3 Tecnologia metafísica

NANCY, Jean-Luc. The creation of the world, or, Globalization. Tr. François Raffoul e David Pettigrew. Albany: State University of New York Press, 2007.

1. A filosofia começa a partir de si mesma: este é um axioma permanente para ela, implícito ou explícito na obra de todos os filósofos, exceto, talvez, Marx — o que resta determinar —, se se pode supor que Marx é de fato um filósofo, o que também resta determinar; em todo caso, a asserção vale claramente de Platão a Heidegger.

2. A filosofia começa como a tecnologia autoprodutiva de seu próprio nome, seu discurso e sua disciplina.

3. Para conceber sua própria proveniência, a filosofia deve escolher uma das seguintes alternativas: ou representa sua proveniência como produto de uma progressão contínua da humanidade, ou a representa como acidente sem condições nem razões.

4. Ao querer-se autoiniciante e portanto autofinalizada — e ao querer-se auto de modo geral, no ser e em não poder ser senão a vontade do auto nos dois sentidos do genitivo —, a filosofia trai e revela a história de um mesmo movimento, se se pode, ao menos, tentar compreender por “história”, de modo provisório, a realidade de um movimento e de uma temporalidade que não estaria dividida entre necessidade teleológica e acidentalidade cega e fechada sobre sua própria descontinuidade.

5. A filosofia trai a história, porque a história, se designa algo, designa acima de tudo não-começo e não-conclusão por si mesma.

6. A história é a ordem do que situa a origem e o fim alhures, em outro tempo — isto é, no próprio tempo, já que ele nada mais é que a alteridade e a alteração do mesmo, ou do mesmo se alterando.

7. Sem pretender enfrentar essas questões como tais, aqui e agora, concordar-se-á talvez que não pode não haver de algum modo uma “história do mundo”, se o mundo acaba por não ter em si mesmo sua origem e seu fim, e mesmo se, e especialmente se, qualquer “fora” do mundo deve ser pensado como nada, e mesmo se, e especialmente se, o sentido do mundo nada mais é que o próprio mundo em sua relação originária e final com um diferimento infinito da origem e do fim naquele nada do qual ele seria a expansão — isto é, o crescimento ou a criação (é a mesma palavra) ou mesmo… a história.

8. Há portanto uma traição do princípio da história e do mundo na autoconstituição e no autocomeço filosóficos.

9. Mas a filosofia, ao mesmo tempo (se é o mesmo tempo, se não é um outro tempo de uma outra história que restaria escrever), revela a história.

10. Ocorre um notável quiasmo no qual o “auto” e o “alo”, o “por si” e o “pelo outro”, trocam continuamente seus lugares.

11. Resultam os seguintes paradoxos: ao mesmo tempo, o espaço-tempo do mythos cai fora da história e se torna o primeiro tempo ou a pré-história da história, doravante perfeitamente problemática, pois está tanto dentro quanto fora da historicidade.

12. A retirada do começo pertence ao autocomeço.

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13. Tal questão é a da metafísica e da tecnologia.

14. A completude da metafísica — seu fim e sua plenitude — acontece na história na medida em que é precisamente a realização da própria possibilidade histórica, ou a realização do “sentido da história” tal como foi reconhecido ao menos desde Nietzsche, mas talvez também, de modo mais complexo, desde o próprio Hegel, e do modo como Husserl e Heidegger tentaram apreendê-lo como problema e como recurso ao mesmo tempo.

15. A possibilidade histórica, propriamente falando, tal como foi produzida em seu curso pela filosofia (ou metafísica: a possibilidade de uma história metafísica e de uma metafísica da história), é a possibilidade de que um processo complete a realização de uma razão, de um fundamento e de uma racionalidade.

16. Nessa elaboração, o que se esgota é o levar à conclusão.

17. Que o esgotamento se esgote — que a história natural se quebre e se desnature — é o que mostra a ruptura que a filosofia realiza por, em ou sobre si mesma: uma ruptura histórica de sua história, que Heidegger chamou de “fim da filosofia” para indicar a profundidade e a seriedade do que na história assim acontece à História, e em virtude do que uma “história do ser” ou uma “destinação” de seus “envios”, talvez mesmo o fim desses envios, só pode, ao menos, ser desnaturada.

18. Consequentemente, se nossa expectativa do futuro está doravante privada de antecipação, de representação e de conceito, ela deve não menos, como um juízo kantiano sem conceito, formar uma postulação de verdade (e/ou de universal) como verdade não dada: a “desnaturação” deve ela mesma ser postulada como a “razão” do processo, dessa história cuja forma é também a de uma errância.

19. Isso significa, acima de tudo, que ela está aberta à questão de sua própria historicidade.

20. O gesto histórico — isto é, tanto o gesto teórico com respeito à “história”, de seu conceito, quanto o gesto prático, ativo, em nosso tempo, a fim de apropriar-se desse tempo, a fim de ereignen uma outra história do mundo — torna-se então necessariamente “desconstrução”.

21. Os começos da filosofia: a palavra deve ser escrita no plural, pois não é possível nomear apenas um, mas tampouco é possível não nomear nenhum.

22. Essa mistura de decisão e indecisão — ou a decisão de pôr-se a si mesma sem que uma decisão seja alcançada sobre si mesma ou sobre a mobilização imediatamente infinita dessa decisão — pode ser analisada de modo mais preciso.

23. A dupla postulação de um retorno ao imemorial e de um avanço ao que não vem designa o que se chama “metafísica”: uma metafísica que se diz “acabada”, apenas para dizer que esgota aquilo que pretende completar tanto sua retrospecção quanto sua prospecção.

24. Segue-se dessas premissas que duas afirmações devem ser sustentadas no mesmo momento: a metafísica é sem começo nem fim, e a metafísica começa e termina.

25. Desde o início, ou mesmo adiante de si mesma, em uma história em curso antes de sua história — entre o décimo segundo e o décimo nono século antes de nossa era —, a filosofia foi a desconstrução dos edifícios de um mundo que abalou o mundo mitológico do sentido dado e da verdade plena e presente.

26. No mundo onde a filosofia nasce, um mundo dentro do qual se desenvolveram várias tecnologias determinadas (ferro, escrita, contabilidade comercial — às quais se retornará), a tragédia começa formando tanto o último testemunho do culto e do sacrifício quanto a primeira atestação de uma fuga de sentidos e do abismo da verdade: francamente, é desse modo que os termos ou os conceitos, ou as questões de sentido e de verdade, são produzidos.

27. Que a metafísica tenha tido lugar não é apenas um fato dado (de facto na história de um povo, ela tem lugar em um dado momento, no espaço mediterrâneo, e é nesse sentido o factum rationis empiricum da filosofia — não sem um analogon oriental, que é dado ao mesmo tempo, constituído pelo budismo ou pelo confucionismo, analogia que exigiria uma longa discussão), mas ainda é essa própria coisa, esse evento que constitui a metafísica.

28. Isto é, a fuga dos Deuses traça ou inicia uma abertura de um sentido sem precedentes: no mesmo gesto, o sentido está em fuga como passado e como por vir — mas no mesmo golpe, “sentido” é precisamente e absolutamente a ideia ou a questão do sentido (e de uma verdade que lhe responda).

29. Se a metafísica começa como uma ciência dos princípios e dos fins, é porque princípios e fins estão riscados [barés], se se pode usar a anfibologia permitida pela gíria, riscados e idos [rayés et partis] (a gíria também sugere talhados [tailles]), ou então, de modo mais elaborado, divididos de e em si mesmos, e portanto…

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30. Ora, essa subtração — essa subtração/adição de sentido que constitui a filosofia a partir de algum lugar (em todo caso, acontece em algum lugar, na contingência de um lugar e de um período, ou de vários lugares e vários períodos) ou por alguma força (cuja própria ocorrência é contingente: nada determina a necessidade do que tem lugar, embora tenha lugar, potencialmente, na escala da humanidade e do mundo).

31. Essa força, em todos os aspectos, é a da tecnologia.

32. Com esse devir humano, esse movimento aparece a si mesmo como seu próprio princípio e seu próprio fim.

33. É na desnaturação que algo como a representação de uma “natureza” pode ser produzido, ou de uma ordem autotélica e portanto não tecnológica, que põe então ao mesmo tempo a extrema dificuldade de conceber como a desnaturação surge da natureza e na natureza (como o animal carente pode ser possível, o animal sem condições fixadas).

34. Tal questionamento torna-se possível, de fato inevitável, assim que um evento desnaturante teve lugar: tal é o evento que nomeamos “tecnologia”, com a filosofia, que é ela mesma o regime autorreferencial e autorreflexivo desse evento.

35. Dizer que houve algo como uma natureza — physis ou natura, aqui não se deve seguir a distinção de Heidegger entre esses nomes, como se ele marcasse a distância de uma natureza mais “natural”, que não teria abrigado a possibilidade da tecnologia humana — só é possível se se contrasta essa natureza com uma não-natureza.

36. O nome de metafísica, que aparece então por acidente, não é de modo algum, no fim, acidental.

37. Se há um “sentido” do mundo segundo a tecnologia, ele só pode ser medido por um padrão incomensurável da não-necessidade e da não-narratividade do mundo (isto é, da totalidade da significância possível), o que também implica sua não-historicidade no sentido metafísico e teoteleológico da palavra história.

38. Há portanto uma precondição que torna possíveis as condições lógicas e filosóficas do acidente ocidental.

39. Rousseau, ao que parece, é o pensador principal — portanto também o mais problemático — dessa inscrição infinitamente torcida da desnaturação na própria natureza, que é também a inscrição da fuga dos deuses.

40. Poder-se-ia também articular cada um dos quatro mostrando que cada um serve como fim para os outros três, de modo que a estrutura permanece sempre aberta e não pode ser totalizada, e que, além disso, cada “fim” é incomensurável com os outros, formando simultaneamente o telos e os limites dos outros.

41. Mas é também, ou primeiro, por isso que a filosofia como tal começa: começa como uma tecnologia do sentido e/ou da verdade.

42. Deve-se portanto perguntar se isso explica por que a filosofia com Sócrates se apresentou de imediato como um diálogo com as tecnologias ou sua interpelação metatecnológica: começando pela sofística, e modelando-se pela matemática, pelas artes do sapateiro, do carpinteiro ou em geral.

43. Poder-se-ia também considerar — e não se pode demorar nisso como seria necessário — a possibilidade, de fato a necessidade de determinar a história das tecnologias até nosso tempo sem lhe dar outro sentido em sua contingência fundamental que a relação indefinida da tecnologia consigo mesma e com a fuga de sua desnaturação.

44. O evento da tecnologia — isto é, para nós, por muito tempo, a história e a metafísica como história — teria assim um sentido em um sentido que não seria nem direcional nem significante: mas no sentido em que se diz que “alguém tem senso de negócios”, por exemplo, ou “senso musical”, ou em geral quando se “tem senso” disto ou daquilo, nesse sentido, então, este seria o senso dos princípios e fins (do ser como tal ou da existência) ali onde, precisamente, nem fim, nem princípios, nem ser são dados ou disponíveis, e onde a existência se expõe, carente de sentido, fazendo dessa carência sua própria verdade.