ou da lei que faz um Estado.

18. Onde a autoridade divina operava entre criador e criatura — isto é, através de uma diferença absoluta de natureza, mas onde a criatura vinha do ato do criador —, aí a diferença desaparece em favor de uma identidade excepcional, que é precisamente a do soberano.

19. O soberano é uma relação consigo mesmo (consigo mesmo como à lei), e é apenas isso (enquanto o criador é essencialmente apenas uma relação ao outro, e o vínculo de lealdade também depende dessa relação).

20. A primeira concerne ao chamado motivo da “secularização”: sem querer entrar no imenso debate em torno desse conceito, sugere-se aqui simplesmente que a soberania moderna (a soberania como conceito moderno, aquela expressamente atribuída a Jean Bodin e também antecipada na obra de Maquiavel) não é a secularização de uma soberania divina, precisamente porque a soberania divina contém, por definição, a razão e o poder supremos que à soberania moderna se atribui a tarefa de dar.

21. A segunda consequência consiste em remeter ao soberano a problemática constitutiva da relação a si ou da autoposição em geral: o si de uma relação a si não pode ser dado antes dessa própria relação, já que é a relação que faz o si (si significa relação a si e não há caso em que haja um sujeito do si).

22. Cada uma dessas implicações contém, por sua vez, várias outras, e em particular:

23. Da primeira, é preciso concluir que Deus, ou o divino, em geral, não pode de modo algum ser “secularizado”, já que “secularidade” designa a ordem exterior à divindade, que só pode ser compreendida em um regime de distinção (ou mortal/imortal, ou século/eternidade, ou mundo/reino de Deus).

24. Do que precede, concluir-se-á também que a possibilidade das distinções assim apresentadas pertence à articulação ocidental-monoteísta do “divino”: no que se chama “politeísmo” não há separação entre política e religião (em certo sentido, poder-se-ia dizer que não há nem uma nem outra); para o monoteísmo, ao contrário, há uma tensão entre a separação das duas e o apagamento de uma pela outra.

25. Da segunda implicação, concluir-se-á que a soberania só pode ser definida como uma instituição (no sentido ativo e transitivo do termo, e aqui precisamente como instituição de si) — uma instituição infinita que no entanto inclui em si a necessidade imperiosa do momento finito de sua instituição (desta vez nos sentidos conjuntivos do instituinte e do instituído): há portanto uma contradição íntima da soberania e, através dela, da política moderna (isto é, teológica), que é talvez também, como se acabou de sugerir, a política pura e simples.

26. A soberania do povo designa muito claramente, na obra de Rousseau, o estado mais radical da contradição soberana: em distinção do monarca, que poderia esconder-se atrás de uma referência divina, por mais formal que fosse, como soberano o povo deve ser entendido como o sujeito ou o corpo que se forma: tal é o objeto do contrato que se torna, em Rousseau, além de um pacto de segurança, a própria instituição dos contratantes e de seu corpo, em outras palavras, a própria humanidade tal como é enunciada no Contrato Social.

27. Nesse sentido, a questão política moderna poderia ser reduzida à questão da soberania: não define ela o impasse político por excelência como o impasse da subjetividade?

28. A própria soberania, como cume, põe o problema da natureza do cume.

29. É o cume a região, tangente ao céu, onde a elevação se dá, inverte a ascensão em descida e, assim retornando sobre si mesma, liga sua altura ao solo, dando-lhe assim tanto seu equilíbrio quanto sua dimensão?

30. Na primeira hipótese, o cume subsume e assume a base que, afinal, é sua base, o fundamento e o assento de seu próprio ser.

31. E uma vez que se falou de capital: nessa acepção, o cume é o mesmo que o capital?

32. Na segunda hipótese, a soberania é essencialmente diferente do senhorio, segundo o modo de pensar que foi, até o paroxismo, o de Bataille.

33. Sob essas condições o soberano é aquele que se destacou do senhorio e de sua servilidade fundamental.

34. Essa altura é portanto altitude em si, elevação que ascendeu ao cume sem que a ascensão represente qualquer processo de acumulação ou conquista, qualquer progressão em direção a um fim.

35. Não sendo nada [rien] ou, ainda mais precisamente, sendo nada, a soberania é no entanto alguma coisa: é essa coisa muito particular que o nada [rien] é.

36. Por outro lado, nada [rien] é a coisa mesma, res: o primeiro sentido de “nada” é “alguma coisa” (por exemplo, ainda hoje dizemos: “Não é possível pensar nada sobre algo que nada sabemos”, onde claramente ouvimos “alguma coisa”).

37. Aquilo que é nada é o que subsiste aquém ou além da subsistência, da substância e do sujeito.

38. O soberano é o existente que não depende de nada — nenhuma finalidade, nenhuma ordem de produção ou sujeição, quer se trate do agente ou do paciente, da causa ou do efeito.

39. Nada como cume, ápice ou altura da existência: separado do existente mesmo.

40. A soberania essencialmente escapa ao soberano.

41. Se a soberania não escapasse a ele, o soberano de modo algum [en rien] seria soberano.

42. A mesma condição que faz com que a soberania receba seu conceito também a priva de seu poder: isto é, a ausência de autoridade superior ou fundadora.

43. Com base nisso, se o soberano exerce seu poder, é inteiramente sob a condição do “estado de exceção” onde as leis são suspensas.

44. Qual é então a onipotência do povo?

45. Se a soberania não é uma substância que é dada, é porque é a realidade que o povo deve dar a si mesmo, na medida em que ele não é, ele mesmo, uma substância ou um sujeito dado.

46. Como o mais alto, o absolutamente alto, o soberano se destaca do fundo.

47. O soberano e o fundador são correlatos e conjugados como dois absolutos ou dois lados ou momentos do mesmo absoluto.

48. A ambiguidade da violência soberana está entre essas duas lâminas, do arado ou da espada, ou no fato de que a mesma lâmina pode servir a ambos os propósitos.

49. Hoje, porém, não estamos nessa ambiguidade: não somos capazes de apreender uma violência fundadora (ou o que poderia ser sua prolongação: uma guerra que se poderia chamar “justa” — quer seja uma guerra externa — entre soberanias estabelecidas — quer uma guerra civil — a fim de retomar ou refundar uma soberania).

50. De modo paralelo, o capital não precisa mais de fronteiras — ao menos de muitas delas, e o que substitui as fronteiras é da ordem de uma delimitação de “zonas”, que são de outra ordem.

51. Posta em termos marxianos, a questão é saber se, como e quando o processo do capital torna necessário e possível, não a restauração da soberania estatal, mas a reivindicação da soberania em suas raízes, que é nada e nesse nada a coisa mesma, que precisamente não é uma raiz mas o cume, a radicalidade invertida do cume intransigente, inconsistente e absolutamente resistente: o cume como ex nihilo, de onde um mundo pode emergir — ou seu contrário.

52. Ou talvez se trate — em outros termos ou deslocando ligeiramente o problema — de separar a política da soberania.

53. Isto é, tratar-se-ia então de assumir que “política” não designa mais a assunção de um sujeito ou em um sujeito (quer individual ou coletivo, quer concebido como unidade orgânica natural, quer como entidade espiritual, como Ideia ou como Destino), mas designa a ordem da regulação sem sujeito da relação entre sujeitos: tão individuais quanto coletivos ou comunitários, grupos de diferentes tipos, famílias de diferentes espécies, grupos de interesse, quer de trabalho ou de lazer, afinidades locais ou morais, etc.

54. A ordem política definiria sua regulação por uma igualdade e por uma justiça que não postulariam uma assunção de um sujeito.

55. É preciso considerar o seguinte:

56. A invenção da soberania decididamente não foi a transcrição secularizada de uma teologia política, mas a criação de uma assunção teológica (ecoando, sem dúvida, algo da pólis grega e da República romana, mas sem o recurso de uma religião da pólis e sem escravidão — e em um contexto geralmente ateísta e capitalista): essa assunção postulava ambas, sem sabê-lo, a instituição do Estado (autoestabilidade) e a dissolução desse Estado (ou aparato) em uma comunidade — uma postulação contraditória cuja dissolução estamos enfrentando.

57. A situação atual é a de ter de reinventar a política de outro modo, reconsiderando-a com base em seu duplo retraimento, na gestão da “sociedade civil” (ela mesma saída de uma deiscência da civitas) e/ou na assunção de um ser comum (sentido destinal e ontológico da “política”).

58. Nenhum desses retraimentos garante uma política: mas produzem, por um lado, uma “gestão” que nada gere e, por outro, a paranoia da identidade, que demole todas as identidades.

59. A dificuldade é conceber a política sem um sujeito: não sem autoridade ou poder de decisão — mas sem um si que colha, no fim, os benefícios de sua ação.

60. Neste ponto a perspectiva se inverte: a “pessoa do nada” (que não pode então ser nem um puro nada nem “ninguém”) ou a “agência não subjetiva” (que no entanto não pode ser um objeto).

61. Não basta, com efeito, designar a política como órgão regulador da justiça e da igualdade entre as esferas desiguais e heterogêneas da existência comum (aceitando que “existência comum” é um pleonasmo).

** Post-Scriptum **

62. Do que precede, deve seguir-se que a soberania instituinte não pode ela mesma ser instituída.

** P.-S.2 **

63. A forma apolítica da política contemporânea (a passagem ao limite do Estado) já foi várias vezes nomeada “Império” (assim como o imperialismo foi ligado ao desenvolvimento do capitalismo, e não apenas na época contemporânea mas desde o précapitalismo da Antiguidade).

** P.-S.3 **

64. Um fragmento.

** P.-S.4 **

65. E se a soberania fosse a revolta do povo?

** 3 **

** Cosmos Basileus **

66. A unidade de um mundo não é uma: é feita de uma diversidade, incluindo disparidade e oposição.

67. A partilha do mundo é a lei do mundo.

68. Mas apropriado em que sentido?

69. “Justiça” designa o que deve ser rendido (como se diz em francês, rendre justice).

70. O que é apropriado é portanto definido pela medida própria a cada existente e à comunidade infinita, indefinidamente aberta, circulante e transformadora (ou comunicação, contágio, contato) de todas as existências entre si.

71. Não se trata de uma dupla apropriação.

72. A coexistência permanece a igual distância entre justaposição e integração.

73. A existência não se faz sozinha, se assim se pode dizer.

74. A justiça é portanto o retorno a cada existente de seu devido segundo sua criação única, singular em sua coexistência com todas as outras criações.

75. A justiça deve ser rendida à linha do próprio, ao seu corte cada vez apropriado — um corte que não corta e que não se ergue de um fundo, mas um corte comum que em um só golpe separa e faz contato, uma coexistência cujo entrelaçamento indefinido é o único fundamento sobre o qual se ergue a “forma” da existência.

76. Para cada um seu horizonte mais apropriado é também sua proximidade com o outro horizonte: o do coexistente, de todos os coexistentes, da totalidade coexistente.

77. A justiça deve portanto ser rendida tanto à absolutez singular do próprio quanto à impropriedade absoluta da comunidade dos existentes.

78. Esta é uma justiça infinita, consequentemente, que deve ser rendida tanto à propriedade de cada um quanto à impropriedade comum a todos: rendida ao nascimento e à morte, que mantêm entre si a infinidade do sentido.

79. Essa justiça infinita não é visível em lugar nenhum.

80. A justiça não pode ser removida do lodo ou da névoa da injustiça, nem pode ser projetada como uma conversão suprema da injustiça.

81. É por isso que a justiça é sempre também — e talvez primeiro — a exigência de justiça: a queixa e a protestação contra a injustiça, o chamado que clama por justiça, e o fôlego que se esgota por ela.

82. A justiça não vem de fora (que fora?) para pairar sobre o mundo, para repará-lo ou realizá-lo.