NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.
Psyche ist ausgedehnt (a psique é extensa)
37. A palavra mais fascinante, e talvez a mais decisiva de Freud, está nesta nota póstuma: “Psyche ist ausgedehnt: weiss nichts davon” (a psique é extensa: nada sabe disso), isto é, a “psique” é corpo, sendo precisamente isso o que lhe escapa, e cuja fuga a constitui enquanto “psique”, na dimensão de um não-(poder/querer)-saber-se.
38. O corpo, ou os corpos, que se trata de tocar pelo pensamento são justamente isso: corpo de “psique”, ser-estendido e fora-de-si da presença-ao-mundo — nascimento como espaçamento, saída da pontualidade, extensão em redes por ectopias múltiplas, dentro/fora, fort/da, geografia do isso, sem mapa nem território, não sendo por acaso que o tópico assombrou Freud: o “inconsciente” é o ser-estendido de Psique.
39. É tanto mais surpreendente que certo discurso da psicanálise pareça se obstinar, em negação de seu objeto, a tornar o corpo “significante” em vez de desmascarar a significação como o que em toda parte serve de anteparo aos espaçamentos dos corpos, sendo assim que a histeria é instituída como exemplar: um corpo saturado de significação — e portanto, mais corpo nenhum.
40. Ao invés disso, gostaria de ver na histeria um parasitismo completo do incorpóreo do sentido pelo corpo, até tornar o incorpóreo mudo, exibindo em seu lugar um pedaço, uma zona de a-significância, sendo o corpo histérico exemplar por afirmar, num limite insustentável, uma pura concentração em si, um puro ser-a-si de sua extensão, que denega e catatoniza sua própria extensão, seu espaçamento — corpo que não pode se afrouxar, se abrir; sujeito, substância absoluta, absolutamente a-significante.
41. Não há primeiramente a significação, a tradução, a interpretação: há esse limite, essa borda, esse contorno, essa extremidade, esse plano de exposição, essa cor-sujeito local, que pode simultaneamente contrair-se, concentrar-se, tender à inextensão de um ponto, e distender-se, estender-se, ser atravessada por passagens e partilhas, sendo só isso que pode fechar ou liberar espaço para “interpretações”.
42. Dir-se-á que a concentração ou a extensão, a en-topia ou a ec-topia já são interpretações, e que não há corpo que não esteja já enlaçado à rede da significação, mas respondo que é o próprio sentido que vai flutuar, ao final ou no início, sobre seu limite, sendo esse limite o corpo — não como pura e simples exterioridade ao sentido, nem como uma “matéria” intacta e intocável mergulhada numa transcendência inverossímil —, mas como O CORPO DO SENTIDO.
43. O corpo do sentido não é de modo algum a encarnação da idealidade do “sentido”: é, ao contrário, o fim dessa idealidade, o fim do sentido enquanto cessa de se remeter e reportar a si mesmo, suspendendo-se nesse limite que constitui seu “sentido” mais próprio e que o expõe como tal, expondo o corpo do sentido esse suspenso “fundamental” do sentido — que se pode chamar também a infração que o sentido constitui na própria ordem do “sentido”, das “significações” e das “interpretações”.
44. O corpo expõe a infração de sentido que a existência constitui, absoluta e simplesmente, razão pela qual não se dirá o corpo nem anterior, nem posterior, nem exterior, nem interior à ordem significante, mas em limite, e ao final não se dirá “o corpo do sentido”, como se “o sentido” pudesse ainda, nesse limite, ser suporte ou sujeito de algo, mas se dirá o corpo, absolutamente, como o absoluto do próprio sentido propriamente exposto.
45. O corpo não é nem “significante” nem “significado”, é exponente/exposto: ausgedehnt (estendido), extensão da infração que a existência é, extensão do aí, do lugar de infração por onde pode vir algo do mundo, extensão móvel, espaçamentos, distanciamentos geológicos e cosmológicos, derivas, suturas e fraturas dos arqui-continentes do sentido, das placas tectônicas imemoriais que se mexem sob nossos pés: o corpo é a arqui-tectônica do sentido.