NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.
18. Platão quer que um discurso tenha o corpo bem constituído de um grande animal, com cabeça, ventre e cauda, razão pela qual, bons e velhos platônicos, sabemos e não sabemos o que é um discurso sem cauda nem cabeça, áfalo e acéfalo: sabemos que é não-senso, mas não sabemos o que fazer com o “não-senso”, pois não vemos além da ponta do sentido, largando Platão o pé além dele.
19. “O corpo” é onde se larga o pé, não significando “não-senso” aqui o absurdo nem o sentido invertido, mas o sentido sem sentido nenhum, ou sentido de que é absolutamente excluído aproximar-se sob qualquer figura de “sentido” — sentido mudo, fechado, autístico, mas sem autos, sem “si-mesmo”, sendo esse autismo sem autos do corpo o que o torna infinitamente menos que um “sujeito” mas também infinitamente outra coisa, tão duro, intenso, inevitável e singular quanto um sujeito.
20. Nem cauda nem cabeça, portanto, pois nada serve de suporte ou substância a essa matéria, dizendo-se “áfalo e acéfalo” e não “anuro”, que serve para os batráquios, sendo o corpo impotente e ininteligente, mas essas palavras sendo elas mesmas impotentes e ininteligentes, pois o corpo não é nem besta nem impotente, exigindo antes outras categorias de força e pensamento.
21. Que seriam as forças e os pensamentos próprios a esse ser-jogado-ali que é o corpo, esse ser-abandonado, espalhado e apertado no limite do “lá”, do “aqui-agora” e do “isto”, perguntando-se quais forças-pensamentos exprimiriam a estranheza tão familiar desse ser-aí, desse ser-isto, não havendo aí nem ação, nem paixão, nem conceito, nem intuição.
22. Os corpos não são do “pleno”, do espaço preenchido: são o espaço aberto, isto é, num sentido, o espaço propriamente espaçoso mais que espacial, o que também se pode chamar de lugar, sendo os corpos lugares de existência, não havendo existência sem lugar, sem um “aqui” para o isto, não sendo o corpo-lugar nem cheio nem vazio, não tendo fora nem dentro, nem partes, nem totalidade, nem finalidade — áfalo e acéfalo em todos os sentidos, mas pele diversamente dobrada, desdobrada, multiplicada, invaginada, exogastrulada, orificiada.
23. O corpo dá lugar precisamente a isto: que a existência tem por essência não ter essência, sendo por isso a ontologia do corpo a própria ontologia, não sendo o ser aí algo prévio ou subjacente ao fenômeno, sendo o corpo o ser da existência, o que permite levar a morte a sério de outro modo, dizendo que não é a existência que é “para” a morte, mas que “a morte” é seu corpo, o que é bem diferente: não há “a morte” como essência à qual estaríamos votados, há o corpo, o espaçamento mortal do corpo, que inscreve que a existência não tem essência, mas apenas ex-iste.
24. Toda a sua vida, o corpo é também um corpo morto, o corpo de um morto, desse morto que sou vivo, sendo morto ou vivo, nem morto nem vivo, a abertura, a tumba ou a boca, uma na outra.
25. O corpo ontológico ainda não foi pensado, e a ontologia ainda não foi pensada enquanto fundamentalmente é ontologia do corpo, isto é, do lugar de existência, ou da existência local.
26. Talvez essa ontologia já não seja exatamente a pensar, perguntando-se o que se chama pensar se pensar é pensar os corpos, e qual relação desse pensamento com a pintura, com o toque, com o gozo e com o sofrimento, só sendo talvez o “corpo ontológico” a pensar ali onde o pensamento toca a dura estranheza, a exterioridade não-pensante e não-pensável desse corpo, sendo somente esse toque a condição de um pensamento verdadeiro.
27. O que tem cauda e cabeça não releva do lugar, mas do lugar-de-posição (place): cauda e cabeça são colocadas ao longo de um sentido, formando o conjunto um lugar-de-sentido, e todos os lugares-de-posição estão compreendidos no grande vira-de-cabeça do Animal Universal, mas o sem-cauda-nem-cabeça não entra nessa organização nem nessa espessura compacta, não tendo os corpos lugar-de-posição nem no discurso nem na matéria, habitando nem “o espírito” nem “o corpo”, tendo lugar no limite, enquanto limite: borda externa, fratura e interseção do estrangeiro no contínuo do sentido e da matéria — abertura, discrição.
28. Cauda e cabeça, ao final, os corpos o são também: são a discrição mesma dos lugares do sentido, dos momentos do organismo, dos elementos da matéria, sendo um corpo o lugar que abre, que afasta, que espaça o falo e o céfalo, dando-lhes lugar de fazer evento — gozar, sofrer, pensar, nascer, morrer, fazer sexo, rir, espirrar, tremer, chorar, esquecer.