NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.
8. Ninguém mais no mundo conhece algo como “o corpo”, sendo ele o produto mais tardio, mais longamente decantado e refinado de nossa velha cultura, sendo o corpo, se o Ocidente é uma queda como quer seu nome, o último peso, a extremidade do peso que basculamos nessa queda, a pesantez mesma, descendo em si sob a lei de sua própria gravidade até se confundir com sua carga — muro de prisão, massa de terra no túmulo, peso específico de água e ossos, mas sempre e antes de tudo encarregado de sua queda.
9. Precipitado de muito alto, pelo próprio Altíssimo, na falsidade dos sentidos e na malignidade do pecado, o corpo é inevitavelmente desastroso, eclipse e queda fria dos corpos celestes, perguntando-se se não teríamos inventado o céu apenas para dele fazer decair os corpos.
10. Não se deve crer ter terminado com isso: já não falamos de pecado, temos corpos salvos, de saúde, de esporte, de prazer, mas o desastre se agrava ainda mais, pois o corpo está sempre mais caído, mais baixo, sendo sua queda sempre mais iminente e angustiante — “o corpo” é nossa angústia posta a nu.
11. Estranhos corpos estranhos, dotados de Yin e Yang, de Terceiro Olho, de Campos de Cinábrio e Oceano dos Sopros, corpos incisados, gravados, talhados em microcosmos e constelações, ignorantes do desastre, subtraídos à pesagem de sua nudez e votados a se concentrarem em si mesmos até a retração de todos os sentidos num sentido insensível e branco, pontos puros de uma luz toda ejaculada em si; certamente nenhuma de suas palavras nos fala de nosso corpo, sendo o corpo dos Brancos, pálido, sempre à beira de se espalhar, mais estranho a eles que uma coisa estranha.
12. Não pusemos o corpo a nu: nós o inventamos, e ele é a nudez, e não há outra, sendo o que ela é o de ser mais estranha que todos os estranhos corpos estranhos, sendo esse o pensamento que levamos a cabo ao nomear “o corpo” como o Estrangeiro absolutamente, pensamento que não se deve rebaixar, cujo poder de arrancamento se deve antes atravessar sem fingir que não teve lugar.