Fé de nada

NANCY, Jean-Luc. La déclosion. Paris: Galilée, 2005.

Uma fé de absolutamente nada

1. A singularidade de Gérard Granel consiste em ter articulado, durante certo período, uma pertença católica efetiva, uma filosofia profundamente marcada por Heidegger e Marx e uma atenção precoce a Derrida, sem reduzir nenhuma dessas dimensões às outras nem conservar entre filosofia e fé a exterioridade habitual, de modo que sua trajetória permite interrogar o ponto de contato entre fé religiosa e pensamento filosófico e perguntar se, mesmo após a ruptura com a Igreja e com a confissão de fé, permaneceu na obra posterior algum vestígio dessa articulação inicial.

2. O último texto publicado por Granel, dedicado à “kênose ontológica do pensamento desde Kant”, radicaliza a questão do esvaziamento do ser ao reinterpretar a kênose teológica em chave ontológica e ao buscar, para além de Kant, Husserl e mesmo Heidegger, uma forma de pensar o ser inteiramente destituída de substancialidade, até chegar à “finitude pura e simples do próprio Ser”.

3. A ultrapassagem de Heidegger realiza-se quando Granel desloca a primazia da analítica existencial do cuidado para uma transcendentalidade perceptiva ou poiética na qual o mundo não é inicialmente dado por uma pragmática do uso, mas surge numa percepção criadora que abre o aparecer sem apropriação subjetiva e sem referência do real a um sujeito.

4. O passo decisivo ocorre quando o Aberto é compreendido como corpo, não como matéria contraposta à alma nem como corpo próprio fenomenológico, mas como formalidade originária do mundo, lugar de diferenciação dos a priori do visível e vazio ontológico em que o aparecer se espacializa e se distribui.

5. A introdução do “gesto criador de Deus” revela uma ambiguidade decisiva porque Granel parece rejeitar imediatamente a criação teológica como fuga diante da finitude do ser, mas sua própria argumentação distingue implicitamente duas concepções de criação: uma criação como produção realizada por um sujeito divino substancial e outra como abertura ex nihilo, na qual o vazio se abre em mundo sem produtor, fundamento ou substrato.

6. O logos submetido à kênose deixa de funcionar como discurso conceitual de fundamento e desloca-se para uma escrita descritiva, poética e perceptiva capaz de acompanhar o surgimento do mundo sem convertê-lo em objeto, enquanto a metafórica do divino passa a nomear não um além-mundo, mas a alteridade constitutiva da própria abertura mundana.

7. A kênose levada até seu limite converte o divino em forma-corpo da abertura luminosa do mundo, de modo que “Deus” se esvazia de substância e o que resta de divino é apenas a medida do compartilhamento entre luz e sombra, visível e invisível, enquanto a fé pode ser repensada como gesto de fidelidade pensante que ultrapassa o saber sem cair na irracionalidade e permanece absolutamente ateia, sem religião nem crença.