9 Pensamento

NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.

71. No pensamento do corpo, o corpo força o pensamento sempre mais longe, sempre longe demais: longe demais para que ainda seja pensamento, mas nunca o bastante para que seja corpo, razão pela qual não faz sentido falar de corpo e de pensamento separadamente, como se pudessem ter alguma subsistência cada um por si, não sendo eles senão seu toque mútuo, o toque de sua infração recíproca, sendo esse toque o limite, o espaçamento da existência, tendo, contudo, um nome: “alegria” e “dor” ou “pena”.

72. Esse nome não significa senão o limite de toda significação — a beira mesma, a abordagem do espaçamento —, nada significando, mas expondo a combinatória desses quatro termos: corpo-pensamento-alegria-pena, tocando todas as suas figuras o mesmo afastamento que distribui os quatro.

73. Há ainda um nome dessa combinatória ou dessa distribuição: “sexo”, não sendo o nome de algo que seria exposto, mas o nome de tocar a própria exposição, tocando “sexo” o intocável, sendo o nome-clarão do corpo, o nome que só nomeia ao espaçar primeiro os corpos segundo os clarões dessa estesia suplementar: os sexos, que não se podem nem numerar nem nomear, sendo aqui “dois” apenas o índice de um afastamento polimorfo.

74. “Meu” sexo não é um de ponta a ponta, é contato discreto, aleatório, acontecimental de zonas de “meu” corpo tanto quanto de outros — tornando-se meu corpo outro ao se tocar aí, sendo tocado, tornando-se assim o mesmo, mais absoluto, mais retrincheirado que nunca, mais identificado enquanto ser-lugar do toque, de (a)falo a (a)céfalo, um corpo plano, igual, plural, zoneado, sombreado, tocado, não se devendo nomeá-lo nem “mulher” nem “homem”, pois esses nomes nos deixam entre fantasmas e funções onde precisamente não se trata nem de uns nem de outros.

75. Segue-se disso algumas consequências: a lei do menor contato, ou da piscadela como intensidade já máxima de gozo; a lei da maior superficialidade, aquela em que o corpo vale absolutamente como pele, sem espessura de órgão nem de penetração (os corpos sexuados são invulneráveis, são eternos); a lei conexa segundo a qual não há sexo sem um mínimo de amor, mesmo infinitesimal, nem amor sem sexo, por mais imperceptível que seja; enfim, o sexo como lei, esse imperativo de tocar, de beijar, que nem o impulso da espécie nem mesmo a “libido” explicam, pois esse imperativo não visa nenhum objeto, mas apenas a alegria/a pena de um tocar-se.

76. Tocar-te (e não “a si”) — ou identicamente, tocar-se pele (e não “si”) — eis o pensamento que o corpo força sempre mais longe, sempre longe demais, sendo na verdade o próprio pensamento que aí se força, que aí se disloca, pois todo o peso, toda a gravidade do pensamento — que é ele mesmo uma pesagem — não vai dar em outra coisa senão em consentir aos corpos, um consentimento exasperado.